sexta-feira, 16 de julho de 2010

MUDANÇA DE COMPORTAMENTOS


ACEITAR O SEU PERDÃO

«Convidou-O um dos fariseus para que fosse jantar com ele. Jesus, entrando na casa do fariseu, tomou lugar à mesa. E eis que uma mulher da cidade, pecadora, sabendo que Ele estava à mesa com o fariseu, levou um vaso de alabastro com unguento; e, estando por detrás, aos Seus pés, chorando, regava-os com as suas lágrimas, e os enxugava com os próprios cabelos; e beijava-Lhe os pés e os ungia com unguento.»
Lucas 7:36-38.


O que fez deste jantar um acontecimento memorável foi o extraordinário acto de uma mulher não convidada. A sua presença ali era completamente inaceitável, pois era conhecida por ser uma mulher de baixa reputação. Mas ela queria muito ir ali, para estar perto d'Aquele que, pouco tempo antes, a tinha livrado de uma vida de pecado. Simão, o fariseu, sentia-se particularmente atingido pela presença daquela mulher, porque ele era o homem que a tinha seduzido pela primeira vez e empurrado para uma vida de pecado.

Vejam bem o tamanho deste drama: a mulher pecadora... O homem que a tinha empurrado para aquela vida... E o Homem que a tinha já redimido.
O facto que o Evangelista pretende sublinhar nesta história é que a "mulher perdida" já não é uma mulher perdida! O acto espectacular daquela mulher era um acto de gratidão para com Aquele que trouxe à sua existência perdão e uma nova vida. Àquela mulher muito foi perdoado; por isso, ela muito amou.
O seu muito amor levou-a a cometer aquele acto extraordinário de gratidão para com Jesus. E Jesus disse-lhe: "Os teus pecados te são perdoados." E, ainda, "A tua fé te salvou."
Isto faz-nos lembrar que pecadores redimidos devem a Cristo tudo quanto têm... tudo quanto são... e tudo quanto esperam vir a ser.
Quanto a Simão, não tinha amor... Não pediu perdão... Nada recebeu!
Crer em Cristo, aceitar o Seu perdão - é este o Seu chamado! Cristo quer perdoar todos os nossos pecados: a inveja, o orgulho, o egoísmo, a maledicência, a mornidão e tantos outros. Ele convida-nos a uma vida vitoriosa na certeza do Seu perdão.
Acabámos de ver: Um homem que era auto-suficiente mas sem amor, sem salvação. Uma mulher arrependida, agora amada e salva. Um Salvador, a perfeita revelação de Deus ao homem.

Que lugar tem este Salvador na sua vida? É com ele que convive? É a Ele que clama? É d'Ele que fala? É n'Ele que pensa?

Armando Ferraz

NUNCA É TARDE

«Alegra-te, jovem, na tua juventude, e recreie-se o teu coração nos dias da tua mocidade; anda pelos caminhos que satisfazem ao teu coração e agradam aos teus olhos; sabe, porém, que de todas estas coisas Deus te pedirá contas»
Eclesiastes 11:9.


Num final de tarde, enquanto trabalhava numa cidade do interior, deparei-me com um rosto que me era familiar.
Imediatamente me dirigi a essa pessoa, perguntando-lhe se se lembrava de mim. Ele não se recordava, mas, quando lhe disse que era Adventista e que, há vinte anos estivera com ele num acampamento de jovens, a sua mente processou essa informação e efectivamente ele lembrou-se que tinha participado desse acampamento.
Perguntei-lhe, curioso, como estava a sua vida, a sua igreja, a sua família, ao que ele respondeu, peremptoriamente, que já não frequentava a Igreja, que a sua vida estava bem melhor, pois, segundo ele, a vida "lá fora" satisfaz muito mais.
Soube que este jovem frequentava discotecas, clubes nocturnos, consumia bebidas e até drogas que o catapultaram para uma vida "rica" em futilidades e desprovida do amor de Deus e da própria Família.
Senti-me culpado por, de alguma forma, não ter sido útil, de maneira a evitar o seu deslize para este tipo de vida cheia de aliciantes enganadores para os jovens.

Hoje, mais ainda, sinto a responsabilidade de colaborar com Deus para a manutenção da Sua Igreja e dos Seus jovens, que se sentem cada vez mais indefesos, face às propostas mundanas que os assediam cada vez mais.
Podemos ser alegres, recrearmo-nos, satisfazer o nosso coração e percorrer caminhos que agradem aos nossos olhos, de forma salutar, e ao mesmo tempo, aprazível a Deus. Não aconselho ninguém a experimentar as solicitações pecaminosas da vida, mas, se porventura isso já aconteceu, lembre-se que Deus está sempre pronto a perdoar todo e qualquer pecado que tenha sido cometido, ou até mesmo uma vida cheia de pecados que tenhamos acalentado, pois «Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça, se confessarmos os nossos pecados.» (I João 1:9.)
Nunca é tarde para endireitarmos a nossa vida. Nunca devemos pensar que esta ou aquela pessoa, pela vida que leva, deve ser ignorada. Há sempre tempo.
Alegrei-me quando recentemente voltei a encontrar-me com este jovem numa actividade desportiva da Igreja. Isto mostra que a esperança é a última a morrer.

«Não te lembres dos pecados da minha mocidade, nem das minhas transgressões; mas, segundo a Tua misericórdia, lembra-Te de mim, por Tua bondade, Senhor.» (Salmo 25:7).

José Trindade Cardoso


TRANSFORMADO PELA VERDADE

«E conhecereis e verdade, e a verdade vos libertará. ...Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres.»
João 8:32, 36.


Decorria o "Ano Internacional da Família" quando nos reunimos na Câmara de Salvaterra de Magos para organizar um colóquio, com as autoridades locais. Depois de ouvir, estupefacto, o ancião a falar, o Presidente da Câmara disse: "Desde garoto que me lembro deste homem como o 'Zé da cabaça', bêbado de manhã à noite. Este senhor bem vestido e respeitado já não é o mesmo!" Do "Zé da cabaça" apenas resta hoje a alcunha, porque o José Mário é um homem transformado.
Desde criança que ele sentia a presença de Deus ao seu lado, mas a sua vida tinha-se perdido nos prazeres do mundo e nos vícios. A sua família sofria da consequente vergonha e violência. Ao acompanhar a sua filha à festinha do final de uma "Escola Cristã de Férias", aceitou o apelo para estudar a Bíblia. O Senhor libertou-o dos seus vícios com a ajuda da Igreja. Há 36 anos, o "Zé da Cabaça" foi sepultado nas águas baptismais, renascendo um novo homem, discípulo de Cristo, tendo desempenhado com frequência o cargo de ancião, diácono e director missionário.
Mas a sua vida passada deixou marcas. Com 66 anos teve que lhe ser implantada uma prótese da articulação da bacia e da cabeça do fémur. O médico apresentou-lhe o prognóstico de que ele nunca mais conseguiria andar sem a ajuda de uma bengala. O Zé Mário, baseado na sua fé, respondeu-lhe que compareceria na consulta seguinte apoiado apenas nas suas pernas, porque o Senhor ainda tinha muito trabalho para ele fazer. Deus concedeu-lhe essa bênção.
Nessa altura, via-se o Zé Mário, com a perna operada estendida, e pedalando como uma manivela com o outro pé amarrado ao pedal, para ir dar assistência aos seus estudantes da Bíblia. Depressa recomeçou a andar com normalidade. O Senhor fez com que esta prótese durasse 11 anos em vez dos 6 anos previstos.
Hoje (2009) aos 78 anos, debate-se com uma recuperação pós-operatória difícil e como marido fiel e atencioso ocupa-se da Elvira, a sua esposa, que foi atingida por uma doença incapacitante.
Numa das suas pregações, desembrulhou uma pá e contou: "Encontrei esta pá no lixo. Estava 'desembeiçada', coberta de alcatrão e cimento. O seu cabo estava carcomido pelas traças. Levei-a para casa, limpei-a, lixei-a, cortei as arestas, pintei-a e coloquei-lhe um outro cabo... e aqui está uma pá nova. Foi isto o que o Senhor fez na minha vida e continua ainda a fazer - a transformar-me."

Deus pode libertar-nos de qualquer amarra que nos prende ao vício e ao pecado. Oremos, neste dia, para que Deus continue a transformar o nosso carácter, fazendo de nós Seus discípulos, aptos para a eternidade.

António Amorim



sexta-feira, 9 de julho de 2010

A RESPOSTA DE DEUS



Durante a guerra, grandes aviões com a sua carga mortal sobrevoaram a Áustria. Milhares de casas foram destruídas, fábricas incendiadas, e a capital passou por grande aflição. Inúmeras famílias foram deixadas sem lar, como costuma acontecer quando há guerra.
O Jorge e a Maria voltaram um dia da escola para casa, apenas para descobrir que não somente a casa tinha sido destruída pelas bombas, como tanto o pai como a mãe tinham sido mortos. Os vizinhos levaram-nos, como a muitas outras crianças sem lar, para o grande orfanato da cidade.
Bem podemos imaginar a tristeza e a amargura daquelas pobres crianças. Contudo, elas não se esqueceram dos ensinamentos dos pais, e muitas vezes, ao encontrarem-se no vestíbulo do orfanato, cruzavam as mãozinhas e oravam ao Pai celeste. Não sabiam o que o futuro lhes reservaria.

Um dia foi anunciado que um país vizinho se oferecia para arranjar lares para muitas daquelas crianças. Todos estavam agitados e felizes no dia da partida. O Jorge e a Maria saíram correndo com os poucos pertences debaixo do braço e entraram no autocarro que os levaria até à estação, onde tomariam o longo combóio. Seria a sua primeira viagem de combóio.
Centenas de crianças seriam levadas da pátria para um país estranho, onde deveriam encontrar novos lares – novos pais e novas mães.
Quando soou o apito, o combóio começou a movimentar-se, ganhando velocidade. Em breve cortava os campos com rapidez, enquanto ansiosos olhinhos observavam cenários que nunca seriam esquecidos. O Jorge e a Maria, porém, não estavam tão ocupados que não pudessem de vez em quando cruzar as mãozinhas e curvar a cabecinha para uma oração:
- Querido Jesus, Tu sabes que perdemos o nosso papá e a nossa mamã. Dá-nos, por favor, um novo lar. Não permitas que sejamos separados, e envia-nos para o lar mais conveniente.

A certa altura o combóio diminuiu a velocidade e parou numa estação. Crianças e mais crianças saíram das superlotadas carruagens e fizeram filas na plataforma. Muita gente da cidade ali estava, a fim de escolher uma criança e adoptá-la.
Aqui e ali uma era escolhida por ansiosos casais que fitavam aqueles orfãozinhos de um país estranho. Aqueles rostinhos tristes voltavam-se para cima para verem os seus novos pais. Os que ficavam voltavam para o combóio e viajavam para a próxima cidade.
Durante o dia inteiro, repetiu-se a cena, enquanto o longo combóio, hora após hora, carregava aqueles pequenos seres humanos para novas aventuras. De quando em quando o Jorge e a Maria repetiam a oração, para que de alguma maneira Deus encontrasse para eles o lar apropriado.

Estava quase escuro quando o combóio parou outra vez numa grande estação. O Jorge e a Maria separaram-se ao descer do combóio para a fila, onde, conforme pensavam, seriam passados por alto, como tantas vezes já tinha acontecido antes.
Nessa manhã, naquela cidade, um casal cristão estava a fazer o culto matinal quando uma batida na porta anunciou a chegada do jornal matutino.
Depois de terminado o culto passaram os olhos pelo jornal para lerem as principais notícias:
“Um combóio de crianças austríacas chega esta noite”, foi o que lhes atraiu a atenção.
A bondosa senhora olhou para o marido e disse:
- Querido, esta é a nossa oportunidade de conseguirmos o menino que há tanto tempo tu desejas.
O marido respondeu com um sorriso:
- Não, querida, tu sempre desejaste uma menina, e eu não quero ser egoísta. Enquanto vou trabalhar, tu vais à estação e, quando o combóio chegar, escolhe uma linda menina de cabelos encaracolados, para nós.
Por algum tempo estiveram decidindo se devia ser menino ou menina. De uma coisa estavam convictos: só poderiam cuidar de uma criança.
Existia no coração de ambos uma simpatia especial pelos austríacos, pois ambos tinham parentes na Áustria.
Finalmente chegaram à conclusão de que adoptariam um menininho que tivesse cabelos ondulados, ombros largos, e se parecesse com o pai adoptivo.

Quando o combóio parou na sua cidade, aquela noite, e as centenas de crianças fizeram fila para procurar os novos pais, a Sra D. Bergman estava lá.
Andou avidamente de um lado para o outro, contemplando os rostinhos magros e tristes das pequenas vítimas da guerra. Podia ler histórias de desapontamento, desolação e fome em muitas faces.
Finalmente notou um rapazinho que parecia ter as feições procuradas, ombros largos, cabelos com ondas e ar tranquilo. Havia algo nele que lhe atraíu a atenção. Parecia-se com alguém que ela já vira antes. Aproximou-se dele com um sorriso:
- Tu queres vir para a nossa casa? Temos um baloiço no quintal e nenhuma criança para brincar nele! Eu gosto de homenzinhos como tu. Vens comigo?
Jorge continuou erecto e impassível. Finalmente respondeu com a sua vozinha fina:
- Sim, eu gostaria de ir com a senhora e brincar no baloiço, mas tenho uma irmãzinha e queremos ficar juntos.
A sua vozinha tremeu um pouco na última palavra, e lágrimas brilharam-lhe nos olhos.
- Oh, mas a tua irmãzinha será acolhida noutra parte! Nós só podemos ficar com um. Vem comigo! – rogou a D. Bergman.
- Mas nós pedimos a Jesus que nos mandasse para a mesma casa e temos a certeza que Ele terá um lugar onde poderemos ficar juntos, pois perdemos o nosso pai e a nossa mãe – disse o pequeno, num soluço.

O coração da senhora ficou tocado. Ali estava um menino que cria em Deus e cria que Ele havia de responder à sua oração.
Respondeu rapidamente:
- Onde está a tua irmãzinha? Vai buscá-la, para eu a ver.
O pequeno correu, procurando-a na fila, e voltou em seguida com ela pela mão. Ambos pararam, fitando a bondosa senhora com olhar suplicante.
- Aqui está ela – disse Jorge com um sorriso.
Lágrimas brotaram dos olhos da senhora, enquanto sentia um nó na garganta. Que injustiça estaria praticando ao separar aqueles irmãozinhos, únicos sobreviventes daquela família destruída pelo bombardeio!
Convenceu-se de que devia aceitar os dois. Olhando-os intensamente, disse:
- Bem, queridos, não sei o que o meu marido dirá, mas vou levar vocês os dois. Venham comigo e logo chegaremos a casa.
Com exclamações de alegria eles disseram adeus aos companheiros, e logo se perderam no meio da multidão, seguindo a sua nova mãe até ao carro, lá embaixo, na estação.

Pouco depois estavam sentados na sala de uma boa e ampla casa, esperando algo para comer. A D. Bergman estava na cozinha preparando alguma coisa para os pequenos famintos que agora pertenciam à sua família.
Com os olhos bem abertos Jorge e Maria observavam tudo o que havia na casa. Realmente estavam contentes de estar nesse novo lar, mas ainda um pouco receosos do futuro. De repente, Jorge apontou o dedo magro para o retrato de uma mulher que estava sobre o piano.
- Vê! – disse ele a Maria – parece...
Não pôde continuar. Um soluço embargou-lhe a voz e ambos começaram a chorar. Não puderam controlar as emoções.
Quando a D. Bergman ouviu os soluços, veio a correr para ver o que havia.
- O que é que vocês têm? Que aconteceu? Não estão satisfeitos aqui?
- Sim – disse a menina por entre as lágrimas.
- Estamos contentes.
- Então porque estão a chorar?
Logo que se acalmaram um pouco, olharam para a face maternal da D. Bergman e apontaram para o quadro sobre o piano.
A senhora fitando o retrato disse:
- Sim, é a minha irmã. Porque vocês choram ao ver essa fotografia?
A menininha soluçou:
- Essa é a minha mãe!
Então a D. Bergman concluiu que a sua irmã, que há anos tinha ido para a Áustria, e da qual não tinha notícias havia já quatro ou cinco anos, teria sido morta no bombardeio.

Depois de minucioso interrogatório, ficou certa de que estes eram realmente os filhos da sua irmã.
Oh, que alegria houve naquele lar, e que gratidão por Deus ter ouvido as orações daquelas crianças deixadas sem lar!
Compreenderam que há realmente um Deus que ouve e responde de modo maravilhoso às orações.




J. Hackett in O Expresso da Meia-Noite e Outras Histórias
(Compilação de Rubem M. Scheffel)

sexta-feira, 7 de maio de 2010

UM AMIGO PARA SEMPRE



«Um dos paradoxos mais impressionantes do mundo moderno é que nos nossos dias, apesar do mundo estar mais habitado do que nunca, existem mais pessoas solitárias do que jamais houve noutro tempo.

Pessoas que sentem que ninguém se interessa por elas.

Pessoas que sentem que não há ninguém a quem se possam dirigir em busca de ajuda para enfrentar os seus problemas.
Pessoas que sentem que não têm nenhum amigo.

E assim é que muitos põem fim à vida. Ou afogam a sua solidão no álcool e nas drogas. Ou levam uma vida medíocre lamentando-se miseravelmente, quando poderiam viver de forma vibrante irradiando gozo e valor.

Poderiam enfrentar cada novo dia com certeza e confiança. Poderiam caminhar com a cabeça erguida e o rosto resplandecente, de mãos dadas com o Melhor Amigo que já existiu, se tão somente conhecessem a Jesus Cristo como Ele quer que O conheçamos.

Algumas pessoas pensam que Jesus é como que um juiz que está esperando para condenar-nos ao sofrimento eterno quando chegar o distante, mais aterrorizador, dia do juízo.

Outras pensam que Ele criou o mundo, estabeleceu as leis que regem o seu funcionamento, e afastou-Se da humanidade, abandonando-a à própria sorte.

Ainda outras pensam que Ele foi um mito, um herói legendário que na realidade nunca existiu.

Outras nem sequer pensam n´Ele. Seguem a sua rotina diária, dia após dia absortos pelo trabalho, a casa, os problemas com os vizinhos, o carro novo que esperam comprar, e nunca dedicam um instante ao solene pensamento sobre o seu destino eterno e ao seu melhor Amigo.

É exactamente isto que Jesus Cristo deseja ser para cada um de nós: O Nosso Melhor Amigo.

Para ser o nosso melhor amigo Ele veio a Belém há cerca de 2 000 anos.

O Seu nascimento foi uma notável demonstração de solidariedade para com a raça humana.

Além disso, Ele era o Rei do Universo, o Criador do vasto e ilimitado espaço e dos incontáveis corpos celestes espalhados pela sua incomensurável extensão.

Era amado e adorado por uma incontável quantidade de anjos - «milhares de milhares e milhões de milhões» - que se deleitavam em render-Lhe louvores dia e noite.

O nosso pequeno mundo era habitado por pessoas egoístas, rebeldes, cheias de inveja e de orgulho, e Jesus, o Rei do Universo, o Filho de Deus, queria que O amássemos. Ansiava por ser o nosso Amigo. Desejava identificar-Se connosco para nos ajudar.

Isto é algo tão extraordinário que muitos certamente nem acreditam. A manjedoura de Belém e o «menino envolto em panos» assim o provam.


Prezado Leitor, Jesus deseja ser seu amigo, não importa o que você seja, o que faça, onde viva, ou qual a cor da sua pele.

Durante toda a Sua vida terrena, Jesus foi um Amigo leal para todos aqueles que O aceitaram.

Foi um amigo para o rico e influente Nicodemos. Passou com ele longas horas respondendo às suas perguntas (S. João 3:1-16).

Foi um amigo para os endemoninhados de Gadara, a quem os vizinhos tinham acorrentado junto aos sepulcros (S. Mateus 8:3 a 9:1; S. Marcos 5:1-20).

Foi um amigo para a mulher surpreendida em adultério, cujos acusadores queriam apedrejar (S. João 8:2-11).

Falou em defesa de Maria Madalena, a prostituta, quando os próprios discípulos a censuravam (S. João 12:2-8).

Compreendeu as cargas que os pais levam e recebeu carinhosamente os seus filhos, esquecendo-Se do próprio cansaço (S. Marcos 10:13-16).

Amou os estrangeiros. Dedicou uma hora em pleno meio-dia aconselhando uma samaritana divorciada, dando-lhe uma nova perspectiva da vida (S. João 4:4-42).

Caminhou mais de 150 quilómetros até à remota região marítima de Tiro e Sidom, a fim de aliviar a angústia de uma mãe pagã ansiosa pela saúde da filha (S. Mateus 15:21-28).

Foi à casa do arrecador de impostos que usara o cargo para extorquir os seus compatriotas. Enquanto comiam, Jesus mostrou a Zaqueu como devolver os fundos que tinha juntado ilegalmente e de que modo poderia novamente ter paz de coração ( S. João 19:1-10).

Que extraordinário Amigo foi Jesus! Que Amigo maravilhoso continua a ser ainda hoje!

Ele disse na Sua Palavra: «Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a Minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele e ele Comigo». (Apocalipse 3:20).

Cear com Jesus! Esta noite! Junto d`Ele a solidão e o desânimo desaparecerão.

«Jesus é o mesmo ontem, e hoje, e eternamente» (Hebreus 13:8). Eternamente!

Ele logo voltará à Terra para viver entre «os homens». «Ele estará com eles, e será o seu Deus e eles serão o Seu povo». (Apocalipse 21:3).

Glorioso, maravilhoso Jesus! Verdadeiramente o Melhor Amigo que podemos ter como seres humanos!


PORQUE NÃO FAZER D`ELE O NOSSO AMIGO PESSOAL, AGORA, HOJE E SEMPRE?» L. M.

sábado, 1 de maio de 2010

O MUNDO COLORIDO PELA ADRA















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domingo, 25 de abril de 2010

LIBERTE-SE!




SENHOR, MUDA A MINHA FORMA DE PENSAR

«Porque os Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os Meus caminhos, diz o Senhor.» Isaías 55:8.

O funcionamento da nossa mente é verdadeiramente surpreendente. Assim como a repetição de certos gestos leva à criação de hábitos, a repetição de determinados pensamentos leva a que se defina e determine o padrão de pensamento de cada um de nós. A predominância desse modelo leva a que seja evidente a forma como existimos e como edificamos a nossa mente.
No livro de Números descreve-se, duma forma rica e detalhada, uma sequência de acontecimentos ligados com a saída do Egipto e a peregrinação para a Terra Prometida. Foi uma epopeia que justifica a nossa atenção. Foram diversas as dificuldades que se lhes depararam, umas duma forma, outras de outra. Só havia duas coisas que foram constantes: a primeira, o cuidado de Deus pelo Seu povo; e a segunda, o padrão de pensamento daquela nação. Cada vez que eram desafiados pelas dificuldades, reagiam sempre com queixas e murmurações. Quando olhavam para uma situação menos positiva, a culpa era de alguém, menos deles. Eram avaros em manifestar alegria, satisfação e gratidão, e muito prontos em manifestar as suas queixas e as suas acusações contra fosse quem fosse, inclusive contra Deus.
Mesmo quando às portas da Terra que lhes tinha sido prometida, e quando os espias regressaram da sua missão (Números 13), apenas conseguiram ver os aspectos negativos da situação, chegando ao ponto de olharem para o Egipto como um paraíso, e verem a Terra Prometida como nada atraente, apesar das amostras dos frutos que os espias lhes trouxeram.
Tanto se habituaram a olhar para a sua incapacidade de construírem soluções adequadas, que foram capazes de não valorizar a presença permanente de Deus com eles. Por isso não estavam capacitados para entrar em Canaã e tiveram de jornadear por muitos mais anos pelo deserto.
No nosso viver, muitas vezes reproduzimos a atitude dos israelitas. Criamos os nossos padrões de pensamento, de forma que cegamos para o que é evidente (o cuidado da Deus por nós) e sobrevalorizamos as nossas angústias e dificuldades. Em vez de crescermos com os desafios, deprimimo-nos a ponto de distorcermos a realidade da nossa existência.

Apenas precisamos de pensar de outra forma. Precisamos de Lhe pedir que mude a nossa forma de pensar. Seremos os primeiros e maiores beneficiados.


SENHOR, MUDA A MINHA FORMA DE SENTIR

«Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito estável.» Salmo 51:10.

Falar de sentimentos nem sempre foi uma prioridade. Para alguns, o importante era tudo o que tinha que ver com o conhecimento. Vivia-se, então, sob uma predominância do cognitivo em desfavor do afectivo.
Mas hoje, após esse deslumbramento inicial, é perfeitamente evidente que não somos, nem nunca seremos "nós próprios", se não considerarmos os nossos sentimentos como uma das mais ricas e específicas formas de nos revelarmos na nossa essência. Os sentimentos são o resultado da interpretação primária que fazemos dos estímulos e informações que colhemos no nosso viver. São sobretudo mentais, com pouca ou nenhuma expressão corporal, mas que podem levar a uma emoção, essa sim, com uma forte componente corporal que se tornará difícil de camuflar.
Havendo uma interpretação dos estímulos, poderemos afirmar que os sentimentos são uma opção, uma decisão que assumimos e que assenta no padrão do nosso pensamento. Assim, os sentimentos podem e devem sofrer alterações se ansiamos e promovemos mudanças na nossa forma de pensar. Não são uma fatalidade da qual não nos podemos libertar, mas são, muito mais, um padrão de funcionamento da nossa mente que pode e deve ser trabalhado.
É interessante que correntes da psicologia (Abraham Maslow) estão de acordo com os princípios básicos do cristianismo no que diz respeito ao facto de termos nascido com a capacidade de distinguirmos entre o bem e o mal (sentimentos positivos e sentimentos negativos). Quando "fomos criados à imagem e semelhança" de Deus, isso pressupunha que, originalmente, nos foi outorgada a capacidade de fazer as nossas escolhas básicas. Mas tudo isso está dependente, para o futuro, das influências que se façam sentir (negativas devido ao pecado, positivas devido à acção continuada de Deus sobre nós) em cada um e dos condicionalismos que se criarem.
Mas, e isto deve-nos merecer enorme alegria, tudo pode ser trabalhado, mudado, melhorado. Deus criou-nos com a capacidade de contrariarmos a aparente fatalidade, e sermos actores fundamentais na construção do nosso padrão sentimental. Mas para isso é preciso tomar decisões inéditas, talvez, na nossa vida.

A salvação não será um prémio apenas para o que "sabemos", mas envolverá também o que sentimos. Por isso, talvez seja o momento de orarmos pedindo que "tenhamos aquele sentimento que houve também em Cristo Jesus." (Filipenses 2:5).


SENHOR, MUDA A MINHA FORMA DE AGIR

«Porque todo aquele que faz o mal aborrece a luz, ... mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que seja manifesto que as obras são feitas em Deus.» João 3:20, 21.

Quando pretendemos conhecer alguém devemos tomar em consideração todos os parâmetros que nos sejam acessíveis. O seu aspecto é importante para a composição da imagem que dele fazemos e que pode distinguir uma pessoa de outra. Mas a aparência exterior é reconhecidamente limitada para nos permitir conhecer a respectiva pessoa. Precisamos de conhecer o seu interior, os seus pensamentos, os seus sentimentos e obrigatoriamente as suas acções. Por essa razão, a frase "pelos seus frutos os conhecereis" (Mateus 7:16) ganha tanto impacto em cada um de nós.
Um pilar fundamental da nossa mente, para além da forma como pensamos e da maneira como sentimos, é tudo o que se relaciona com o exercício da nossa vontade. As nossas acções são o resultado do exercício da nossa vontade, que, por repetição, devem levar ao padrão das nossas reacções.
A visita ao Grand Canyon é uma oportunidade excelente para vermos como um rio foi cavando o terreno à sua volta, de forma que hoje pode ser verificado um desnível maior que 1 500 metros em alguns lugares. Com a nossa vida mental, cada pensamento cava o leito para um novo pensamento, cada sentimento nos fará sentir de determinada forma no futuro e cada acção nos condicionará a agir de acordo com o mesmo padrão futuramente. Assim como com a passagem das águas do rio, os materiais arrancados pela erosão não poderão jamais voltar a ser depositados no seu lugar de origem, as nossas acções vincam traços da nossa personalidade cujo apagamento nos pode parecer impossível.
Mas o que Deus nos propõe é que cresçamos até "à medida da estatura da plenitude de Cristo" (Efésios 4:13). Será isto natural? Será fácil? Não poderemos dar uma resposta afirmativa a estas duas questões. Será possível? Assim como uma barragem consegue domar as águas de um rio, também poderemos dizer que a resposta a esta última questão é positiva. Com Deus é possível mudar o padrão das nossas acções e progressivamente mudar também o registo das nossas reacções.

Porque não pedir-Lhe, hoje, que seja Ele o nosso principal aliado neste processo?


SENHOR, MUDA O MEU CARÁCTER

«E, por isso mesmo, vós, empregando toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência o domínio próprio, e ao domínio próprio a perseverança, e à perseverança a piedade, e à piedade a fraternidade, e à fraternidade o amor.» II Pedro:1:5-7.

Todos os crentes desejam ter um lugar na eternidade. Como resultado do sacrifício de Cristo, a eternidade pode tornar-se efectiva em cada um de nós. Usando uma imagem vulgar dos nossos dias, poderemos dizer que o passaporte que permite "essa viagem" tem que estar devidamente autenticado. É aqui que o carácter individual surge com uma importância incontornável. É ele que determina se reunimos as condições básicas para sermos contemplados com a graça da salvação.
Ellen White escreveu em 1881 o seguinte: «Cada acto da vida, por menos importante que seja, tem a sua influência na formação do carácter. Um bom carácter é mais precioso do que posses mundanas, e a obra de formá-lo é a mais nobre na qual se possam empenhar os homens.»
Não é de todo um desafio fácil, talvez seja até considerado impossível por alguns. «Cristo não nos deu garantia alguma de que é fácil alcançar a perfeição do carácter. Não se herda um carácter perfeito e nobre. Não o recebemos por acaso. O carácter nobre é ganho por esforço individual mediante os méritos e a graça de Cristo. É formado por combates árduos e renhidos com o próprio eu. As tendências herdadas devem ser banidas por um conflito após outro.» Idem.
Ninguém está fora desta luta. «Ninguém diga: "Não posso remediar os meus defeitos de carácter." Se chegarmos a esta decisão, certamente deixaremos de alcançar a vida eterna. A impossibilidade está na nossa própria vontade. Se não quisermos, não venceremos. A dificuldade real vem da corrupção de um coração não santificado, e da involuntariedade de se submeter à direcção de Deus." Ibidem.
Ser cristão é estar activamente envolvido na luta permanente por um carácter diferente do original, "é estar em busca da estatura de Cristo". Por isso, é muito séria a questão que colocamos em que é que hoje o meu carácter já é diferente do que era no passado?

Em oração fervorosa, vamos pedir que Deus nos dê a coragem e as oportunidades de aperfeiçoarmos o nosso carácter.

Daniel Esteves

terça-feira, 20 de abril de 2010

AS DUAS PEÇAS DE OURO



Quando os meus quinze contei, um tio velho que eu tinha,
Qu´inda choro e chorarei toda inteira a vida minha,
Disse-me um dia:— «Olhe cá! Está quase um homem já!
Para que por tal o tomem, quero fazer-lhe um presente,
Com que um homem...
Com que um homem se apresente.»

Julguei, n'esta oração toda, que o tal quase sobejava,
E sondei o beiço em roda a ver se o buço apontava.
Estranhara o tratamento! E o programa, que um portento
No tom me estava a indicar, fez-me, logo à introdução,
Palpitar...
Palpitar o coração!

Fiquei-me desvanecido, e aprumando-me vaidoso,
Ouvi, meio distraído, entre ufano e curioso,
O longo fim do sermão. O bom do meu tio então,
Acções juntando a promessas, deu-me, para meu tesouro,
Duas peças...
Duas peças novas de ouro.

Esquecendo a gravidade, e o valor que este incidente
Outorgara à minha idade, dei dois pulos de contente.
As peças mirei de perto; e não trocava de certo,
Desdenhando régias sinas, o meu erário infantil
Pelas minas...
Pelas minas do Brasil!

A cismar no que faria de tão grosso cabedal
Passei o resto do dia, e de noite dormi mal.
No meu sono, a cada instante, via um grupo fulgurante
De efígies tais, que não sei quem as tivera inventado.
E sonhei...
E sonhei que era morgado.

Apenas rompeu a aurora, posto a pé antes do sol,
Quis tomar, por ali fora, os meus desejos a rol.
Ai, que diversos e quantos! Eram tantos, tantos, tantos,
Que lhes não achava o fim. O mundo tinha um defeito:
Para mim...
Para mim era inda estreito.

Meditava seriamente se faria a aquisição
D'um relógio com corrente, ou d'um cavalo rabão.
Como escolhesse o cavalo, entrei logo a ajaezá-lo.
Mas... mas o relógio... Aqui, pensando com mais estudo,
Resolvi...
Resolvi-me a comprar tudo.




Era no campo. Ao sol posto (já fresca outoniça aragem
D'um dia depois de Agosto ciciava entre a folhagem),
Fui ao moinho do outeiro, onde o Domingos moleiro,
Porque às vezes me deixara trotar do seu macho em cima,
Conquistara...
Conquistara a minha estima.

De o deslumbrar d´aparatos a pia intenção levava;
Mas fui achá-lo nos tratos d'uma terçã que o prostrava.
Cessara o motim festivo: solitário e semi-vivo,
Jazia o triste no chão, com as faces amarelas
N'um montão...
N'um montão de rotas velas!

Chamei-o: nem respondia; busquei: tudo lhe faltava.
Quando eu aflito saía, a pobre moleira entrava.
Vinha de lidar chorando, negro pão de dois penando.
Em tal desanimo e dor, tirando a peça primeira,
Fui-lh'a pôr...
Fui-lh'a pôr à cabeceira.

Que nunca ninguém se esqueça da alheia tribulação!
Tinha saudades da peça, mas tinha orgulho da acção.
Ficara aos sonhos metade entre os braços da piedade.
Vago e ufano como um rei, bem que no caso a cismar,
Caminhei...
Caminhei para o Lugar.

Um pardieiro, entre rosas, havia do Povo à entrada,
Junto às ruínas musgosas d'uma ermida derrocada.
Vivia n'esta casinha a ti´Ana — uma velhinha
Que sabia muita história, e m'as contava ao serão,
Co'a memória...
Co'a memória da afeição.

Em versos, um tanto baldos, modulava-me ela ainda
As trovas de Dom Reinaldos e o romance de Florinda.
Fugia a noite apressada, ao sabor d'essa toada,
Em tão suspenso escutar, que o meu sentido primeiro
Foi chegar...
Foi chegar a cavaleiro.

Uma vaquinha leiteira
Alvas malhas, pêlo nédio,
Era a sua companheira e também o seu remédio.
Conhecia-lhe a canção e vinha comer-lhe à mão,
Quando não pascia à porta. Chego, e a fala me abandona!...
Vejo-a morta...
Vejo-a morta aos pés da dona!

Dera-lhe o mal de repente; para morrer ali fora.
Meigo o olhar inteligente inda carinhos implora!
A pobre velha, coitada, sem voz, trémula e parada,
Olhava, olhava também, como quem na dor que encerra
Mais não tem...
Mais não tem quem ver na terra.

Nada disse. Que diria? Há desgraças tão completas,
Que da própria simpatia são as vozes indiscretas.
A velha não se moveu... E chorava!... E chorei eu!...
Que havia determinar, em miséria tão expressa,
Senão dar...
Senão dar-lhe a outra peça?

Puz-lh'a, mudo, no regaço; e volvi a passos lentos,
Apagando, n'um só traço, desejos com sentimentos!
Senti o fausto perdido: mas não foi de arrependido!...
Dissipada já deixava a fantástica opulência,
Mas levava...
Mas levava a consciência!


Mendes Leal



quinta-feira, 8 de abril de 2010

SÓ DEUS É REI


- Viva o rei para sempre!
Eram estas as primeiras palavras que todos os homens do país haoussa deviam dizer, sem se enganar, segundo os costumes sagrados, sempre que comparecessem na presença do seu soberano.

Ora, à sombra da árvore de vasta folhagem onde esse senhor do reino recebia todas as manhãs o seu povo apareceu um dia um homem alto e de aspecto calmo que ousou saudá-lo com estas palavras:
- Só Deus é rei.
No mesmo instante ergueu-se um murmúrio escandalizado entre os cortesãos de vestes levemente esvoaçadas pela brisa. O rei não se atreveu a irritar-se. Sorriu, levantou a mão para impor silêncio e pediu ao audacioso que repetisse o cumprimento, estendendo o ouvido e torcendo o nariz, como se tivesse escutado mal.
- Só Deus é rei - repetiu o homem, impassível e firme.
Então o rei sentiu-se cruelmente ferido no seu orgulho, mas não deixou que tal transparecesse. Respondeu:
- Homem, a tua insolência é de louco ou de herói. Quem és tu?
- Um camponês do teu país. Cultivo a minha terra na orla da cidade e apenas ambiciono alimentar convenientemente a minha mulher e os meus filhos durante o tempo que me for concedido para viver.
- Mereces a minha consideração e a minha confiança - disse o monarca.
Tirou do dedo um anel de ouro cinzelado, estendeu-lho e acrescentou:
- Confio-te este sinal da minha realeza, que os meus inimigos tanto cobiçam. Guarda-o preciosamente, porque, se o perderes, deverás pagá-lo com a tua vida. Que seja assim honrado aquele que não tem outro rei senão Deus.

O homem saudou-o e voltou para casa com o anel no seu punho cerrado.
Uma semana mais tarde o senhor do reino mandou-o chamar. Tiveram dificuldade em arranjar-lhe lugar diante do trono.
- Tenho uma missão a confiar-te - disse-lhe. - Preciso de pedreiros e artífices habilidosos para construir a nova muralha da minha cidade. Visita todas as aldeias do país, mesmo as mais distantes, e traz-me os homens de que careço.
Aquele que era agora conhecido pelo povo por SÓ-DEUS-É-REI voltou nesse instante para casa, escondeu num chifre de carneiro o anel real que lhe fora confiado e disse à mulher:
- Tenho de partir em viagem. Na minha ausência, toma conta deste objecto. Que te seja tão querido como a minha própria vida.
Beijou-a, apertou os filhos nos braços, depois montou no burro e partiu.

Mal saíra da cidade, o rei enviou, em segredo, um mensageiro a casa da mulher de SÓ-DEUS-É-REI. Esse homem, de olhar resplandecente, ofereceu à esposa receosa mil conchas pelo chifre de carneiro onde estava o anel. Com as mãos trémulas e o coração palpitante ela empurrou-o. Então ele abriu diante dela três cofres cheios de roupas magnificamente tingidas e tecidas a fio de ouro. Ela levou-as ao rosto, inspirou o seu perfume, vestiu-as, contemplou o seu esplendor num espelho de cobre, fechou os olhos e apontou a viga da casa, em cujo vão estava escondido o chifre. O mensageiro levou-o apressadamente ao seu amo. Logo que o rei teve na mão o anel, deu uma gargalhada e resmungou maliciosamente:
- Façam-me um anel novo e deitem este no lago mais profundo do país.
Dois servidores partiram imediatamente a correr e fizeram o que lhes fora ordenado.

No caminho de regresso Só-Deus-É-Rei e a sua equipa de pedreiros pararam uma noite numa aldeia de pescadores onde lhes ofereceram tantos frutos e bebidas fortes, tantos cantos e risos, que decidiram ficar por alguns dias entre essa gente de bem antes de enfrentarem a savana rude que os separava da cidade real. No dia seguinte acompanharam os homens à pesca, donde voltaram ao crepúsculo com as redes pesadas e escorrendo água.
Quando alinharam os peixes sobre o grande leito de folhas verdes no centro da praça, um ainda se mexia. Tinha um tamanho que se impunha e era cintilante como as águas de um lago sob as chamas do sol-poente. Uma criança agarrou-o, pegou na faca do pai, baixou-se e abriu o ventre do animal, como via os outros fazerem. Então de entre as entranhas apareceu uma anel brilhante. Na ponta da faca, a criança, espantada, estendeu-o a Só-DEUS-É-REI, que se encontrava próximo. Este examinou-o e, com os olhos inflamados e a boca aberta, reconheceu o anel que o rei lhe havia confiado. Tinha sido lançado naquele lago. Um peixe engolira-o. A criança segurava-o agora na mão. SÓ-DEUS-É-REI deu uma gargalhada. Nessa noite festejou com a alegria desabrida de um miraculado.

Alguns dias mais tarde os viajantes chegaram à cidade real. SÓ-DEUS-É-REI, regressado a casa, beijou a esposa e perguntou-lhe pelo chifre de carneiro. Ela respondeu-lhe que um rato o havia roído, e engolido, sem dúvida, o anel. Franziu o sobrolho, com as mãos nas ancas. Mal ela se escapou para a rua, temendo a cólera do esposo, apareceram quatro guerreiros da guarda do palácio. Conduziram o homem junto do monarca, que saudaram em voz alta logo que entraram na sala do trono:
- Viva o rei para sempre!
- Viva o rei para sempre! - repetiram, em coro, os cortesãos reunidos.
O rei mandou-os calar com um gesto impaciente, fez sinal para que avançasse aquele que tinha ferido o seu orgulho e pediu-lhe o anel de ouro. Este enterrou a mão no grande bolso do seu traje e estendeu-lho, dizendo:
- Na verdade, só Deus é rei.
O monarca soltou um murmúrio de admiração, suspirou e respondeu, abanando a cabeça:
- Homem, tens toda a razão. Só Deus é Rei.

Dividiu então o reino em duas partes iguais e ofereceu uma delas a SÓ-DEUS-É-REI, cujo nome se tornou tão caro ao coração dos Haoussas que ainda hoje se divertem a escrevê-lo nas traseiras dos camiões, autocarros e barcos de pesca para que seja espalhada aos quatro ventos esta história estranha e verdadeira, sem a qual a vida não seria digna de confiança.

Henri Gougard
A ÁRVORE DOS TESOUROS - lendas do mundo inteiro.