sexta-feira, 15 de outubro de 2010

AINDA TÊM OS NOSSOS ESTUDANTES

RAZÕES DE QUEIXA?...



«Daisy vai à escola por um cabo, a única ligação entre o local onde vive, a 60 km de Bogotá, e o mundo exterior.

Enquanto Daisy Mora se prepara para descer como um foguete para chegar à escola, o seu irmão mais novo, Jamid, olha para ela, inquieto. Com uma voz melancólica, ela tranquiliza o rapazito de cinco anos cantando a canção colombiana do Vaquero, o pastor que suspira pela sua amada. Depois, ela prende-se à roldana ferrugenta que mais faz lembrar um gancho do talho.
Como um caracol na sua concha, Jamid enrola-se no saco de juta. Daisy amarra a carga de cerca de 14 quilos ao gancho da corda da roldana, mordendo os lábios com grande ansiedade. "Finalmente", murmura, enquanto o suor lhe escorre pela testa. Agora, ata as extremidades de uma corda de cânhamo a dois ganchos que prende ao cubo da roda. Cria deste modo uma espécie de baloiço de ganchos onde se senta.



As duas crianças mergulham ao longo do cabo de aço para as profundezas do vale verde-escuro do Rio Negro. Enquanto a roldana chispa e o metal chia ritmadamente, Daisy bate várias vezes na cavilha de aço da roldana para que não se solte. Como o andamento de um combóio de mercadorias, as crianças atravessam o nevoeiro húmido. 360 metros por baixo deles, o rio Negro ruge. Precipitam-se na direcção da encosta da outra margem e, durante segundos, o nevoeiro permite uma visão da floresta tropical, do edifício da escola, do rio e, de novo, da floresta.
São necessários apenas 60 segundos para percorrer os 800 metros do caminho no cabo. A protecção de amortecimento, um pneu velho de camião, parece cada vez maior. Daisy agarra o ramo em forma de forquilha que lhe serve de travão. Faz pressão com o ramo ritmicamente contra o cabo de aço até que o metal chispa, e se solta um cheiro a madeira queimada. Os seus pequenos dedos apertam a madeira contra o cabo. O resto do balanço é absorvido pelo pneu. "Uff!", diz Daisy, "conseguimos outra vez".
Neste vale é o pai que entrega a roldana de ferro aos filhos e lhes explica como chegar à escola com este veículo. A primeira viagem de cada criança é uma espécie de rito de iniciação em que toda a família participa. Enquanto o pai mostra como o travão tem de ser pressionado contra o cabo, a mãe faz o que pode para controlar um ataque de histeria benzendo-se com veemência. E quando a viagem de estreia acaba em bem, festejam e finalmente a mãe pode chorar de alegria e de alívio.


Doze cabos de aço ligam as vertentes de ambos os lados do rio. Para as 15 famílias que aqui vivem em cabanas isoladas, a cerca de 60 kms para sudeste de Bogotá, estes cabos são a única forma de contacto com o mundo exterior.
O explorador alemão Alexander von Humboldt relatou, em 1804, que os nativos utilizavam um sistema de cordas. As primeiras cordas a que os índios se agarraram eram estendidas através de vales e pequenos desfiladeiros.
Com o início da industrialização, as cordas de cânhamo foram substituídas por cabos de aço. Ao longo destes cabos podia ser transportada fácil e rapidamente a madeira, a matéria-prima de que mais necessitavam. Quando a madeira das regiões de acesso fácil já tinha sido totalmente cortada, novos cabos eram instalados em zonas mais remotas da floresta tropical. Quando se atingiu o clímax da exploração florestal nos anos 60, o corte de madeiras passou a ser proibido por lei.
Os cabos sobreviveram à exploração florestal. Os agricultores descobriram que as clareiras feitas nas zonas arborizadas podiam ser utilizadas para a agricultura e pastoreio. O cabo de aço, tendo servido durante dois séculos para o transporte de madeiras, tornava-se agora essencial para o acesso a regiões inacessíveis. Para os colonos, os cabos são o único sistema de transporte de que dispõem. Aquilo que não podem produzir, os homens e as mulheres vão comprar à aldeia de Guajabetal, a cerca de 10 Kms de distância. Com a ajuda dos cabos, a mandioca, o milho e o gado são transportados para o mercado, levando de volta materiais de construção para as cabanas.



Os pimparos, pássaros de penas amarelas, soltam gritos agudos no meio da floresta tropical. Um ribeiro corre sobre as pedras avermelhadas do caminho íngreme que tem de ser desbravado todos os meses a golpes de faca pelos homens e coberto com novas pedras. Enormes árvores Arranyanes com as suas flores vermelhas crescem ao longo do caminho. Daisy e Jamid olham para o outro lado da ravina. Jamid pergunta à irmã quando é que terão idade suficiente para utilizarem o cabo sozinhos. "Para o ano", responde ela. Depois chegam à zona da encosta onde pastam as duas vacas da família.

A cabana da família Mora é feita de tábuas de madeira. Foi o próprio Guillermo Mora, um homem forte de bigode e olhos sorridentes castanhos-escuros, quem a construíu. Diz que a construção é 'arejada': a chuva ao bater nas tábuas abriu-lhes algumas fendas do tamanho de uma mão por onde o vento sopra. A dona da casa, Nidia Cifuentes, pensa que é uma coisa útil. Assim pode sempre ver os filhos lá fora, além de que o fumo permanente da lareira tem por onde escapar quando ela está a cozinhar arroz e feijão. Guillermo e a mulher partilham a única cama com os 4 fihos mais pequenos, enquanto Daisy e Jamid dormem juntos num colchão no chão.
À noite, Guillermo acende os candeeiros de petróleo. Ao pôr-do-sol senta-se no degrau da porta do corredor coberto com algumas tábuas que separam as duas únicas divisões, a cozinha e o quarto. Fumando um cigarro, tenta esquecer a dureza de um trabalho cujo rendimento mal dá para alimentar a família. Colher as bananas, fixar os feijoeiros, cavar a terra, deitar abaixo árvores às escondidas, espalhar o fertilizante e os pesticidas, cuidar dos dois animais - muito trabalho para um homem só. ...
Nídia Cifuentes inicia os preparativos para o festival serrano. ... Ao meio-dia todas as famílias se juntam. O alarido das crianças a brincar mistura-se com as canções do grupo musical Los Autênticos del Campo. Hoje vai ser inaugurado o novo edifício da Escola. ... "Os nossos filhos sobreviverão neste mundo com a ajuda do cabo, até que o Governo construa a ponte."»



Reportagem de Christoph Otto (texto e fotografias)
Traduzido por Aida Macedo
Expresso - REVISTA - 22 de Setembro de 2001

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

JESUS CRISTO



FIGURA CENTRAL DA HISTÓRIA


Como acontece com figuras notáveis, o cognome de Cristo, dado a Jesus, refere-se ao papel por Ele desempenhado no decurso da História.

Com efeito, a palavra Cristo, em grego Christos e em hebraico Mashiach, donde deriva a designação corrente de Messias, significa, em ambas as línguas,
ungido.


Segundo o Antigo Testamento, três espécies de pessoas eram ungidas: os profetas, os sacerdote e os reis. É precisamente no desempenho destas três funções - de profeta, sacerdote e rei - que Jesus aparece na História.


CRISTO, COMO PROFETA




Na Sagrada Escritura, profeta é aquele que fala em nome de alguém. É aquele que fala aos homens em nome de Deus; é, no sentido mais compreensivo da palavra, um porta-voz de Deus.

Quando Jesus inaugurou o Seu ministério, os crentes do Seu tempo viram n`Ele um profeta. Diziam: "Este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo." S. João 6:14.

É por isso que o Apóstolo Paulo declara, na epístola aos Hebreus, capítulo 1, versículo 1: "Havendo Deus antigamente falado muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho."

É na qualidade de profeta que Jesus assume o título de Mestre: "Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque Eu o sou" S. João 13:13; cf. S. Mateus 23:8-10.

E como eram os ensinos de Jesus?

Terminado o Sermão da Montanha, lemos que a "multidão se admirou da Sua doutrina, porquanto os ensinava como tendo autoridade, e não como os escribas" (S. Mateus 7:28 e 29), acerca dos quais se lê "dizem e não praticam" (S. Mateus 23:3).

O encanto dos ensinos de Jesus era tal que, em certa ocasião - o que motivou a segunda multiplicação dos pães - o Mestre disse: "Tenho compaixão da multidão, porque já está comigo há três dias, e não têm que comer; e não quero despedi-la em jejum, para que não desfaleça no caminho." S. Mateus 15:32.

Noutra ocasião, quando alguns homens foram enviados pelos sacerdotes e fariseus para prenderem a Jesus, em vez de O prenderem ficaram, eles próprios, literalmente presos das Suas palavras. E quando os que os tinham enviado lhes perguntaram: "Porque não O trouxestes?", eles não puderam deixar de testemunhar: "Nunca homem algum falou assim como este homem." S. João 7:44-46.

Na realidade, ao longo de toda a História, ninguém jamais falou como Jesus.

O ensino de Platão estendeu-se por cerca de quarenta anos; por um período idêntico se estendeu, mais perto de nós, o ensino de Kant. Mas perguntamos: Quem está hoje sendo influenciado para o bem pelos ensinos de Platão ou de Kant? Mais ainda: Quem estaria hoje disposto a dar a sua vida em defesa do ensino de qualquer desses filósofos?

O mesmo não se passa com os ensinos de Cristo. Apesar do Seu ministério se ter efectuado apenas durante uns escassos três anos e meio, e já há cerca de vinte séculos, quantos não estão sendo influenciados pela Sua doutrina; quantos não estão dispostos a dar a sua vida em defesa dessa doutrina?


CRISTO, COMO SACERDOTE


Depois da Sua morte expiatória na cruz do Calvário, Jesus ressuscitou e, passados quarenta dias, subiu ao Céu, onde está desempenhando as funções de
Sumo Sacerdote.



É na epístola aos Hebreus que o sacerdócio de Cristo no Santuário Celeste é particularmente salientado.


Lemos aí, com referência a Jesus, que "convinha que em tudo fosse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote naquilo que é de Deus, para expiar os pecados do povo." Hebreus 2:17. Ele é um "grande sumo sacerdote" (4:14), "um grande sacerdote sobre a casa de Deus" (10:21).

As suas qualidades são resumidamente descritas no capítulo 7:24-28: "Este, porque permanece eternamente, tem um sacerdócio perpétuo. ... Porque nos convinha tal sumo sacerdote, santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores, e feito mais sublime do que os Céus; que não necessitasse, como os sumos sacerdotes, de oferecer cada dia sacrifícios, primeiramente pelos seus próprios pecados, e depois pelos do povo; porque isto Ele fez, uma vez, oferecendo-se a Si mesmo. Porque a lei constitui sumos sacerdotes a homens fracos, mas a palavra do juramento, que veio depois da lei, constitui ao Filho, perfeito para sempre."

Como nosso sacerdote, Ele conhece pessoalmente a cada um de nós, sabe o nosso nome, a casa onde moramos, não é estranho às nossas alegrias e tristezas, às nossas tentações e problemas, às nossas vitórias e fracassos, às nossas resoluções e promessas, ao alvo supremo das nossas vidas. Ele dedica-nos uma amizade inalterável, em comparação com a qual a dedicação do nosso mais íntimo amigo não passa de um pálido reflexo.


CRISTO COMO REI




Quando Pilatos, perante a acusação dos judeus, perguntou a Jesus se Ele era rei, o divino Acusado respondeu: "O Meu reino não é deste mundo." S. João 19:36, 37.

Não havia chegado ainda a hora da manifestação da Sua realeza. Antes disso, viria o Juízo, para apuramento dos súbditos do Seu reino. Apurados, pelo Juízo, os súbditos do Seu reino, Jesus manifestar-se-á, "como Rei dos reis e Senhor dos senhores" (I Timóteo 6:14, 15; Apocalipse 17:14) acompanhado por inumerável multidão de anjos, "os quais ajuntarão os Seus escolhidos" (S. Mateus 24:31), ressuscitando-os, se já desceram à sepultura; transformando-os, se se encontram ainda vivos, a fim de estarem para sempre com Ele. I Coríntios 15:15-58.

«Não quero porém, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que já dormem, para que não vos entristeçais, como os demais que não têm esperança. Porque se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que em Jesus dormem, Deus os tornará a trazer com Ele. Dizemo-vos, pois, isto pela palavra do Senhor: que nós, os que ficarmos vivos para a vinda do Senhor, não precederemos os que dormem. Porque o mesmo Senhor descerá do Céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor. Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras.»I Tessalonicenses 4:13-18.

Tendo em vista este glorioso acontecimento, aconselha o apóstolo Paulo: "Todo o vosso espírito, e alma e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a Vinda de nosso Senhor Jesus Cristo." I Tessalonicenses 5:23.

O termo grego aqui usado para a Vinda é parousia, que era empregado para designar, no estilo técnico oficial de então, a vinda solene de um soberano a uma cidade ou reino, como sucedeu com Nero e Adriano, ao irem, como imperadores, à Grécia. Eram então celebrados grandes festejos; eram cunhadas moedas em que se fazia referência ao acontecimento; nalguns casos, como sucedeu com Adriano, a parousia do imperador marcou o início de uma nova era.

Se, na Grécia antiga, foram feitos os mais cuidadosos e dispendiosos preparativos para a parousia de imperadores moralmente tão indignos como Nero e Adriano, que preparativos deviam ser feitos, hoje, pelos crentes, para a parousia do grande Rei!



Ernesto Ferreira

Revista - Sinais dos Tempos
Publicadora SerVir

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Nem de menos...Nem de mais!




Canção das Mulheres


Que o outro saiba quando estou com medo,
e me tome nos braços
sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não saia batendo a porta,
mas entenda que não o amarei menos por que estou quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude,
e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.

Que o outro perceba minha fragilidade, e não se ria de mim, nem se aproveite disso.
Que se eu faço uma bobagem, o outro goste um pouco mais de mim,
porque também preciso fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada, o outro não pense logo que estou nervosa,
ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.


Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo mais um pouco,
em lugar de voltar logo à sua vida, não porque lá está sua verdade,
mas talvez seu medo, ou sua culpa.


Que se começo a chorar sem motivo depois de um dia daqueles,
o outro não desconfie logo que é culpa dele, ou que não o amo mais.

Que se estou numa fase ruim, o outro seja meu cúmplice,
mas sem fazer alarde, nem dizendo
"Olha que estou tendo muita paciência com você!"


Que se me entusiasmo por alguma coisa, o outro não a diminua,
nem me chame de ingénua, nem queira fechar essa porta necessária
que se abre para mim, por mais tola que lhe pareça.


Que, quando sem querer, eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas,
o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que quando me levanto de madrugada e ando pela casa,
o outro não venha logo atrás de mim reclamando:
"Mas que chateação essa sua mania, volta p'ra cama!"


Que se eu peço uma segundo bebida no restaurante,
o outro não comente logo: "Poxa, mais uma?!"

Que se eu eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura,
o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro:


filho,

namorado,

marido,

amigo,


não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva,
mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço,
não sou, nem devo ser, a mulher-maravilha,

mas apenas uma pessoa:
vulnerável
e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa,

apenas...
"uma mulher".


Lia Luft



A EPIDEMIA DA INFERIORIDADE

Ele começou a vida com todos os obstáculos e desvantagens clássicas. A sua mãe era uma mulher dominadora, de vontade forte, que achava difícil amar as outras pessoas. Casou-se três vezes e o seu segundo marido divorciou-se dela porque o espancava regularmente. O pai da criança que estou descrevendo foi o seu terceiro marido. Morreu de um ataque cardíaco alguns meses antes do nascimento da criança. Como consequência, a mãe teve de trabalhar longas horas desde a mais tenra idade do filho.
Ela não lhe deu nenhum afecto, amor, disciplina ou educação nos primeiros anos da sua vida. Até o proibiu de lhe telefonar quando estava a trabalhar. As outras crianças não queriam saber dele, por isso estava quase sempre sozinho. Foi totalmente rejeitado desde pequeno. Era feio, pobre, mal-educado e detestável.
Quando tinha treze anos de idade o psicólogo de uma escola comentou que provavelmente o rapaz nem sabia o significado da palavra 'amor'.

Durante a adolescência as meninas não queriam saber dele e ele brigava com os garotos. Apesar de um Quociente de Inteligência alto, fracassou na escola e finalmente desistiu de estudar no terceiro ano.
Pensou que seria aceite na Marinha. Eles formavam homens, é o que se dizia, e ele queria ser um Homem. Mas os seus problemas acompanharam-no. Os outros marinheiros riam dele e ridicularizavam-no. Ele defendeu-se, resistiu à autoridade, enfrentou a corte marcial e foi expulso da Marinha com uma dispensa desonrosa.
Ali estava ele – um jovem com pouco mais de vinte anos – absolutamente sem amigos e naufragado. Era pequeno e magro. A sua voz era esganiçada como a de um adolescente. Estava ficando calvo. Não tinha talento, nem habilidade, nem valor. Nada.

Novamente pensou que podia fugir dos seus problemas se fosse morar num país estrangeiro. Mas lá também foi rejeitado. Nada mudou. Enquanto lá esteve, casou-se com uma jovem que era filha ilegítima e trouxe-a com ele de volta aos Estados Unidos. Mas logo ela começou a criar o mesmo desprezo por ele que todos demonstravam. Deu-lhe dois filhos, mas ele jamais desfrutou do status e do respeito que um pai deve ter.

O seu casamento continuou a esfacelar-se. A sua esposa exigia, cada vez mais, coisas que ele não lhe podia dar. Em lugar de aliar-se a ele contra o mundo amargo, como ele esperava, tornou-se o seu mais perverso oponente. Podia derrotá-lo nas brigas e aprendeu a intimidá-lo. Em determinada ocasião, trancou-o na casa de banho para castigá-lo. Finalmente, forçou-o a abandoná-la.

Tentou viver sozinho, mas sentia-se terrivelmente solitário. Depois de dias de solidão, foi para casa e literalmente implorou que ela o aceitasse de volta. Perdeu todo o orgulho. Rastejou. Humilhou-se. Aceitou as suas exigências. Apesar do seu magro salário, deu-lhe algum dinheiro de presente, dizendo que podia gastá-lo como bem entendesse. Mas ela riu-se dele. Zombou das suas frágeis tentativas para sustentar a família. Ridicularizou o seu fracasso. Zombou da sua impotência sexual diante de um amigo que lá estava.
Em certa ocasião, quando as trevas do seu pesadelo particular o envolveram, caiu de joelhos e chorou amargamente.

Finalmente, em silêncio, deixou de lutar. Ninguém o queria. Ninguém jamais o quisera. Talvez fosse o homem mais rejeitado da actualidade. O seu ego jazia despedaçado, feito pó!
No dia seguinte, tornou-se um homem estranhamente diferente. Levantou-se, foi à garagem e apanhou uma espingarda que ali escondera. Levou-a consigo para o emprego, que acabara de arranjar, num depósito de livros.

E de uma janela do quinto andar daquele prédio, logo depois do almoço, no dia 22 de Novembro de 1963, atirou duas balas que esfacelaram a cabeça do Presidente John Fitzgerald Kennedy.

Lee Harvey Oswald, o rejeitado, o detestável fracasso, matou o homem que, mais do que qualquer outro homem na face da terra, personificava todo o sucesso, beleza, riqueza e amor familiar que lhe faltavam. Ao disparar aquelas balas, utilizou a única habilidade que adquirira em toda a sua miserável vida.


Os problemas pessoais de Oswald não justificam o seu comportamento violento, é claro, e eu não tentaria absolvê-lo da culpa e da responsabilidade. Mas uma compreensão do seu tormento interior e da sua confusão ajuda-nos a vê-lo, não só como um perverso assassino, mas também como o homem digno de dó e derrotado em que se transformou. Em cada dia da sua vida, desde os solitários dias da infância até o momento televisionado da sua morte espectacular, Oswald experimentou a consciência esmagadora da sua própria inferioridade.
Finalmente, como geralmente acontece, a sua angústia transformou-se em ira.

A maior das tragédias é que a situação angustiosa de Lee Harvey Oswald não é coisa fora do comum no mundo hoje.
Enquanto outros talvez reajam menos agressivamente, esta mesma percepção consumidora, de insuficiência, pode ser encontrada em todos os caminhos da vida - em cada vizinhança, em cada igreja e em cada ambiente escolar. É particularmente verdadeiro quanto aos adolescentes de hoje.
Tenho observado que a grande maioria dos que estão entre os doze e os vinte anos de idade sentem-se amargamente desapontados com o que são e o que representam. Num mundo que adora os 'super-stars' e os homens-milagres, eles olham no espelho à procura de sinais de grandeza, e encontram apenas um caso terminal de acne.
A maioria desses jovens desanimados não admitirá o que sente porque dói reconhecer esses pensamentos íntimos. Oswald jamais tornou públicas as dúvidas que tinha de si mesmo e a sua solidão - nem lhe teríamos dado ouvidos se o fizesse.

Assim, grande parte da rebeldia, insatisfação e hostilidade dos adolescentes emana dos sentimentos avassaladores e incontroláveis de inferioridade e incapacidade que, raramente, encontram expressão verbal.


Mas os adolescentes não estão de modo nenhum sozinhos nesta desvalorização pessoal. Cada idade apresenta as suas ameaças próprias e únicas ao amor-próprio. Como pretendo discutir, as criancinhas sofrem tipicamente de uma severa perda de status durante os mais tenros anos da infância. Do mesmo modo, a maioria dos adultos ainda está tentando conviver com a inferioridade experimentada no começo da vida. E estou convencido que a senilidade e a deterioração mental no fim da vida frequentemente resultam da crescente percepção que os idosos experimentam de que estão vivendo num mundo exclusivamente de jovens; no qual rugas, dores lombares e dentaduras são assuntos de zombaria; onde as suas ideias estão fora de moda e a sua existência infinita é um peso.
Este sentimento de inutilidade é a recompensa especial que reservamos para os sobreviventes da vida, e não me surpreendo que os idosos frequentemente 'se desliguem' intelectualmente.

Assim, se o sentimento de incapacidade e inferioridade são tão universalmente dominantes em todas as idades da vida actual, temos de nos perguntar:
Porquê?


Porque é que os nossos filhos não podem crescer aceitando-se como são? Por que tantos sentem que não são amados e que são detestáveis? Por que os nossos lares e escolas produzem mais desespero e autodesprezo em lugar de confiança, calma e respeito? Por que todas as crianças têm de bater com a cabeça na mesma velha roda? Estas perguntas são muitíssimo significativas para os pais que desejam proteger os seus filhos da agonia da inferioridade.


Alguns dos pequeninos vão-se sentir tão inferiores
que pensarão que até Deus não poderia amá-los.
Sentem-se tão completamente indignos e vazios,
a pensar que Deus não se importa nem compreende.


Chris era uma criança assim. Escreveu o seguinte bilhetinho ao Dr. Richard A. Gardner,
um psicoterapeuta que trabalha com crianças:



"Querido Doutor Gardner

O que me está a chatear é que há muito tempo uma pessoa grande,
um menino de mais ou menos 13 anos de idade, chamou-me de tartaruga;
e eu sei que ele disse isso por causa da minha cirurgia plástica.
E eu acho que Deus me odeia por causa do meu lábio. E quando eu morrer
Ele provavelmente vai me mandar para o inferno.

Com amor, Chris"

Você é capaz de sentir a solidão e o desespero de Chris?
Que infelicidade para uma criança de 7 anos de idade crer que já é odiada por todo o universo!
Que desperdício de potencial desde o momento do seu nascimento!
Que sofrimento desnecessário suportará por toda a sua vida!

Mas Chris é apenas outra vítima do sistema estúpido e vazio de avaliação do mérito humano
- um sistema que destaca os atributos que não podem ser obtidos pela maioria dos nossos filhos.
Em lugar de recompensar a honestidade, a integridade, a coragem, a habilidade, o humor, o espírito maternal, a lealdade, a paciência, a diligência, ou outras virtudes que eram louvadas antigamente, reservamos o crédito máximo para os jovens inteligentes que 'têm boa aparência' na praia.

Não seria apropriado que abandonássemos esta discriminação desnecessária?

A actual epidemia de insegurança resultou dum sistema totalmente injusto e desnecessário de avaliação dos valores humanos, agora predominante na nossa sociedade. Nem todos são considerados dignos; nem todos são aceites. Pelo contrário, reservamos o nosso louvor e admiração para alguns poucos escolhidos que foram favorecidos desde o nascimento com características que consideramos de alto valor. É um sistema perverso, e nós, na qualidade de pais, temos de contrabalançar o impacto. Este livro procura demonstrar que todas as crianças têm valor e devem receber o direito ao respeito e à dignidade pessoais.  Pode ser feito!

... Espero que o leitor veja com que eficiência (e geralmente sem tomar consciência do facto) ensinamos às nossas criancinhas que o mérito e a aprovação social estão além do seu alcance. Assim, glorificando um modelo idealizado ao qual poucos conseguem igualar-se, criamos um imenso exército de 'joões-ninguém' - que nasceram perdedores e ficaram desanimados da vida antes de realmente ela começar. Tal como Lee Harvey Oswald, voltam-se para cá e para lá, a procurar, em vão, uma solução para o seu vazio e sofrimento interiores. Para os milhões que nunca a encontram, a estrada para o mérito pessoal transforma-se num longo desvio, não pavimentado, que não leva a lugar nenhum.

A questão do mérito pessoal não é apenas uma preocupação daqueles que têm falta dele. Num sentido bem real, a saúde de toda a sociedade depende da facilidade com que os seus membros individualmente podem obter aceitação pessoal.

Assim, sempre que as chaves do amor-próprio parecem estar fora do alcance de uma grande percentagem de pessoas, há uma ocorrência ampla e certa de 'doenças mentais', neurose, alcoolismo, abuso de drogas, ódio, violência e desordem social. O mérito pessoal não é uma coisa que os seres humanos têm a liberdade de pegar ou largar. Precisamos dele e, quando é inatingível, todos sofrem.


Esconde-Esconde - Editora Vida
James Dobson
Psicólogo
(Ler mais em Meditação para a Saúde,
AUTO-ESTIMA, 01/10/2010)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

LAR, doce LAR




O Dr. James Dobson é psicólogo e conselheiro familiar há mais de 25 anos, além de fundador e presidente da Focus on the Family, uma organização que se dedica ao apoio e preservação de lares e famílias em todo o mundo. Os seus programas são transmitidos mundialmente por mais de 4 000 emissoras de rádio, e as revistas publicadas pela Focus on the Family são lidas mensalmente por mais de 3 milhões de pessoas.
Editora United Press Ltda

Este livro é dedicado à família e aos homens, mulheres e crianças que vivem e amam dentro desta unidade básica da sociedade – o Lar.
As instituições do casamento e da paternidade são essenciais para o futuro da humanidade. Devemos dar-lhes todas as oportunidades para que sobrevivam e floresçam num ambiente cada vez mais hostil. Se os comentários neste livro contribuírem para este objectivo de alguma forma, então
o meu esforço para escrevê-los terá valido a pena.
Dr. James Dobson


INTRODUÇÃO

Obrigada pelo seu interesse neste pequeno livro – Lar, Doce Lar. Permita-me dizer-lhe como ele veio a ser escrito e qual é o motivo por que foi preparado. Nos últimos anos, tenho tido o privilégio de entrar diariamente nos lares de milhões de pessoas através de 250 das maiores emissoras de rádio e estações de televisão nos Estados Unidos. O programa também está a ser transmitido noutros países, visando alcançar 50 milhões de pessoas em cada semana no próximo ano. Este programa de 90 segundos, chamado «Focus on the Family Commentary» (Comentários – Valor para a Família), trata de uma ampla variedade de assuntos relacionados com o casamento, o papel dos pais e questões importantes para o lar.

A única dificuldade de preparar este programa é o tempo muito curto. É realmente um desafio apresentar um tema, dizer alguma coisa útil e interessante sobre ele, e, então, apressadamente, anunciar o encerramento sem exceder o limite de tempo. Alguns de vós sabeis o quanto é difícil resumir qualquer pensamento ou ideia num minuto e meio. É mais fácil falar durante horas do que falar por alguns poucos instantes.
Finalmente, este formato conciso também impõe uma certa disciplina ao processo comunicativo. Cada palavra deve ser escolhida com cuidado. Cada conceito é fervido em alta temperatura até que se reduza ao essencial. Elimina-se tudo o que for supérfluo. O resultado final é uma série de recomendações e comentários que foram afiados e polidos ao ponto máximo.

O leitor não vai desperdiçar tempo algum para chegar à essência da questão. O livro que tem em mãos é uma selecção desses comentários de que falei, que espero sejam do seu interesse e lhe sirvam de ajuda. Eles tratam de Adolescência, Dinheiro, Sexo, Velhice, Disciplina dos filhos e dezenas de outros assuntos que dizem respeito à família. Alguns são práticos. Outros, espirituais. Alguns são sérios. Outros, engraçados. E alguns têm simplesmente a intenção de inspirar o que há de melhor dentro de nós. No final, cada comentário é destinado a fazer a sua própria pequena contribuição para as relações mais importantes – aquelas que florescem no lar – para que sejam um LAR, doce LAR.

Um brinde à sua família.
James C. Dobson, Ph.D.



AUTORIDADE PATERNA

Um escritor especializado no assunto de desenvolvimento da criança sugeriu que os pais e os filhos deveriam estar ao mesmo nível – e assim tomarem decisões baseadas em negociação e acordo. Afinal de contas, disse ele, quem sabe o que é melhor para o menino ou menina? Talvez o filho esteja certo, e o pai, errado.
Quando ouvi esse conselho, do qual discordo fortemente, lembrei-me do pequeno hamster que a minha filha tinha quando era criança.
Certo dia, fiquei observando o pequeno e peludo animal a tentar sair da sua gaiola.
Ele tentou incessantemente abrir a porta e enfiar o narizinho peludo entre as barras da gaiola.

Foi então que notei o nosso cachorrinho bassê, Siggie, sentado a apenas três metros de distância, escondido nas sombras. Ele também estava observando o hamster. As suas orelhas estavam em pé, e era bem óbvio o que ele estava pensando: Vamos lá, nené. Abra essa gaiola e você será o meu almoço.
Se o hamster tivesse a infelicidade de escapar da gaiola, algo que ele queria desesperadamente fazer, morreria em questão de segundos. Obviamente, de onde eu estava, vi algo que o hamster não podia saber. Eu tinha uma perspectiva diferente da dele. Eu podia perceber perigos que ele não podia antever. Por isso, neguei-lhe algo que ele desejava muito conseguir.

A mesma coisa acontece com as crianças. Os pais têm a perspectiva de maturidade que falta aos seus filhos. Às vezes, aquilo mesmo que mais desejam seria desastroso se lhes fosse dado. É por isso que sou um defensor ardoroso da autoridade paterna quando os filhos ainda são pequenos.

Mesmo que os pais não sejam perfeitos, a maioria deles faz o que é melhor para os seus filhos – e não podemos minar a sua capacidade de liderar os seus próprios lares. Essa posição é inequivocamente apoiada pelas Escrituras. O apóstolo Paulo escreveu: «Filhos, obedecei em tudo aos vossos pais, porque isto é agradável ao Senhor». Colossenses 3:20.





A LIGAÇÃO ENTRE COMPORTAMENTO E CONSEQUÊNCIAS

Proteger uma criança das consequências do seu comportamento pode levá-la a tornar-se mais tarde um adulto imaturo.

Um dos objectivos primordiais durante a pré-adolescência é ensinar à criança que o comportamento leva inevitavelmente a consequências. Infelizmente, a conexão é muitas vezes interrompida. Por exemplo, uma criança quer ter um cachorro, mas nunca lhe pedem para alimentá-lo e cuidar dele.

Uma criança de dez anos é apanhada roubando doces numa loja, mas é libertada para ficar sob a custódia dos pais. Nada acontece. Um jovem de quinze anos pega as chaves do carro da família, mas os pais pagam a multa por ele conduzir sem carta de condução.

Assim, durante toda a infância, esses pais amorosos, em seus mal orientados esforços para proteger o filho ou a filha de um desgosto, colocam-se entre o comportamento deles e as consequências naturais e inevitáveis que daí decorrem. Sob tais circunstâncias, uma pessoa jovem pode entrar na idade adulta sem saber realmente que a vida pode feri-lo.

Ele ou ela pode tornar-se um adulto constantemente adolescente precisando sempre que alguém pague a fiança pelas suas confusões e irresponsabilidades.

Como evitar este erro? Ligando o comportamento às consequências.

Se a Jane descuidadamente perde o dinheiro do seu lanche, ela simplesmente fica sem o lanche. Se o Jack perde o autocarro da escola porque se atrasou pela manhã, ele que trate de caminhar até à escola. Obviamente, seria fácil levar este princípio muito longe e tornar-se cruel. Mas um gostinho de fruta amarga que a irresponsabilidade proporciona pode ensinar a um jovem lições valiosas que lhe serão úteis mais tarde.





UMA ESTRELA NA MAÇÃ

Alguns pais referem-se aos seus filhos como a «maçã» dos seus olhos, mas uma mãe que conheço pensa nos seus filhos afectuosamente como a «estrela» na maçã. Essa mãe descobriu um dia que, cortando uma maçã horizontalmente ao meio, em vez de tirar o caroço ou fatiá-la em forma de cunhas de alto a baixo, alguma coisa nova e surpreendente apareceu. Uma perfeita estrela de cinco pontas foi formada pelas pequeninas sementes no centro.

A estrela sempre esteve lá, naturalmente, mas ela simplesmente nunca a tinha visto antes porque olhava a maçã de um ponto de vista diferente. Há aqui uma analogia com as crianças que me intriga. Muitos de nós olhamos para essas pequenas criaturas, que chamamos filhos, de um certo modo, ano após ano.

Nós os vemos talvez como preguiçosos ou irritantes ou exigentes. Mas as crinças são infinitamente complexas, e podemos estar negligenciando qualidades de carácter que nunca vimos antes. Podemos estar perdendo a «estrela» no coração dessas vidas jovens. Se procurarmos vê-las através de novos olhos uma vez ou outra, poderemos vislumbrar toda uma nova e maravilhosa dimensão das suas personalidades que nos passou despercebida antes.

Portanto, dê-lhes uma chance! Comece a olhar os seus filhos de um novo ângulo. Há, prometo, uma estrela engastada nalgum lugar dentro de cada menino e menina.

James Dobson in Lar, doce Lar

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

10 PALAVRAS PARA O NOSSO TEMPO






A Bíblia descreve Deus como um Criador inteligente e amoroso que tudo realiza de acordo com um conjunto de leis. O mundo físico está governado por leis, o que é muito necessário para a marcha ordenada do universo. Algumas dessas leis são conhecidas pelo homem. Algumas levam o nome dos cientistas que as descobriram conquanto sejam as mesmas leis que Deus instituíu há milhares de anos. A Bíblia também nos ensina que todas as criaturas de Deus estão sujeitas à lei, e que esta lei, que reflecte o Seu carácter, baseia-se no amor.

A palavra amor é um termo usado muito liberalmente nestes tempos.
O seu verdadeiro significado tem sido pervertido e o homem explora-
-o para lograr os seus propósitos egoístas. Segundo a Bíblia:

Amor

significa

preocupar-se

com o Bem-estar e Felicidade

do nosso Semelhante.


Um amor assim não pode dividir-se em secções arbitrariamente. Não podeis amar um segmento da sociedade e ao mesmo tempo despreocupar-vos com outros. O amor não se limita a uma só família, comunidade ou nacionalidade. É um sentimento, implantado por Deus nos nossos corações, que implica o preocupar-se com o bem do nosso vizinho; e, segundo Cristo, o nosso vizinho é todo aquele que necessita de ajuda.

Esta lei de Deus inclui o princípio do amor e o respeito mútuos. Cristo definiu isto como a regra de ouro.
«Façam aos outros como desejam que os outros vos façam.» (S. Lucas 6:31).

Deus promulgou essa lei de amor como uma protecção da individualidade e bem-estar da raça humana. Nas Sagradas Escrituras é mencionada como a «lei de Deus» a fim de diferenciá-la de outras leis que aparecem no Antigo Testamento, referidas como «leis de Moisés».

A  lei  de  Deus  é  assim  chamada  porque  não  foi  dada  oralmente,  mas  escrita  em  tábuas  de  pedra  pelo  próprio  Deus.
Os mandamentos da lei de Deus são dez e estão registados na Bíblia, no livro de Êxodo, capítulo 20, versículos 3 a 17.



OS DEZ MANDAMENTOS


1. «Não  tenhas  outros  deuses,  além  de  Mim.»

Deus pede o primeiro lugar nas nossas vidas e afectos.

2. «Não  faças  para  ti  imagens  esculpidas  representando  o  que  há  no  céu,  na  terra,  e  nas  águas  debaixo  da  terra.  Não  te  inclines  diante  de  nenhuma  imagem,  nem  lhes  prestes  culto,  porque  Eu,  o  Senhor,  teu  Deus,  não  tolero  que  tenham  outros  deuses  e  castigo  a  maldade  daqueles  que  Me  ofendem  até  à  terceira  e  quarta  geração  dos  seus  descendentes.  Mas  trato  com  amor,  até  à  milésima  geração,  aqueles  que  Me  amam  e  cumprem  os  Meus  mandamentos.»

Deus proíbe a idolatria em todas as suas formas, seja a adoração de imagens, pessoas, dinheiro, possessões mundanas ou qualquer outro tipo de ídolo.

3. «Não  faças  mau  uso  do  nome  do  Senhor,  teu  Deus,  porque  Ele  não  deixará  sem  castigo  os  que  fizerem  mau  uso  do  Seu  nome.»

Deus espera que sejamos reverentes em todos os assuntos pertinentes a Ele e à Sua adoracão. O Seu nome não deve ser usado para expressar um juramento ocioso e muito menos blasfemo.

4. «Recorda-te  do  dia  de  sábado,  para  o  consagrares  ao  Senhor.  Podes  trabalhar  durante  seis  dias,  para  fazeres  tudo  o  que  precisares.  Mas  o  sétimo  dia  é  dia  de  descanso,  consagrado  ao  Senhor,  teu  Deus.  Nesse  dia,  não  faças  trabalho  nenhum,  nem  tu  nem  os  teus  filhos  nem  os  teus  servos  nem  os  teus  animais  nem  o  estrangeiro  que  viver  na  tua  terra.  Porque,  durante  os  seis  dias,  o  Senhor  fez  o  céu,  a  terra,  o  mar  e  tudo  o  que  há  neles,  mas  descansou  no  sétimo  dia.  Por  isso,  o  Senhor  abençoou  o  dia  de  sábado  e  declarou  que  aquele  dia  era  sagrado.»

Deus designou um dia para o descanso e a adoração. Separou-o na própria criação para o bem-estar espiritual mais elevado do homem.

5. «Respeita  o  teu  pai  e  a  tua  mãe,  para  que  vivas  muitos  anos  na  terra,  que  o  Senhor,  teu  Deus,  te  vai  dar».

Deus espera que respeitemos e amemos os nossos pais, e que honremos os que têm autoridade.

6. «Não  mates».

Deus ensina-nos a respeitar a vida dos outros, e a não abrigar sentimentos de ódio e vingança.

7. «Não  cometas  adultério».

Deus deseja que sejamos puros em palavras, pensamentos e acções, evitando mesmo a aparência do mal.

8. «Não  roubes».

Deus exorta-nos a respeitar a propriedade alheia e a ser honrados nos nossos negócios e assuntos financeiros, como também nas nossas relações mútuas.

9. «Não  faças  uma  acusação  falsa  contra  ninguém.»

Deus quer que sejamos verdadeiros em todos os momentos e sob todas as circunstâncias.

10. «Não  cobices  a  casa  do  teu  semelhante:  não  cobices  a  sua  mulher  nem  os  seus  escravos  nem  o  seu  gado  nem  os  seus  jumentos  nem  coisa  nenhuma  do  que  lhe  pertence.»

Deus quer que estejamos contentes com o que nos deu. Deveríamos sentir-nos gratos pelo que temos e não albergar desejos desordenados.


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Durante as últimas décadas muitos dirigentes religiosos têm diminuído a importância das obrigações do homem para com Deus e os Seus Mandamentos. Esse abandono da lei de Deus trouxe como consequência o horrível estado de violência em que vive a nossa geração. Não se tem na devida estima os mandamentos de Deus. Foram esquecidos por tanto tempo, e por tanta gente!
Não obstante, Deus proveu um meio pelo qual os Seus planos originais para com o homem haveriam de ser cumpridos. Essa provisão consistiu na identificação de Deus com o homem, ao vir Deus à Terra em forma humana para demonstrar que a lei é santa, justa e boa. Essa identificação de Deus com o homem manifestou-se na pessoa do nosso Salvador Jesus Cristo. Satanás não pode acusar Jesus de nada. Ele sempre obedeceu aos mandamentos do Seu Pai ao longo de uma vida de contínua comunhão com Ele e dependência do Seu poder. Cristo, sem pecado, sofreu uma morte vicária para livrar o homem da sentença de morte.

Deus nunca alterou a Sua lei, mas fez provisão para salvar o pecador. Mediante a fé nos méritos do Seu sacrifício, e por Sua graça, o pecador muda totalmente a sua atitude para com Deus e a Sua lei. A vida que antes estava oposta a Deus, agora coopera com Ele para alcançar o objectivo de um carácter transformado. O coração que antes não se sujeitava à lei, agora deleita-se em fazer a Sua vontade. A natureza egoísta e rebelde de antes transforma-se numa natureza que ama e respeita o Criador e o próximo.

O milagre que se produz é assim descrito pelo apóstolo São João: «Nós sabemos que amamos os filhos de Deus se amarmos a Deus e cumprirmos os Seus mandamentos. O amor de Deus consiste em cumprirmos os Seus mandamentos. E os Seus mandamentos não são um peso.» (I S. João 5:2, 3).

O Senhor Jesus resumiu os Dez Mandamentos nestas palavras: «Ama o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a alma, e com todo o entendimento. Este  é  que  é  o  primeiro  e  o  mais  importante  dos  mandamentos.  O  segundo  é  semelhante  a  este: Ama o teu próximo como a ti mesmo» (S. Mateus 22:37-39).

Quando se aceita a Cristo produz-se um «transplante» de coração: «Vou dar-vos um novo coração e um novo espírito. Em vez do vosso empedernido coração de pedra, vou dar-vos um coração humano obediente. Vou pôr o meu Espírito em vós e farei com que obedeçam fielmente às Minhas leis e aos Meus mandamentos que vos dei.» (Ezequiel 36:26, 27).

O sacrifício de Cristo não só nos oferece perdão, esperança e vida eterna, como também nos proporciona o poder necessário para viver uma vida em perfeita harmonia com a Sua vontade, segundo é revelada nos Dez Mandamentos.

Por Que Não Aceitar A Cristo Hoje

A Fim De Participar Dessa Bela Experiência

Agora E Para Sempre?


G. J. Christo in SINAIS dos TEMPOS

Citações Bíblicas extraídas da Tradução Interconfessional A BOA NOVA
Edição da DIFUSORA BÍBLICA (Franciscanos Capuchinhos) - 1999.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

GOTINHA DE ÁGUA







Era uma vez uma menina
chamada Gotinha de Água...

Olha as praias lá em baixo!
E casas! E meninos a brincar!
E estradas e pontes
e automóveis e combóios a passar!

Depois o vento parou.
A gotinha estremeceu quando viu
dum lado a outro do céu
as nuvens escurecerem como breu.
Olhava para baixo e via
a terra seca, os campos secos,
secas as fontes,
as flores e as searas murchas,
e os homens tristes, muito tristes
sem pão para darem aos meninos.

Então, a menina Gotinha de Água,
que tinha nascido no mar e usava
um vestido de esmeralda e luar,
pensou:
E se eu fosse dar de beber
às flores, aos campos,
se eu fosse matar a sede
e a fome aos homens e aos meninos?
E disse muito alto às suas irmãzinhas:
- Vamos.
E deixou-se cair.
Ia à frente de milhões de gotinhas
todas vestidas de esmeralda e luar
e sorriam, cantavam e assobiavam
enquanto caíam.

A menina Gotinha de Água pousou
mesmo na boca duma flor
que sorrindo feliz lhe disse:
- Bendita! Bendita sejas!

E logo uma abelha, que andava por ali
em busca de pólen para fazer mel,
pousou numa pétala da linda flor
e falou-lhe assim:
Bom dia, meu amor.
Queres tu dar-me um pouquinho
do teu pólen para os meus favos?
E a flor de pétalas de ouro
abertas e cobertas de gotinhas de água,
todas vestidas de esmeralda e luar,
só lhe disse:
- Leva o pólen que quiseres para o teu mel!
O Sol brilhava agora cheio de alegria
e sacudia a luz da sua cabeleira
sobre o mundo.
E as searas que estavam a morrer de sede
encheram-se de espigas
e as árvores abriram no ar
os braços carregados de frutos
tão docinhos: ameixas, figos
maçãs, pêras e uvas!
E os homens, as mulheres e os meninos
agradeciam satisfeitos
à chuva que viera livrá-los
da sede e da fome.
- Obrigado!
Obrigado!


Papiniano Carlos
A Menina Gotinha de Água





«PouPem-Me! ...

...   ou vão sentir a minha falta»

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A MINHA PRISÃO DE ÓDIO


"Se ele tivesse feito à sua filha o que fez à minha, provavelmente também o odiaria."


Aconteceu ao anoitecer de um nublado sábado de Janeiro.
Tinha o jantar pronto para Patrícia, que geralmente chegava às cinco da tarde do seu trabalho no centro de Denver.
Às sete eu já estava caminhando a passos largos pela sala, tensa e preocupada. Patrícia não agia dessa maneira: era uma mulher madura, de 35 anos, que sempre me mantinha informada do seu paradeiro. Como de costume, tinha-me telefonado às cinco para me dizer que estava activando o alarme contra ladrões e preparando-se para sair do escritório.
Eu estava agora muito preocupada. Não tinha ninguém neste mundo, a não ser Patrícia. O seu pai tinha morrido quando ela tinha quinze anos, e embora houvesse bastante diferença de idade, éramos muito amigas. Patrícia tinha vivido noutra cidade por algum tempo, mas regressou a Denver para frequentar um colégio religioso, trabalhando num escritório em regime de tempo parcial. Planeava tornar-se missionária para que outras pessoas conhecessem a Cristo, e tudo nela me dava grande satisfação.


Telefonei para o seu escritório. Nenhuma resposta. Depois telefonei para a companhia que tinha instalado o alarme contra ladrões, e inteirei-me que o alarme tinha sido activado às cinco da tarde.
Teria ocorrido um acidente? Não queria telefonar à polícia; era como admitir que podia ter acontecido algo terrível. Mas finalmente telefonei.
"Não - disseram eles depois que a descrevi -, não temos nenhuma informação."
Telefonei freneticamente para os hospitais, e informaram-me que nas últimas horas não tinham internado ninguém que se parecesse com Patrícia.
Olhei para o relógio: nove da noite. Um dos comentários de Patrícia durante a nossa última conversação telefónica soava na minha memória como um sino fúnebre: "Esqueci-me de estacionar o automóvel na frente do edifício, mamã", - tinha ela dito -. Tenho medo de ir àquela zona de estacionamento da parte de trás."

Desesperada agora, telefonei para o seu professor no colégio religioso. Respondeu-me que iria com alguns dos jovens ao escritório de Patrícia. Telefonou-me meia hora mais tarde. Nenhum vestígio de Patrícia ou do seu veículo.
"Obrigada, Eduardo", disse debilmente, sentindo que o meu coração se afundava mais e mais.
"Há algo que eu possa fazer?", perguntou-me.
"Não", suspirei, colocando o telefone no suporte.
Durante toda a noite aguardei na sala, telefonando para a Polícia aproximadamente de hora a hora. De manhã cedo veio um agente da polícia para obter uma descrição detalhada de Patrícia, do seu vestuário e do seu automóvel. Dei-lhe uma foto que tinha tirado em frente da igreja poucos meses atrás.
Pelas 1o horas, telefonaram da central da Polícia para formularem uma pergunta estremecedora: "A sua filha tem alguma cicatriz ou marca que a possa identificar?"
Recordei que quando criança Patrícia estava a brincar com alguns amiguinhos da vizinhança, tentando imitar as façanhas de Tarzã, escorregou, e o ramo ponteagudo de uma árvore causou-lhe um profundo golpe no braço. A única coisa que lhes pude dizer foi comentar sobre tal cicatriz.

Telefonaram mais duas vezes. Na segunda vez queriam ter o nome do Pastor. Já pela tarde decidi que seria bom preparar alguma coisa para comer. Precisamente nesse momento vi que o director do nosso côro, Harvey Schroeder, se aproximava da minha casa cabisbaixo. Dois homens que tinham descido de um veículo da esquadra da Polícia acompanhavam-no.
Recebi-os à porta. "Encontraram Patrícia, não é verdade?"
"Sim, Senhora Hanna. Encontrámo-la.", respondeu um dos homens com olhos denotando dor profunda.
"Ela não virá para casa, não é verdade?"
"Não."

Dois jovens que tinham saído para caçar no domingo de manhã encontraram o corpo dela à margem do caminho, aonde evidentemente tinha sido lançada de um automóvel.
A casa dava voltas e eu parecia suspensa no espaço.
"Senhor Hanna... Senhora Anna!"
Ajudaram-me a sentar. Estive ali por um longo espaço de tempo olhando sem nada ver.
Depois fiquei só, na casa desolada. Quando o vento nocturno agitava os ramos endurecidos pelo gelo contra a janela do quarto, eu estava ainda desperta, pensando nos últimos momentos da minha filha sobre a Terra. Tinha sido violentada e esfaqueada.

Não podia crer que alguém pudesse fazer algo tão perverso, tão cruel contra outro ser humano! Quando pensava no assassino desconhecido, um ódio frio se apoderava de mim, um ódio que ia crescendo cada vez mais.
Dominada por uma paixão de ver apresentada perante a justiça a pessoa que tinha assassinado a minha filha, examinava os diários e mantinha-me em contacto com a Polícia.
Em Março o criminoso assestou novo golpe. Certa manhã foi encontrado o corpo de uma mulher atrás de uma Igreja. Junto a ela alguém tinha escrito na neve: «Odeio as mulheres».
Poucos meses depois outra mulher foi atacada, mas conseguiu escapar. A polícia suspeitou que se tratava do mesmo homem. Finalmente, num sábado de tarde no mês de Outubro, uma mulher foi atacada num centro comercial no momento em que entrava no seu carro. Enquanto lutava desesperadamente contra o homem que já a tinha ferido, um polícia correu para o local, e prendeu-o.

Nunca me esquecerei do momento em que vi o rosto do assassino da minha filha olhando-me de uma página do diário Post, de Denver. O seu nome era Carlton Moore. Pegando numa faca de abrir cartas, lenta e deliberadamente comecei a golpear contra o seu rosto, repetidamente, até que o papel ficou reduzido a tiras.
Agora tinha alguém em quem podia concentrar o meu ódio acumulado. Li que Moore tinha sido criado num lar com problemas, com um pai alcoólico e uma mãe perturbada. Embora ele tivesse um elevado quociente intelectual, tinha sido tão maltratado e descurado que a partir dos nove anos tinha entrado e saído muitas vezes do reformatório. Carlton Moore tinha sido posto em liberdade condicional só dois meses antes da data em que matou a minha filha.
Quando se realizou a audiência pública do julgamento, fui ao tribunal localizado no centro da cidade, e observei tudo do fundo da sala. Se os meus olhos pudessem matar, Moore teria sido morto naquele instante.

Segui o caso de perto. Carlton Moore confessou-se culpado pelo assassinato que tinha cometido em Março, e foi sentenciado a prisão perpétua.
Era tão injusto! Como podia ele continuar a viver, quando a minha filha tinha morrido?
Passaram-se meses e finalmente uma ano. A amargura e o ressentimento apoderavam-se de mim cada vez mais. Isto reflectia-se no meu procedimento, e especialmente na minha linguagem cáustica. Dei-me conta de que os meus companheiros de trabalho evitavam-me.
Nestas circunstâncias, naturalmente, não me sentia feliz. Convertida quase numa reclusa, recusava convites para jantar ou para assistir a actividades sociais, e ía à Igreja mais por hábito do que por desejo.
Transcorreram quase dois anos, anos de visitas solitárias às sepulturas de Patrícia e do meu esposo. Agora, com 62 anos, não me interessava quanto tempo mais poderia viver. A única coisa que parecia viver em mim era o ódio ardente que estava no meu interior como um fogo subterrâneo numa mina de carvão, fumegando, consumindo em mim tudo o que outrora havia respondido ao amor, ao riso e à beleza.

Foi então que ocorreu algo de decisivo numa fria manhã de Domingo, em Dezembro de 1971, na classe bíblica da minha Igreja.
Don Gentry, dirigente da Sociedade dos Gideões - Sociedade Religiosa Internacional que se dedica a distribuir Bíblias em grande escala -, veio para nos falar de um plano através do qual podíamos enviar Bíblias a qualquer parte, como uma homenagem a seres queridos.
Enquanto falava, as suas palavras pareciam desvanecer-se. Um outro Alguém estava-me falando com uma voz suave, delicada, que me sussurrava junto ao ombro: A Minha vida também teve um fim brutal. No entanto, o Meu Pai não desprezou os Seus filhos perdidos. Sabia que era Jesus. Consegue a liberdade perdoando, parecia dizer-me. Sai da tua prisão de ódio. As palavras que tinham sido ditas num sussuro junto ao meu ombro ressoavam-me aos ouvidos como sinos.

Querido Jesus, orei, como posso perdoá-lo de verdade com toda esta amargura que há no meu coração?
E veio a resposta: Esqueceste-te da Minha promessa? «Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também o vosso Pai celestial vos perdoará a vós» (Mateus 6:14).
A classe tinha terminado mas eu tinha a sensação de que tinham transcorrido apenas uns minutos. Sentia-me com se estivesse num estreito corredor, nem de um lado nem do outro. Tremente, levantei-me do assento e aproximei-me de Don Gentry. Ouvi que a minha voz lhe pedia que enviasse algumas Bíblias para a penitenciária. E depois, enquanto preenchia o cheque, perguntei: "Podem entregar uma de forma pessoal?»
"Sim", disse ele.
"Então levem uma Bíblia a um presidiário chamado Carlton Moore e digam-lhe: 'Porque Jesus a perdoa, a Sra Hanna o perdoa; e porque Jesus disse que devemos amar-nos uns aos outros, a Sra Hanna o ama.'"

Foi como se outra pessoa estivesse falando. Mas logo que as palavras me saíram da boca, senti como se eu tivesse saído duma cela de ferro, livrando-me de algo que me mantinha enclausurada.
Quando cheguei a casa, caí sobre a cama e comecei a chorar pela primeira vez durante meses, soluçando fortemente até que não me restaram mais lágrimas.
Senti-me livre. Quando tinha feito o gesto de perdoar com o presente da Bíblia, Deus tinha removido o rancor e a amargura que se tinham acumulado no meu coração por tanto tempo. Levantei-me e fui até à janela sentindo-me como uma criatura que enfrenta um novo dia.
Tinha deixado de nevar, e o sol resplandecia num mundo fresco e branco, com montanhas que se elevavam à distância. Sentia-me como se pudesse voar até esses picos e voltar sem barreira alguma. Junto da janela iniciei uma oração que prosseguiria por longo tempo, pedindo que Carlton Moore encontrasse a Jesus e fosse libertado espiritualmente, como me tinha sucedido a mim.

Passaram-se nove meses. Agora estava vivendo uma vida plena e feliz. Embora nada tivesse ouvido acerca do meu presente daquela Bíblia, não me preocupava. Ao regressar certa tarde de uma visita a uns amigos, entrei em casa e ouvi o telefone tocar. Era Don Gentry, da Sociedade dos Gideões.
"Onde tem estado? - disse rindo. - Tenho tentado comunicar-me com a senhora há já bastante tempo." Contou-me então que tinha uma carta para me ler. Era de B. L. Shelton e Harry Palmer, dos «gideões» que tinham levado a Bíblia de presente ao homem que matara a minha filha. "Digam à Sra. Hanna que ela me deu um presente como nunca antes tinha recebido. Creio que, se ela me pode mostrar tanto perdão, tenho esperança e fé que Deus pode fazer o mesmo por mim."

Quando Don Gentry acabou de ler a carta, estávamos a chorar fortemente de tal maneira que mal podíamos falar.
Agora a minha vida mudou mais ainda quando comecei a comunicar-me com Carlton Moore através dos que o visitavam e também mediante o intercâmbio de correspondência que se iniciara entre ambos.
Apercebi-me de que quando ele entrou na prisão tinha uma atitude grosseira e mal-humorada, mas depois de receber a Bíblia tinha mudado de forma notável. - "Ninguém, - disse ele - nunca me tinha dito que era amado, ou que Jesus me amava. Sempre me tinham dito que quando morresse iria para o inferno."

Nos anos que se seguiram à sua conversão, Carlton Moore transformou-se num novo homem, sempre pronto para ajudar os outros presidiários, ensinando-os a estudar a Bíblia de forma sistemática, dando-lhes conselhos e orando por eles, e distribuindo Bíblias e material religioso escrito, em parte do que eu lhe enviava.
Outro dia, recebi uma carta, típica das muitas que me têm chegado ultimamente. "Desejo que saiba, Sra Hanna - escreveu a irmã de um preso - que o meu irmão que está na prisão foi conduzido a Cristo por Carlton Moore. Jamais saberá o que isso significa para nós."
As lágrimas empanaram-me a visão. Sabia quanto significava para eles! Porque Deus me tinha mostrado que Carlton Moore se tinha convertido no missionário para Cristo que a minha filha tinha planeado ser.

O velho Carlton Moore tinha morrido, e o mesmo tinha sucedido com a velha e amargurada Hasula Hanna
quando ela encontrou o miraculoso poder do perdão.

Hasula Hanna
Traduzido e impresso com permissão de Guideposts.
Revista SINAIS DOS TEMPOS