domingo, 22 de abril de 2018


A     V  E  R  D  A  D  E    D  I  V  I N  A


UM DESAFIO AOS INCRÉDULOS
E
UMA ADVERTÊNCIA AOS RELIGIOSOS


O MISTÉRIO DA VIDA

       Antes do dia que chamamos hoje houve uma eternidade, para onde foge inexoravelmente o presente, e diante de nós constantemente se abre outra, reservando novos e insondáveis mistérios. Que compreende o homem dele mesmo no meio destas eternidades e de tudo que o cerca? Qual foi o princípio deste mundo e que inteligência, ou Ente supremo e misterioso, tudo criou, tudo ordenou, e por Suas leis tudo mantém? Que sabem, verdadeiramente, os homens da ciência, os mortais sábios deste mundo, do mistério da vida e da sua origem no nosso planeta? Que sabem eles ao dizerem-nos, desligados do seu Criador, e segundo as suas teorias, que para o homem ter aparecido fora necessário uma evolução de milhões de anos, quando afinal, ainda hoje bastam apenas nove meses, para que o ser humano, tão maravilhoso em si mesmo, se gere, se forme, por assim dizer do nada, numa evolução tão rápida, tão precisa e para nós tão incompreensível - e isto sem falarmos da distinção inegável das espécies básicas das plantas e dos animais, das leis físicas que nos regem, e de todas as maravilhas da Criação? Porque pretendem igualmente convencer-nos, também pelas suas teorias, como uma verdade científica e indiscutível, das chamadas idades geológicas, numa pretendida ordem progressiva e lenta das camadas e dos fósseis, quando se não verifica isso na realidade, e até se encontra em algumas regiões da Terra essa pretendida ordem ascendente, de maneira diferente e mesmo em sentido inverso? Não serão antes, as camadas terrestres e os fósseis, contemporâneos entre si, a prova mais concludente do dilúvio universal bíblico que se esforçam por negar? (2 Pedro 3:5,6). Que haverá então de verdadeiro ou de hipotético nas muitas arrojadas e, digamos, dogmáticas afirmações da chamada ciência, quando ainda o mistério continua? Mas não haverá, porventura, uma revelação da parte do Criador, pela qual possamos conhecer a verdade? Sim, prezado leitor, é o que nos propomos demonstrar neste folheto.

A BÍBLIA

       Precisais então de conhecer e examinar a autoridade da Bíblia - livro antiquíssimo, talvez o mais antigo, cuja autenticidade está plenamente comprovada, porque quem fala nela é Jeová - o EU SOU - o único Deus verdadeiro, o Deus invisível, o Deus Criador - e as Suas credenciais são as Suas próprias afirmações e predições irrefutáveis. Será assim? Ora oiçamo-l'O:
       «Eu fiz a Terra, e criei nela o homem: Eu o fiz.» Isaías 45:12.
       Deus não precisou de milhões de anos para criar o mundo «porque falou, e tudo se fez; mandou, e logo tudo apareceu», «sustentando todas as coisas pelo poder da Sua palavra» (Salmos 33:9; Hebreus 1:3).
       «Eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a Mim; que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: o Meu concelho será firme, e farei toda a Minha vontade.» Isaías 46:9,10.
       «Trazei as vossas firmes razões... Anunciai-nos as coisas que ainda hão-de vir, para que saibamos que sois deuses.» Isaías 41:21-23.
       Notamos, como adiante demonstraremos, que o Jeová da Bíblia, nestas assombrosas afirmações, já há muito que desafiou os incrédulos e Se revela como nosso Criador e autor da Natureza, e de todas as leis que regem o Universo.
       Portanto, Jeová não é o Criador, ou a Bíblia não é a Sua Palavra, se pudermos provar que as Suas predições não se realizam, e, então, a religião cristã, que nela se funda, não passará de superstições e meras convenções humanas, como todas as outras religiões. Mas, caso contrário, isto é, se não é possível refutar o cumprimento das profecias e a autoridade divina da Bíblia, então teremos de admitir que todos os incrédulos já há muito que estão derrotados e que as suas deduções não oferecem garantia de que se baseiam na verdade.
       Eis, pois, o que pretendemos examinar e demonstrar neste folheto, para cujas provas chamamos a benévola atenção do leitor.
       Comecemos pelas predições contra a cidade de Tiro, feitas há 2500 anos.

TIRO
       Cidade marítima da antiga Fenícia, detentora de grandes riquezas, que negociava com o fino ouro de Társis, os marfins de Damasco, as pedras preciosas de Aram e com os escravos. As suas frotas mercantes sulcavam constantemente o Mediterrâneo e outros mares. Era a Londres da Ásia dos tempos antigos; navios de muitas nações ancoravam no seu porto e estrangeiros percorriam as suas ruas e enriqueciam o seu comércio. No auge da sua prosperidade, quando nada fazia prever a decadência e ruína, cerca do ano 590 a.C., disse Deus pelo profeta Ezequiel:
       «Eis que estou contra ti, ó Tiro, farei subir contra ti muitas nações, como se o mar fizesse subir as suas ondas; elas destruirão os muros de Tiro, e derrubarão as suas torres; e Eu varrerei o seu pó e dela farei uma penha descalvada... e o teu pó, lançarão no meio das águas... virás a ser um enxugadouro das redes. ...nunca mais serás habitada: porque Eu, o Senhor, o falei, diz o Senhor Jeová.» Ezequiel 26:3,4,12,14.
       O desafio está lançado.
       Temos, pois, as seguintes predições, feitas há 2500 anos: (1) Que Tiro seria destruída. (2) O seu pó lançado no mar. (3) Seria convertida num enxugadouro de redes. (4) E nunca mais seria habitada.
       Acaso alguma delas falhou? Vejamos: (1) Nabucodonozor, rei da Babilónia, destruiu-a em 577 a.C. (2) Duzentos e quarenta e cinco anos mais tarde, em 332 a.C., Alexandre Magno, para tomar a nova Tiro, então edificada numa ilha a mais de 500 metros da costa, empregou todos os materiais das ruínas da antiga cidade, e até o próprio pó foi raspado, para a construção de um aterro de acesso entre as duas margens, e assim foi o seu pó lançado nas águas. (3) Hoje é o seu lugar um enxugadouro das redes, exactamente como foi predito. (4) A antiga cidade, com seus muros, suas torres e suas riquezas, desapareceu completamente.
       Poder-se-ia exigir um cumprimento mais exacto? Poderia qualquer homem, sem inspiração divina, fazer tais predições tão rigorosas e tão certas, há 2500 anos? Não nos parece crível.

ASCALON
       Contra esta cidade antiga disse Deus:
       «Ascalon será assolada.» Sofonias 2:4. «Ascalon não será habitada.» Zacarias 9:5.
       A cidade de Ascalon foi fundada em 1800 a.C. no litoral da Palestina. Foi o berço de Herodes o Grande, que a adornou com soberbos edifícios. Durante centenas de anos cresceu em importância e ainda no tempo das Cruzadas ela desempenhou um papel preponderante; até que finalmente foi destruída pelo sultão Beibars, em 1270 da nossa era, ou seja - note o leitor - 1700 anos depois das predições feitas. As suas fortificações foram demolidas e o seu porto obstruído com pedras, não apresentando Ascalon, daí para cá, outro quadro que não seja uma completa desolação; ao mesmo tempo que as suas ruínas não abrigam um único ser humano, apesar da fertilidade da região.
       Eis o que lemos na Enciclopédia Britânica:
       «Agora um desolado sítio na costa, a cerca de vinte quilómetros ao norte de Gaza. ...Emergindo, deste terreno varrido pela areia, colunas despedaçadas, restos de edifícios em ruínas e muros derribados dão testemunho da sua passada magnificência... A região que a rodeia é fértil. Florescem vinhas, oliveiras e uma variedade de árvores frutíferas.»
       Por que é, então, que muitas outras cidades daquele tempo ainda hoje existem e são habitadas, como, por exemplo, Sídon, Damasco, Jerusalém e tantas outras, e não Ascalon? Suponhamos que estas predições tivessem sido feitas contra as primeiras? Que seria da inspiração divina da Bíblia?
       Ascalon, porém, não seria habitada e não é habitada.

BABILÓNIA
       Orgulhosa e opulenta cidade do mundo antigo e capital do império do mesmo nome. A sua abundância de ouro, as suas artes, os seus belos jardins suspensos, os seus sumptuosos palácios, as suas numerosas e amplas avenidas, as suas muralhas espessas e altas, as suas magníficas torres, os seus ricos e elevados templos, fizeram dela uma das maravilhas da antiguidade. A fertilidade e fecundidade dos seus campos eram proverbiais. As suas fortificações eram únicas em todo o mundo. Nenhuma cidade oferecia mais probabilidades de resistir às guerras e às inclemências da História.
       Mas que disse Deus de Babilónia?
       Vejamos no livro do profeta Isaías, escrito 700 anos antes de Cristo, ou seja 150 anos antes do apogeu do grande império babilónico e portanto contra todas as indicações de futura ruína. Lemos:
       «Assim será Babilónia, o ornamento dos reinos, a glória e a soberba dos Caldeus, como Sodoma e Gomorra, quando Deus as transtornou. Nunca mais haverá habitação nela, nem se habitará de geração em geração: nem o Árabe armará ali a sua tenda, nem tão pouco os pastores ali farão as suas malhadas. Mas as bestas feras do deserto repousarão ali, e as casas se encherão de horríveis animais: e ali habitarão as avestruzinhas, e os bodes pularão ali. E as bestas feras que uivam se apuparão umas às outras nos seus palácios vazios, como também os chacais nos seus palácios de prazer; pois bem perto já vem chegando o seu tempo e os seus dias se não prolongarão.» (Isaías 13:19-22).
       Vejamos também no livro do profeta Jeremias que viveu no sexto século antes de Cristo:
       «E Babilónia virá a ser uns montões, morada de chacais, espanto e assobio, sem que haja quem habite nela... Também o muro de Babilónia caíu... E a Caldeia servirá de presa; todos os que a saqueiam serão fartos, diz o Senhor.» (Jeremias 51:37,44; 50:10).
       Temos aqui predições numerosas e duma precisão impressionante, as quais se falhassem, ainda que fosse no mais pequeno pormenor, fariam ruir todo o sistema da inspiração divina da Bíblia. Mas não. Veremos mais uma vez que é impossível desmentir a Bíblia.
       Eis o cumprimento deveras assombroso:

       (1) «O muro de Babilónia caiu.» Ciro, rei da Pérsia, tomou Babilónia em 538 a. C. Anos depois, após uma revolta, Dario I mandou derrubar os seus altos muros.
       (2) «Todos os que a saqueiam serão fartos.» A Caldeia possuía riquezas fabulosas e não foi saqueada duma só vez. Ciro levou enormes tesouros. Xerxes e o seu exército tomaram só em ouro o valor de 2.500.000 contos, além doutros ricos despojos. Alexandre Magno, com o despojo que dela retirou, pagou no valor de mil escudos a cada soldado do seu numeroso exército, guardando também para si imensas riquezas. Depois disto, saquearam-na os Partas, os Romanos e os Sarracenos.
       (3) «Nunca mais haverá habitação nela.» A partir dos primeiros séculos da era cristã, Babilónia despovoou-se por completo e nunca mais foi habitada até ao dia de hoje.
       (4) «Nem o Árabe armará ali a sua tenda.» Embora muitos povos antigos desaparecessem ou mudassem os seus costumes, contudo, os Árabes continuariam a ser os mesmos. Ainda hoje os Árabes armam as suas tendas nos arredores de Babilónia como o faziam há 2500 anos, mas não pernoitam dentro do recinto da antiga cidade, porque é sua crença, ali habitarem os demónios.
       (5) «As bestas feras que uivam se apuparão umas às outras nos seus palácios vazios.» Segundo o testemunho de viajantes, são os animais selvagens os únicos habitantes das ruínas dos seus palácios, apresentando toda a região, que fora outrora a rica, poderosa e orgulhosa Babilónia, um quadro da mais triste e completa desolação.

       Como explicar, prezado leitor, tão minucioso, rigoroso e assombroso cumprimento que faz da Bíblia, sem dúvida possível, um livro altamente maravilhoso, sem igual no mundo. Acaso não estaremos na presença de um milagre dezenas de vezes secular e de uma autoridade superior?
       Porém muito mais teríamos a dizer, se o espaço nos permitisse neste folheto, apresentando as predições sobre Nínive, Egipto, Amom, Moab, Edom, Filisteia, Recabitas e Judeus, cujo cumprimento é tão preciso e maravilhoso como o dos profetas acima apresentados. Todavia estas já devem bastar.
       Mas agora queira o leitor acompanhar-nos numa outra ordem de profecias não menos admiráveis.

A SUCESSÃO DOS IMPÉRIOS UNIVERSAIS


       No livro do profeta Daniel, capítulo 2, lemos que Deus deu um sonho a Nabucodonozor, rei de Babilónia (606 a.C.), no qual lhe revelou a então futura história do mundo sob o símbolo de uma estátua que tinha cabeça de ouro, braços e peito de prata, coxas e ventre de cobre, pernas de ferro, e pés de ferro e de barro, até que uma pedra estranha à estátua caiu sobre os pés e os esmiuçou, reduzindo depois toda a estátua a pó que foi levado pelo vento, ficando a pedra que aumentou imensamente de volume e cobriu toda a Terra.
       O profeta Daniel é levado à presença do rei e, segundo a interpretação dada, eis como a profecia se cumpriu e se há-de cumprir:
       A cabeça de ouro representa o primeiro império, Babilónia; os braços e peito de prata, o segundo império, Medo-Pérsia; as coxas e o ventre de cobre, o terceiro império, a Grécia; as pernas de ferro, o quarto império, o duro e cruel Império Romano; os dedos dos pés em parte de ferro e em parte de barro simbolizam a Europa actual, ou seja a divisão do Império Romano em dez nações pela invasão dos Bárbaros.
       «Mas não se apegarão uns aos outros assim como o ferro se não mistura com o barro», disse o profeta, referindo-se às nações actuais que ocupam na Europa o território, propriamente dito, do antigo Império Romano.
       É nestas palavras que está o segredo, porque, apesar das continuadas guerras, se não tem conseguido e nunca se conseguirá a fusão das nações europeias, embora tenha sido esse o sonho almejado de grandes generais e reis, tais como Carlos Magno, Carlos V, Napoleão e outros mais modernos. Estas três palavras de Deus: «não se apegarão» - note bem leitor - têm sido e serão a razão do fracasso de todos eles.
       Agora perguntamos: Seria possível que Daniel, homem como nós, vivendo há 2500 anos, pudesse prever com tanta precisão a história das nações, sem ter sido inspirado da parte de Deus? Mas, se até aqui a profecia se cumpriu de maneira absolutamente irrefutável, que diremos nós da parte que ainda falta cumprir-se? Será lógico, será seguro duvidar do restante cumprimento e crer que alguém possa com fundamento garantir-nos que a última parte anunciada se não realizará? Quer-nos bem parecer que não.
       Oiçamos, pois, a profecia:
       «Mas nos dias destes reis (ou Estados), o Deus do Céu levantará um reino que não será jamais destruído; e este reino não passará a outro povo: esmiuçará e consumirá todos estes reinos, e será estabelecido para sempre. Da maneira que viste que do monte foi cortada uma pedra, sem mãos, e ela esmiuçou o ferro, o cobre, o barro, a prata e o ouro, o Deus grande fez saber ao rei o que há-de ser depois disto; e certo é o sonho e fiel a sua interpretação.» Daniel 2:44,45.
       A pedra de que fala o profeta, sabemos nós, pelo contexto, representa Cristo, que há-de voltar «vindo sobre as nuvens do céu, com poder e grande glória» (Mateus 24:30), a fim de pôr termo à história deste mundo, história de pecado, violências e injustiças, e, depois de ter destruído todos os ímpios no juízo final, no fogo da geénna, estabelecer nesta Terra renovada o Seu reino eterno, «um reino que não será jamais destruído», de que farão parte todos os remidos que neste mundo fizeram a vontade de Deus. «Porque os malfeitores serão desarreigados; mas aqueles que esperam no Senhor herdarão a Terra.» Salmos 37:9 (36:9 - Versão Católica).
       Ora o estimado leitor tem de concordar connosco, pelas provas já apresentadas, que esta profecia se realizará tão completa e fielmente como as anteriores. Mas podemos nós ainda conhecer com exatidão o tempo da volta de Cristo, «o tempo do fim» (Daniel 12:9)? Acaso dá-nos Deus também pormenores precisos para conhecermos o tempo de tão importante acontecimento? É o que passamos a demonstrar:

O TEMPO DO FIM

       Como vimos acima, Deus revelou pelo Seu profeta a sucessão dos grandes impérios: Babilónia, Medo-Pérsia, Grécia e Roma, e a divisão deste em dez nações que ainda compõem a Europa actual. Mas outras profecias - ver Daniel capítulo 7 e Apocalipse cap. 13 - informam-nos também que no meio das dez nações surgiria uma potência diferente delas, uma potência político-religiosa; mais pequena do que as primeiras, mas de maior aparência, com as seguintes características: (1) Sucederia ao Império Romano. (2) Mudaria os tempos determinados e a Lei. (3) Perseguiria e mataria o verdadeiro povo de Deus. (4) E dominaria um tempo, tempos e a metade dum tempo, 42 meses, ou sejam 1260 dias (Apocalipse 12:6,14), que em profecia são anos (Ezequiel 4:6), e, portanto, 1260 anos.
       Ora, qual é a potência que cumpre esta profecia? Não vemos outra a não ser o papado. (1) Sucedeu ao Império Romano, visto ocupar, como Estado, o seu trono em Roma, e ser o latim a sua língua oficial, pretendendo igualmente o domínio sobre as nações. (2) Mudou a Lei de Deus; facto que qualquer pessoa pode verificar, confrontando a lei nos catecismos com a verdadeira Lei que se encontra na Bíblia (Êxodo 20). Note o leitor, que a verdadeira Lei de Deus na Bíblia proíbe o culto das imagens e manda santificar o Sábado, o sétimo dia da semana, a memória da Criação; ao passo que a dos catecismos suprime o mandamento da proibição do culto das imagens e manda guardar o Domingo papal e outros dias santos de autoridade humana - embora Jesus houvesse dito que dos divinos mandamentos não se poderá omitir um jota nem um til (Mateus 5:17-19). (3) O papado matou milhões de crentes, que conscienciosamente não podiam obedecer à sua autoridade, e isto fê-lo por meio da chamada Santa Inquisição, autos-da-fé e massacres organizados. (4) A sua supremacia sobre as nações durou precisamente 1260 anos, do imperador Justiniano à Revolução Francesa, isto é, da libertação de Roma dos godos arianos à supressão da hegemonia papal pelas tropas do Directório (538-1798).
       E quanto à Lei de Deus, confessa Roma tê-la mudado, e especialmente o mandamento da santificação do Sábado? Oiçamos as seguintes autoridades da Igreja:
       «(Os católicos e os protestantes em geral) não observam o Sábado, mas o Domingo; mas se tomarmos a Escritura Sagrada como única regra de fé, vemos que isso é contra a lei divina; porque, por um lado, conclui-se claramente do Velho Testamento que o Sábado deve ser santificado; por outro lado, verifica-se no Novo Testamento que os apóstolos do mesmo modo observaram fielmente o Sábado; e não lemos em parte alguma das Escrituras Sagradas que este divino preceito tenha sido abrogado. Os protestantes estão, pois, moralmente obrigados, ou a regressarem ao Sábado judaico (?), ou, então, a submeterem-se à autoridade da Igreja que, pelo poder recebido de Deus (?), substituiu o dia se Sábado pelo dia do Domingo.» - Tanquerey Synopsis Theologiae Dogmaticae, vol. I, 18ª ed., p. 368.
       «A Bíblia manda santificar o Sábado e não o Domingo, Jesus e os Apóstolos guardaram o Sábado.» - Padre Dubois, Belém, «O Biblismo», p. 106.
       «A que Igreja todo o mundo civilizado obedece? A Bíblia diz: 'Lembra-te do dia de Sábado para o santificar', mas a Igreja Católica diz: Não, guarda o primeiro dia da semana; e todo o mundo se inclina em obediência reverente às ordens da Igreja Católica.» - Conferência do Padre T. Enright, of Des Moines, Yowa, então presidente do Colégio dos Padres Redentoristas (1893).
       Mas que nos diz Deus? Eis o Seu aviso para todos:
       «Se desviares o teu pé do Sábado, e de fazer a tua vontade no Meu Santo Dia, e se chamares ao Sábado deleitoso, e Santo Dia do Senhor digno de honra, e o honrares não segundo os teus caminhos, nem pretendendo fazer a tua própria vontade, nem falar as tuas próprias palavras, então te deleitarás no Senhor.» Isaías 58:13,14.
       «Assim diz o Senhor: Mantende o juízo, e fazei justiça, porque a Minha Salvação está prestes a vir, e a Minha justiça a manifestar-se. Bem-aventurado o homem que fizer isto, e o filho do homem que lançar mão disto, que se guarda de profanar o Sábado, e guarda a sua mão de perpetrar algum mal.» Isaías 56:1,2.

       Prezado leitor, é, pois, um facto que Roma mudou a Lei de Deus, e se existe conflito contra a autoridade divina, em que bases se formará a anunciada unidade dos crentes? Na desobediência ou na obediência a Deus? Cada um terá de fazer a sua escolha.
       Continuando, vemos que é depois dos acontecimentos acima expostos que entramos no «tempo do fim», que, conforme as profecias declaram, seria após «a aflição daqueles dias» (Mateus 24:29), ou seja, do despotismo religioso que duraria até esse tempo (Daniel 11:35).
       Consequentemente, estamos vivendo no «tempo do fim», quando a história das nações vai terminar, o qual, além do que já expusemos, está bem marcada ainda pelos seguintes importantes acontecimentos, que constituem igualmente os sinais precursores da volta de Cristo e se estão cumprindo nos nossos dias:

       (1) No tempo do fim «a ciência se multiplicará». Daniel 12:4.
       Desde a Revolução Francesa os conhecimentos humanos aumentam rapidamente, duma forma assombrosa, os quais têm transformado profundamente as condições no nosso mundo. As invenções multiplicam-se aceleradamente, na mesma medida em que as distâncias desaparecem. Os homens voam e correm vertiginosamente sobre a face da Terra, nos céus, e até no espaço; veem-se, falam-se e ouvem-se como se estivessem todos numa mesma casa. «E os seus carros não têm fim» (Isaías 2:7). As maravilhas científicas parece não terem limites. Ora, por que é que isto está acontecendo na nossa época, no «tempo determinado» pela profecia, e não noutras anteriores? Evidentemente, porque Deus assim o disse, indicando estes nossos dias, os últimos da humanidade. É um facto deveras digno da nossa atenção. Por isso lemos ainda: «Que tempo haverá até ao fim das maravilhas?», pergunta um anjo (Daniel 12:6).

       (2) O conflito entre o capital e o trabalho.
       «Eia pois vós, ricos, chorai e pranteai por vossas misérias, que sobre vós hão-de vir. As vossas riquezas estão apodrecidas, e os vossos vestidos estão comidos da traça. O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram; e a sua ferrugem dará testemunho contra vós, e comerá como fogo a vossa carne. Entesourastes para os últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras, e o qual por vós foi diminuído, clama; e os clamores dos que ceifaram entraram nos ouvidos do Senhor dos Exércitos... Sede, pois, irmãos pacientes até à vinda do Senhor.» Tiago 5:1-7.
       Quem é que não pode ver nesta profecia o actual conflito entre o capital e o trabalho, as greves e as revoluções que vão por esse mundo fora, e as ruínas que já têm causado e estão causando? De facto, hoje, em pouco tempo formam-se fortunas colossais e esbanjam-se imensas riquezas para satisfação de prazeres, de vaidade e de egoísmo humano, sem se pensar verdadeiramente em melhorar as condições de muitos milhões que vivem mal e até na mais negra miséria. Esta situação alarmante, como lemos, está atraindo os juízos de Deus.

       (3) A corrupção no meio religioso dos nossos dias.
       «Sabe, porém, isto, que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos. Porque haverá homens amantes de si mesmos, avarentos, presunçosos, soberbos... mais amantes dos deleites do que amantes de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando a eficácia dela.» 2 Timóteo 3:1-5.
       Nestes textos é apontado o mundanismo e formalismo religioso, bem evidente no nosso tempo, pois há muita aparência de cristianismo, mas, pela corrupção e desprezo dos princípios fundamentais do Evangelho, o negam, e (daí) resultam os tempos trabalhosos, afirmando também que «os homens maus e enganadores irão de mal para pior, enganando e sendo enganados» (verso 3).

       (4) Grandes guerras e muitas outras calamidades.
       «Então, lhes disse (Jesus): Levantar-se-á nação contra nação e reino contra reino; e haverá em vários lugares grandes terramotos e fomes e pestilências; haverá também coisas espantosas e grandes sinais do céu... Homens desmaiando de terror, na expectação das coisas que sobrevirão ao mundo... E então verão vir o Filho do homem numa nuvem, com poder e grande glória. Ora, quando estas coisas começarem a acontecer, olhai para cima e levantai as vossas cabeças, porque a vossa redenção está próxima» (Lucas 21:10, 26-28).
       Como vemos, não há ambiguidade nestas predições, mas clareza, e cada vez se tornam mais convincentes, à medida que os acontecimentos as vão confirmando. Veremos, pois, grandes terramotos, fomes, pestes e guerras, como nunca antes, as quais com as outras grandes calamidades, ao intensificarem-se, criarão um verdadeiro estado de incerteza e de pânico entre os povos, e isto, ao aproximar-se a segunda vinda de Cristo. Acaso não vivemos já nestes últimos acontecimentos?
       Devemos dizer que a guerra será um dos principais factores profetizados da destruição do mundo, embora os homens apregoem paz e desarmamento, e isto, como consequência da sua rebelião em que vivem contra a Lei divina com a qual se não querem conciliar (Isaías 24:5; 48:18).
       Oiçamos a Palavra de Deus:
       «Porque Eu chamo a espada, sobre todos os moradores da Terra, diz o Senhor dos Exércitos... Chegará o estrondo até à extremidade da Terra, porque o Senhor tem contenda com as nações, entrará em juízo contra toda a carne: os ímpios entregará à espada, diz o Senhor. Assim diz o Senhor dos Exércitos: Eis que o mal sai de nação a nação, e grande tormenta se levantará das ilhargas da Terra. E serão os mortos do Senhor, naquele dia, desde uma extremidade até à outra extremidade da Terra: não serão pranteados, nem recolhidos, nem sepultados; mas estarão por esterco sobre a face da Terra.» Jeremias 25:29-33.
       «Pois, que, quando disserem: Há paz e segurança, então lhes sobrevirá repentina destruição... e de modo algum escaparão.» I Tessalonicenses 5:3.
       A guerra final e universal, chamada a do Armagedon (Apocalipse 16:12-16), com os seus tremendos efeitos destrutivos, só poderia ser evitada se os homens quisessem obedecer ao seu Criador, mas, como, infelizmente, isso não sucede, todos os povos da Terra terão de marchar (Joel 3:9-14) sob o domínio e direção dos demónios (Apocalipse 16:14), e a sua destruição total será inevitável, como declara o apóstolo: «e de modo algum escaparão» (I Tessalonicenses 5:3).
       Conseguirão, pois, os homens que são maus, por seus próprios meios, estabelecer uma paz duradoura, justa e universal? Como vemos, Deus, que tudo previu, afirma que não.

       (5) A pregação do Evangelho Eterno em testemunho a todas as gentes antes do fim.
       «E vi outro anjo voar pelo meio do céu e tinha o Evangelho Eterno, para proclamá-lo aos que habitam sobre a Terra, e a toda a nação, e tribo, e língua, e povo. Dizendo com grande voz: Adorai Aquele que fez o céu e a Terra, e o mar e as fontes das águas.» (Apocalipse 14:6,7).
       «E este Evangelho do Reino será pregado em todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim.» (Mateus 24:14).
       A publicação deste folheto é uma prova. Livre de todas as tradições e doutrinas criadas pelos homens, à margem da Bíblia, as quais lhe são estranhas e até contrárias - tradições pseudo-orais que têm dividido a Cristandade desde o seu início, segundo as suas variantes: credos romano, grego, arménio, copta, etc. - o Evangelho de Jesus, o verdadeiro apostólico, está sendo pregado, segundo as Escrituras, a todo o mundo, pela Igreja Adventista do Sétimo Dia. Adventista porque proclama o iminente advento de Cristo, e do Sétimo Dia, porque guarda o Sábado de Deus - e a sua acção já se exerce em toda a Terra.
       Ora, quando este testemunho de advertência da parte de Deus, pois é o Espírito de profecia que o dirige, tiver sido dado a todo o mundo - como o foi a mensagem de Noé (Mateus 24:37) - que acontecerá? «Virá o fim.»

O PLANO DA REDENÇÃO

       Para melhor conhecimento do leitor, vamos aqui resumir o plano da Salvação, segundo a Bíblia. A existência do mal não é da vontade de Deus, contudo, ele teve origem no Céu, no mais glorioso dos anjos (Lúcifer) que arrastou na sua rebelião contra o governo de Deus a terça parte dos anjos, hoje chamados demónios, com os quais foi expulso dos Céus a fim de esperar o seu julgamento.
       Ele veio à Terra e conseguiu enganar e arrastar para a mesma rebelião os nossos primeiros pais. Desde então, é essa a explicação bíblica, este mundo tornou-se automaticamente o domínio de Satanás e os homens os seus escravos, que gemem, desde então, debaixo do implacável e odioso jugo da mentira, das vis paixões, da injustiça, dos sofrimentos e da morte. Deus, porém, não abandonou o homem à sua sorte, mas, no Seu infinito amor e dentro da Sua justiça imutável, concebeu o plano da Salvação, o qual consiste fundamentalmente na aceitação de um substituto para o pecador e que pudesse satisfazer plenamente a Sua Lei ofendida, a Lei Eterna que revela o pecado (Romanos 3:20) e o condena, exigindo a morte do transgressor, porque «a alma que pecar, essa morrerá» (Ezequiel 18:20).
Também esse substituto não podia ser qualquer homem, nem nenhum anjo, por se encontrarem, eles próprios, como criaturas, debaixo da mesma Lei, mas sim o próprio Legislador, Cristo, a segunda Pessoa da Trindade, que por nascimento humano seria chamado «Filho de Deus», declarando Deus nesse momento: «Tu és Meu Filho, Eu hoje Te gerei» (Lucas 1:31; Salmos 2:7). Por isso Cristo, o Messias, foi anunciado no Éden, prefigurado nos sacrifícios - que com os sábados anuais e o sacerdócio levítico terminaram na cruz (Colossenses 2:14-17) - e veio precisamente nascer de uma mulher virgem da casa de David, a fim de tomar sobre Si a realeza de Judá e a descendência de Adão, e na nossa natureza viver como homem «embora sem pecado» para ser sacrificado como pecador, ainda que sem culpa, no tempo marcado pela profecia (Gálatas 4:4,5; 2 Coríntios 5:20,21).
E assim se consumou o grande mistério da piedade, o infinito amor de Deus «que Se manifestou em carne» (1 Timóteo 3:16), podendo Cristo dizer por essa razão: «Eu sou o Caminho, e a Verdade, e a Vida. Ninguém vem ao Pai, senão por Mim» (João 14:6). «Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigénito, para que todo aquele que n'Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna» (João 3:16).
       Quer isto, pois, dizer que nenhum homem pode ter aceitação diante de Deus, como pecador que é, e encontrar a salvação, senão depois de ter aceitado a Cristo como seu Salvador e Advogado que perante o Pai intercede pelo homem (Hebreus 7:25), para perdão de todos os seus pecados mediante sincero arrependimento, e se ter submetido voluntariamente à vontade de Deus, para com o Seu poder praticar a justiça da Sua Lei (Efésios 2:8-10; Romanos 3:31; 8:1; Hebreus 5:9; 1 João 2:1-6).
       Cristo morreu, ressuscitou e foi para o Pai, segundo o testemunho dos apóstolos, e voltará no último dia a fim de completar a Sua obra redentora, dando cumprimento às restantes profecias, conforme as línguas originais (grego e hebraico):
       1. Cristo virá a Segunda vez para levar Consigo a todos os remidos para o Céu, depois de ter ressuscitado os que estão mortos, na «1ª ressurreição» (Apocalipse 20:6) - porque entre a morte e a ressurreição não há existência (1 Coríntios 15:21-23) - e imortalizar os que estiverem vivos, reunidos então todos nos ares junto de Si pelos anjos: João 14:1-3; 1 Tessalonicenses 4:13-18; 1 Coríntios 15:51-53; Mateus 24:31.
       2. Todos os perdidos encontrados vivos sobre a Terra serão mortos, ao mesmo tempo que todas as suas obras serão destruídas por pesada saraiva e terramoto universal: 2 Tessalonicenses 1:6-10; Mateus 24:37-39; Apocalipse 16:18-20.
       3. Durante mil anos, a seguir à volta de Cristo, a Terra destruída ficará como um imenso cemitério - abismo - coberta de cadáveres, sem luz e só habitada pelo diabo e seus anjos, ao passo que Cristo e os salvos estarão no Céu, na Nova Jerusalém, onde procederão ao julgamento dos perdidos, incluindo os próprios demónios, pelas coisas que se encontrarem escritas nos registos celestes: Jeremias 25:33; Sofonias 1:2,3; Apocalipse 20:1-4;12; 1 Coríntios 6:2,3.
       4. Passados os mil anos, Cristo volta de novo à Terra - ou seja, a Sua terceira vinda - e desta vez acompanhado de todos os remidos, descendo também sobre a Terra, a Nova Jerusalém, edificada no Éden que foi tirado da Terra antes do dilúvio e que será - essa gloriosa cidade - a futura capital do novo mundo: Apocalipse 21:2; Hebreus 13:14; Gálatas 4:26; Filipenses 3:20,21.
       5. Todos os perdidos de todos os tempos, conservados mortos até ao fim do Milénio, serão então ressuscitados na chamada «segunda ressurreição», a dos ímpios, conforme lemos: «mas os outros mortos não reviveram até que os mil anos se acabaram» (Apocalipse 20:4,5; João 5:28,29), para que com o diabo e seus anjos sejam sentenciados, queimados e destruídos para sempre: Apocalipse 20:5-9; 2 Pedro 2:6,9; 3:7; Malaquias 4:1,3; Salmos 59:13 (58:13 V.C.); João 3:16, 36.
       6. Finalmente a Terra será restaurada no seu estado edénico, limpa de todo o pecado e feita a eterna pátria dos salvos, o reino eterno do segundo Adão, Cristo, reino onde «não haverá mais morte, nem clamor, nem dor, porque já as primeiras coisas são passadas.» Isaías 65:17; 2 Pedro 3:13; 1 Coríntios 15:44,45; Lucas 20:35,36; Apocalipse 21:4.

       É deste modo que encontrará completo cumprimento o sonho dado por Deus a Nabucodonozor. Como vimos a grande estátua foi reduzida a pó e desapareceu. Da mesma maneira, no Juízo final, após o Milénio, toda a humanidade pecadora, então ressuscitada e reunida pela primeira e última vez, reconhecerá que Deus é justo e justo o castigo aplicado a cada um segundo as suas obras, sendo de seguida reduzida a cinzas em que desaparecerá para todo o sempre na segunda morte. Apocalipse 20:6; Salmos 37 (36 V.C.):10,20. Quanto à pedra que «se fez um grande monte e encheu toda a Terra» será o reino de Cristo estabelecido neste mundo renovado, para sempre.
       Nas línguas originais da Bíblia encontra-se a distinção entre inferno e geénna, e entre alma e espírito. O inferno não é o suplício eterno, mas sim a sepultura ou o pó para onde todos ao morrerem vão sem distinção; ao passo que geénna será o fogo do Juízo final que envolverá toda a Terra, mas só depois de todos os ímpios terem sido ressuscitados e julgados, para os queimar e destruir para sempre; purificando igualmente a Terra para morada eterna dos salvos. 2 Pedro 3:7-13. A alma é a entidade integralmente identificada com o seu organismo e que vive sob a acção do sopro de vida, ou corrente de vida que é o espírito. Na morte a inconsciência é absoluta à semelhança do que se passa com aquele que entra em estado de coma, ou adormece profundamente, sendo o acordar também semelhante ao da ressurreição, como declara o Salmista: «satisfazer-me-ei da Tua semelhança quando acordar» (Salmos 17:15). A ressurreição no original significa acordar, voltar à vida, reviver. Ora os que morrem não voltam à vida quando morrem, mas só quando na realidade forem ressuscitados. Portanto é um facto à luz da Bíblia e da razão que entre a morte e a ressurreição não pode haver existência. (Pedir o folheto A Imortalidade à Luz do Texto Sagrado).

       Quer o prezado leitor também ter a Vida Eterna - ou seja, a existência eterna - e a sua parte na Nova Terra que lhe oferece o Evangelho? O único meio de o conseguir, segundo as Escrituras, é aceitar a Cristo como seu Salvador, e obedecer voluntariamente, e por amor, à Palavra de Deus.
       Igualmente nesta ordem de profecias sentimos não podermos no espaço deste folheto apresentar muitas outras interessantes predições que confirmam de maneira absoluta e irrefutável a inspiração divina da Bíblia, facto que a impõe ao respeito geral, e até reconhecimento por muitos homens de saber.
Vejamos alguns dos seus testemunhos:

OS TESTEMUNHOS DE HOMENS CÉLEBRES
       «O cristão pode tomar toda a Bíblia nas suas mãos e dizer sem receio ou hesitação que tem nela a verdadeira Palavra de Deus, transmitida sem perda essencial de geração em geração, através dos séculos.» - Our Bible and the Ancient Manuscripts (Harpers, 1941), p. 23. Frederic Kenyon, ex-diretor do Museu Britânico, e uma autoridade sobre manuscritos bíblicos.
       «A Bíblia é a revelação mais pura que de Deus existe.» - Emílio Castelar
       «A Bíblia é a glória imortal da humanidade.» - Dr. António José de Almeida
       «A Bíblia não nos foi dada para nós sabermos como é o Céu, mas como ir para o Céu.» - Galileu
       «Não há filosofia mais sublime do que aquela que se designa pelo nome de Escrituras Sagradas.» - Isaac Newton
       «As descobertas humanas parece terem por missão o confirmarem cada vez mais solidamente as verdades contidas na Escritura Sagrada.» - Frederico G. Herschel
       «Quantos maiores forem os progressos da civilização com mais evidência verão os que são sábios que a Bíblia é o verdadeiro fundamento da sabedoria e a Mestre Universal da humanidade.» - Goethe
       «Existe um livro que, desde o princípio até ao fim, parece uma emanação superior; um livro que contém toda a sabedoria humana abrilhantada por toda a sabedoria divina que a veneração dos povos chama: A Bíblia.» Vítor Hugo
       «Nada se tem descoberto que invalide a verdade nas Escrituras, do Génesis ao Apocalipse; e digo isto sem receio de contradição, tendo seguido as discussões que, durante os últimos cem anos, têm prevalecido na Inglaterra e na Alemanha. Pelas escavações feitas na Palestina foram trazidas à luz evidências que confirmam as Escrituras e nem uma única descoberta contradiz as narrativas da Sagrada Palavra.» - Dr. Wace
       «Do Evangelho deriva a liberdade, como condição impreterível do homem responsável por seus actos perante Deus.» «Para o povo ser livre, é necessário que seja religioso e honesto; não que seja crédulo. Para que ele seja religioso e honesto é necessário que conheça as doutrinas do Evangelho.» - Alexandre Herculano
       «Não há nação, por grande que seja, que possa sobreviver às suas próprias tentações e loucuras, se não cuida em doutrinar os seus filhos na Palavra de Deus. A justiça das nações, como a justiça dos indivíduos, há-de ter a sua origem nessa fonte de inspiração. Tenho pena dos homens que não leem a Bíblia todos os dias.» Woodrow Wilson

A NOVA REFORMA DO CALENDÁRIO

       Nos concílios de Laodicea (364), de Calcedónia (451), e de Orleans (538), o clero romano decretou a substituição da santidade do Sábado bíblico pela do Domingo, sob pena de excomunhão. Mas parece que a sua obra, nesse sentido, ainda não estava terminada, segundo confessam.
       Num longo artigo do padre Lawrence J. Kenny, venerável deão dos historiadores de S. Luís (E. U.), na revista semanal America dos jesuítas, de 30 de Outubro de 1948, lia-se o seguinte:
       «Quando, em 1582, Gregório XIII e o seu agregado de sábios nos deram o calendário que o mundo civilizado hoje segue, eles bem sabiam também que não ousavam pedir mais das nações do seu tempo...»

       E assim surgiu o projecto do novo calendário com «dias brancos», ou dias fora do ciclo semanal, publicado em 1834 pelo abade Marco Mastrofini com a aprovação de Gregório XVI.
       Em 1898, o clero publicou na revista Ephemerides Liturgiae uma série de artigos sobre a dita reforma, os quais suscitaram um forte movimento em seu favor nos Balcãs.
       Em 1907, os superiores de todas as congregações beneditinas reunidos em Roma votaram unanimemente em favor da projectada reforma; ventilando-se desde então entre as nações os seus pretendidos benefícios.
       O congresso internacional das Câmaras do Comércio de 1921 e o da União Astronómica de 1922 insistiram junto da Sociedade das Nações para que, com a sua autoridade, se realizassem os trabalhos necessários à reforma desejada. Porém, o papa Pio X declinou tomar a iniciativa, dizendo dever primeiro ser aceita pelas autoridades civis, e declarando, no entanto, que a Igreja não se opunha à sua adopção.
       Em 1923, a Soc. das Nações nomeou o seu comité especial de inquérito e convidou as várias nações a fazerem o mesmo. A comissão dos Estados Unidos, dirigida por George Eastman, multimilionário, publicou o seu relatório em 1929, segundo o qual só havia a oposição dos Judeus, Baptistas do Sétimo Dia e Adventistas do Sétimo Dia.
       Em 1931, George Eastman introduziu o projecto na Conferência da Sociedade das Nações, em Genebra, onde 141 delegados de 43 nações se manifestaram a favor. Mas a oportuna intervenção do Dr. J. Nussbaum, representante da Igreja Adventista do Sétimo Dia, convenceu a Assembleia a adiar a sua votação.
       Em 1937, novamente a Soc. das Nações foi impedida de o fazer pela guerra da Abissínia.
       Em 1947, as Nações Unidas fizeram nova tentativa, mas novamente foram levadas a desistir pela persistente intervenção dos Adventistas.
       Em suma, vemos envolvidos na Reforma do Calendário, além das entidades civis, papas, cardeais, alto clero e outras autoridades da Igreja, tendo a própria Santa Sé prometido levar o assunto ao próximo Concílio Ecuménico. E agora a Igreja já se não encontra só para levar a efeito o seu plano de há muito invalidar a Memória da Criação, o Santo Sábado de Deus, como já o dizia J. Vincent na revista católica Notre Damean, no seu número de Janeiro de 1947:
       «Mas num mundo que tem aprendido a olhar para a América, para o poder militar e progresso material, uma tal mudança serviria, sem dúvida, como um incentivo para acção similar noutros países. Depois de séculos de argumentação e agitação, a necessária reforma parece, finalmente, aproximar-se da sua actuação. Aparentemente é aos Estados Unidos que caberá a honra de dar o passo decisivo.»
       Ora, o que se pretende com a nova Reforma do Calendário?
       Fazer que todos os anos comecem ao Domingo e terminem ao Sábado, introduzindo para o efeito, visto os 365 dias do ano não serem divisíveis por sete, os dias que se chamarão «dias brancos» ou «dias mundiais», feriados fora do ciclo semanal, um no fim de Dezembro e o outro no fim de Junho em anos bissextos. Entre os vários projectos apresentados o que teve mais aceitação é o que divide o ano em quatro trimestres iguais de 91 dias, ficando respectivamente os meses que principiam os trimestres, de Janeiro, Abril, Julho e Outubro com 31 dias e os restantes com 30 dias.
       Como todos podem facilmente compreender, desde que o novo Calendário seja por todas as nações aceite e posto em vigor, as semanas deixarão de ser marcadas pelo Sábado que vem ininterruptamente desde a Criação, por determinação divina, para serem daí em diante perpetuamente marcadas pelo Domingo do novo Calendário, por determinação humana. E deste modo o Sábado actual continuará a ser guardado, mas em dias diferentes da semana do novo Calendário, pelos que na Terra temem a Deus e guardam os Seus mandamentos (Eclesiastes 12:13), o que certamente não será tolerado e levará as nações a cometerem grandes injustiças e até violências para com eles.
       Portanto, quer queiram quer não, o Santo Sábado de Deus, a eterna Memória da Criação, não desaparecerá, e, então, será dito o que lemos na profecia: «Já é tempo de operares, ó Senhor, pois eles invalidaram a Tua Lei» (Salmos 119:126). «Aqui está a paciência dos santos, aqui estão os que guardam os mandamentos de Deus e a fé de Jesus» (Apocalipse 14:12).
       Contudo o Sábado continuará a ser santificado na Terra renovada, a Nova Terra: «Porque, como os Céus novos (céus atmosféricos), e a Terra Nova, que hei de fazer, estarão diante da Minha face, diz o Senhor, assim há de estar a vossa posteridade e o vosso nome. E será que de mês em mês, e de Sábado em Sábado, virá toda a carne (a humanidade salva) a adorar perante Mim, diz o Senhor.» Isaías 66:22,23.
       E, respondendo Jesus, disse-lhes: os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento; mas os que forem havidos por dignos de alcançar o mundo vindouro, e a ressurreição dos mortos, nem hão de casar, nem ser dados em casamento; porque já não podem mais morrer; pois são iguais aos anjos, e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição.» Lucas 20:34-36. «E verão o Seu rosto» (Apocalipse 22:4).
       Ora, não será o Domingo da nova reforma «o sinal da besta» de que fala o Apocalipse (13:15-17), que será imposto a todos sob duras sanções e pena de morte, em contraposição com o «sinal ou selo de Deus» que é o Sábado? (Ezequiel 20:20; Apocalipse 7:1-3)?
       Não será a nova semana que substituirá a actual da Criação o maior dos sinais dos tempos, ou seja a «mudança dos tempos e da Lei» como disse Daniel (7:25)?
       E, finalmente, não será este o acto culminante da grande apostasia que se exaltará «acima de tudo que se chama Deus ou se adora» conforme o Apóstolo Paulo disse que sucederá antes da volta de Cristo (2 Tessalonicenses 2:3,4)?

CONCLUSÃO

       A Bíblia, composta de 66 livros - omitidos os apócrifos canonizados por Roma em 1546 - escrita entre os anos 1500 a.C. e 100 d.C., em linguagem humana, não deixa por isso de ser a Palavra de Deus. E assim como um músico pode executar as suas composições em vários instrumentos, notando-se a diferença dos timbres, assim Deus revelou as Suas verdades por intermédio de instrumentos humanos, que foram os profetas e os apóstolos, submetendo-os à Sua inspiração e direcção, não obstante se notarem os seus estilos particulares e graus de conhecimento. Tal como Cristo reuniu em Si as naturezas humana e divina - Filho do homem na fragilidade da nossa carne, mas Filho de Deus quando ressuscitava os mortos e repreendia os ventos e Lhe obedeciam - assim é a Bíblia na sua linguagem humana e na sua maravilhosa harmonia e autoridade divinas. A Bíblia é incontestavelmente a Palavra de Deus, e por isso todos os homens lhe devem obediência sob pena de incorrerem na condenação do pecado.
       Mas, infelizmente, a Bíblia tem sido posta de lado. Os cristãos de hoje, de um modo geral nominais, estão seguindo os mesmos erros da nação e clero judaico de outrora, invalidando também os mandamentos de Deus por mandamentos de homens, e substituindo a simplicidade primitiva do culto cristão, e suas sublimes doutrinas, por complicados formalismos, ostentações, lendas, amuletos, rosários, tradições e doutrinas, provenientes do paganismo babilónico-greco-romano, ainda com a agravante de se atribuir o longo curso de inovações e apostasia à direcção do Espírito Santo. Assim, como exemplo e como já vimos, é imposta a observância do Domingo papal e de outros dias chamados santos, em detrimento do verdadeiro Dia Santo do Senhor, o Sábado, vindo ininterruptamente desde a Criação de que é a Memória; apesar de confessarem que Cristo e os apóstolos o guardaram fielmente, e não obstante Deus no Seu divino mandamento, de que se não pode omitir um til, continuar a ordenar-nos de o santificarmos, dizendo:
       «Lembra-te do dia de Sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra. Mas o Sétimo Dia é o Sábado do Senhor teu Deus: não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor os céus e a Terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o Senhor o dia do Sábado, e o santificou.» Êxodo 20:8-11.

       Do mesmo modo aceita-se o dogma da doutrina errónea da imortalidade inalienável da alma em vez da doutrina bíblica da imortalidade condicional em Cristo. E por isso se invocam os mortos que «não sabem coisa nenhuma» e lhes prestam culto pelas suas pretendidas imagens, precisamente como se fazia no paganismo.
       Ora, o prezado leitor queira agora ler e meditar na solene advertência que aos tais é dirigida pela Palavra de Deus:

       «Bem-aventurados os que ouvem a Palavra de Deus e a guardam.» Lucas 11:28.
       «Confundir-se-ão de vergonha os que confiam em imagens de escultura... Nada sabem os que conduzem em procissão as suas imagens de escultura, feitas de madeira, e rogam a um deus que não pode salvar.» Isaías 42:17; 45:20.
       «Porque os vivos sabem que hão-de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma.» «Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais: a mesma coisa lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego (espírito); e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade. Todos vão para um lugar: todos são pó, e todos ao pó voltarão.» Eclesiastes 9:5; 3:19,20.
       «Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a Vida eterna por Cristo Jesus nosso Senhor.» Romanos 6:23.
       «Não vos maravilheis disto; porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a Sua voz (a de Cristo). E os que fizeram o bem sairão para a ressurreição da vida; e os que fizeram o mal para a ressurreição da condenação (juízo)» João 5:28,29.
       «E o testemunho é este: que Deus nos deu a vida eterna; e esta vida está em Seu Filho. Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida.» I João 5:11,12.
       «Ele é a pedra... e em nenhum outro há salvação.» «Porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo.» Actos 4:11; 1 Coríntios 3:11.
       «E a ninguém na Terra chameis vosso Pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos Céus.» Mateus 23:9.
       «Assim que já não sois estrangeiros, nem forasteiros, mas concidadãos dos santos, e da família de Deus; edificados sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, de que Jesus Cristo é a principal pedra de esquina.» Efésios 2:19,20.
       «Mas ao ímpio diz Deus: Que tens tu que recitar os Meus estatutos, e tomar o Meu concerto na tua boca? Visto que aborreces a correção e lanças fora as Minhas palavras para detrás de ti?» Salmo 50(49):16,17.
       «Mas em vão Me veneram ensinando doutrinas que são preceitos dos homens.» «Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição.» Mateus 15:19; Marcos 7:9.
       «Nem todo o que Me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de Meu Pai, que está nos Céus. Muitos Me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizámos nós em Teu nome? E em Teu nome não expulsámos demónios? E em Teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de Mim, vós que praticais a iniquidade.» Mateus 7:21,22.
       «E nisto sabemos que O conhecemos; se guardarmos os Seus mandamentos. Aquele que diz: Eu conheço-O, e não guarda os Seus mandamentos, é mentiroso, e nele não está a verdade.» I João 2:3,4.
       «Portanto Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam na mentira; para que sejam condenados todos os que não creram na verdade, antes tiveram prazer na iniquidade... porquanto não receberam o amor da verdade para se salvarem.» 2 Tessalonicenses 2:10-12.

       Consequentemente a verdadeira religião cristã não consiste em meras pretensões e vãs subtilezas, usando traduções e interpretações erróneas para sustentar o erro, mas no amor e obediência à verdade divina. Não num culto a um deus imaginário, feito e adaptado para servir qualquer credo humano ou interesses nacionais, mas, sim, ao único Deus Criador, Universal, Invisível, Vivo e Eterno que nos fala pela Sua Palavra - A Bíblia. Nem tão-pouco, no culto a uma multidão de medianeiras e mediadores criados por decisão de homens, porque no Céu, segundo declaram as Escrituras, - note bem o leitor - há «um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem» (1 Timóteo 2:5). Nem ainda aceitando pretendidas mensagens dos mortos, embora se ignorando que são os demónios que em seu nome aparecem e fazem prodígios para nos enganarem (Mateus 24:23,24). Por isso, o cristão bem fundado, ou divinamente esclarecido é o que, arrependido sinceramente, encontra em Cristo o perdão de todos os seus pecados e o poder para viver na Terra uma nova vida de harmonia com a vontade de Deus.
       «O qual Se deu a Si mesmo por nós - pelo Seu sacrifício - para nos remir de toda a iniquidade e purificar para Si um povo Seu especial, zeloso de boas obras.» (Tito 2:14). «Se confessarmos - pois - os nossos pecados, Ele é fiel e justo, para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça». (I João 1:9).
       Dirá este folheto a verdade?
       O prezado leitor dirá. Mas podereis ainda sinceramente negar a evidência da inspiração divina da Bíblia, ou afirmar estar a vossa religião de facto fundada na Palavra de Deus? Que o leitor investigue, pois, tão importante assunto, porque dele pode depender o seu destino eterno, e, antes que a morte o surpreenda e seja demasiado tarde para o fazer, possa com convicção aceitar e obedecer à verdade divina tal qual Deus lhe oferece na Sua Santa Palavra: - A Bíblia.

Nota do Autor
Os textos bíblicos empregados neste folheto, com algumas variantes, são segundo a Versão Portuguesa de João Ferreira de Almeida, tradução directa das línguas originais, revista e publicada pela Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira.

Pastor Alberto F. Raposo, Presidente Interino da Igreja Adventista do Sétimo Dia em Portugal, entre 1928-1930. Folheto editado pela Publicadora Atlântico, que antecedeu a Publicadora SerVir, Lisboa.

          

«De tudo o que se tem ouvido o fim é: Teme a Deus, e guarda os Seus Mandamentos; porque este é o dever de todo o homem». Eclesiastes 12:13

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segunda-feira, 26 de março de 2018



DESCUBRA  A  VERDADEIRA  PÁSCOA


COMO  ESPERA  DEUS  QUE  O  SEU  POVO  CELEBRE  A  PÁSCOA  ?

"No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo." João 1:29

       A Páscoa chega na primavera, despoletando na nossa sociedade sentimentos opostos e paradoxais: A euforia do comércio, abastecido com todo o tipo de ovos e coelhos de chocolate, relaciona-se antiteticamente com uma tristeza sombria que a lembrança do sofrimento de Cristo impõe a alguns; a abstinência da sexta-feira da Paixão opõe-se aos festejos do domingo de Páscoa; a degradante queima do Judas contrasta com o sentimento de fraternidade que envolve as pessoas nesta época do ano.

Estas antíteses são ainda maiores quando pensamos nos símbolos que integram o universo pascal na Cristandade de hoje: o ovo e o coelho (muito enfatizados) opõem-se à cruz e ao cordeiro (minimamente recordados). Ao pensarmos nestes paradoxos pascais, surgem algumas perguntas:
- Afinal o que é a Páscoa?
- Qual é a origem da atual ênfase em símbolos como o do coelho ou o do ovo?
- Porque foi instituída a Verdadeira Páscoa, e qual é o significado dela para hoje e para o futuro?


A PÁSCOA PAGÃ

       A configuração da Páscoa que predomina atualmente na Cristandade desvia-se muito do que a Bíblia prescreveu sobre esta festividade. A Páscoa bíblica foi instituída para celebrar a libertação do povo israelita do cativeiro egípcio. Ela teve o seu início a partir da morte dos primogénitos residentes no Egito, em cuja casa não houvesse, nos umbrais da porta, o sangue do cordeiro pascal. O foco central desta festa está na morte do cordeiro, de quem vem o sangue que livra da morte e, portanto, que liberta da escravidão. Assim, a tipologia permite-nos ver na morte de Jesus (e não na Sua ressurreição) o cerne da Páscoa bíblica (I Coríntios 5:7).
       Quando Deus estabeleceu esta festa, Ele quis deixar claro o ensino de que a libertação dos Israelitas do cativeiro egípcio representa a libertação maior de todo aquele que crê no sacrifício substitutivo de Cristo. Por causa do pecado, todos os seres humanos estão condenados à destruição, mas em virtude do sangue que Jesus, o Cordeiro de Deus, derramou no Calvário, serão salvos todos os que aceitarem para si este sacrifício.
       Não é insignificante o facto de o foco da Páscoa ter sido deslocado para a ressurreição de Cristo. É verdade que o facto de Jesus ter ressuscitado, consolida a Sua vitória sobre o pecado. Mas a Bíblia tem outros símbolos para a ressurreição, como o Batismo por imersão, por exemplo (Romanos 6:4; Colossenses 2:12), e nunca relaciona o sentido da Páscoa com a ressurreição do Senhor. Na verdade, esta troca é um erro subtil e grave que foi introduzido no Cristianismo com o propósito de acomodar a religião de Cristo ao paganismo.

       Muitas culturas antigas celebravam uma espécie de Páscoa, que estava sempre relacionada com ofertas aos deuses pagãos, de modo a tornar a terra fértil para o cultivo agrícola. Por exemplo, o termo "Páscoa" em inglês é Easter e em alemão é Ostern. Ambos os termos derivam da expressão anglo-saxónica Eostre, que era o nome de uma deusa nórdica da primavera. Eostre (equivalente a Astaroth, deusa cananeia, e a Ceres, deusa romana) era a divindade anglo-saxónica e teutónica supostamente responsável pelo ressurgimento da vida vegetal na primavera, após os rigores do inverno. O apogeu das festividades em honra desta deusa ocorria em março, no início da primavera, período em que muitas culturas antigas celebram a festa dos deuses da fertilidade primaveril. De acordo com os mitos nórdicos, o coelho, por ser considerado muito fértil, era o animal preferido de Eostre. Os ovos eram os principais objetos usados para adorar a deusa, por serem vistos como símbolo da vida, do nascimento e da ressurreição. Para adorar Eostre e para propiciar as suas bênçãos também eram oferecidos sacrifícios vegetais, animais e humanos.1 Posteriormente, em louvor a Eostre, foi instituído o sabbat pagão, no primeiro dia da primavera, para se celebrar o renascimento da Natureza, chamado Ostara. O Cristianismo apóstata reinterpretou este dia, transferindo o seu significado para o domingo de Páscoa.
       Ao contrário da Páscoa bíblica, a Páscoa "cristã", como se celebra hoje em dia, não tem um dia fixo no calendário. Ela pode ocorrer entre os dias 22 de março e 25 de abril, pois, de acordo com a tradição, deve ser comemorada no primeiro domingo após a Lua cheia do início da primavera. Esta calendarização foi estabelecida no Concílio de Niceia, no ano 325, por forte influência do imperador romano Constantino, que pretendia assim diferenciar os Cristãos dos Judeus. No fundo, o objetivo do imperador era associar cada vez mais o Cristianismo ao paganismo, como no caso da transferência do dia de guarda semanal. Entretanto, a Cristandade só passou a comemorar unanimemente a Páscoa, segundo a resolução de Niceia, depois do decreto do papa Gregório XIII, em 1582. 2
       O que dissemos até aqui permite perceber a áurea pagã que permeia a Páscoa "cristã" na atualidade. A Cristandade reinterpretou a Páscoa, inserindo símbolos pagãos, alterando a sua data e deslocando o significado vicário que estava na base do propósito de Deus ao estabelecer essa festa. Este propósito era o de representar didaticamente o sacrifício substitutivo de Cristo, simbolizado no cordeiro que morreria com o propósito de que o seu sangue assinalasse a salvação do crente que se apega com fé à dádiva gratuita de Deus.


A PÁSCOA BÍBLICA


       A Páscoa bíblica foi estabelecida como marco para se comemorar a libertação do cativeiro egípcio. A prescrição divina estabeleceu que, na noite em que Deus desferiria o derradeiro golpe sobre o Egito, matando os primogénitos, quem estivesse ao abrigo do sangue do cordeiro colocado nos umbrais da porta seria poupado, pois o anjo destruidor passaria por aquela casa sem causar destruição. Naquela noite, todas as casas que não tinham o sangue nos umbrais da porta receberam a terrível visita do anjo destruidor. Mas as casas dos Hebreus foram poupadas, pois nelas havia o sinal de que o anjo deveria passá-las por alto. Assim, é do verbo hebreu que significa "passar sobre" que deriva a origem etimológica do termo Páscoa (em hebreu, Pessach).
       A Páscoa é uma bela representação da Salvação. Como escreve Ángel Manuel Rodríguez: "Enquanto no Egito todos os primogénitos morreram, entre os Hebreus uma vítima sacrificial morreu."3 Isto ensina-nos que a Salvação se encontra nos méritos substitutivos do sangue do Cordeiro. A Páscoa estava associada à décima praga e foi a causa que levou o Faraó a permitir a saída do povo de Israel do Egito. Nesse sentido, a Páscoa simboliza a nossa libertação do cativeiro do pecado.
       É interessante observar que esta festa foi instituída para representar a salvação de todo o povo de Israel, que sairia do Egito em consequência dos acontecimentos decorrentes daquela noite de visitação divina. Mas isso só seria possível, se o processo fosse realizado particularmente, no âmbito das famílias. Ou seja, para que todos fossem salvos e para que cada primogénito fosse poupado, cada família do povo deveria sacrificar um cordeiro. Não se tratava de um sacrifício generalizado, mas sim, de um sacrifício personalizado, familiar. Cada família deveria sentir a necessidade de buscar o Senhor: "Falai a toda a congregação de Israel, dizendo: Aos dez deste mês, cada um tomará para si um cordeiro, segundo a casa dos pais, um cordeiro para cada família" (Êxodo 12:3; itálico acrescentado).

       A Páscoa bíblica ensina que, embora a Salvação de Deus pretenda alcançar todos, ela deve ser vivida individualmente, e a família é o núcleo central a partir do qual o Senhor deseja projetar a Sua bênção sobre toda a Humanidade. Aquele cordeiro morto era um tipo de Jesus, "o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" (João 1:29). Entretanto, apenas aqueles que n'Ele crerem terão a vida eterna (João 3:16), a exemplo dos Hebreus, que só foram libertados do Egito porque creram na Palavra de Deus, sacrificaram o cordeiro e marcaram as suas portas.
       Sempre foi desejo de Deus que cada família fosse um centro de Salvação. Somente a partir de um reavivamento genuíno das famílias do povo de Deus, é que as pessoas, individualmente, poderão ser efetivamente tocadas, alcançadas. Por isso, torna-se evidente o motivo de Satanás trabalhar ardilosamente para destruir as famílias na atualidade. A vontade de Deus é proteger os lares da destruição causada pelo pecado que predomina no mundo de hoje. Cada pai, mãe, filho ou filha podem vencer, se tiverem, no coração, a marca do sangue de Jesus.


       Seguindo o rito realizado no dia da libertação do cativeiro, todos os Israelitas, ao festejarem a Páscoa, deveriam separar um cordeiro no décimo dia do primeiro mês do ano judaico (Nisã) e sacrificá-lo no décimo quarto dia à tarde (Êxodo 12:1-6). Os Evangelhos demonstram que Jesus cumpriu cabalmente todas as especificações tipológicas da Páscoa e, por isso, pôs fim à necessidade de a comemorarmos. Em memória do Seu sacrifício o Senhor estabeleceu a Santa Ceia que deve ser celebrada até que Ele volte (I Coríntios 11:26). "Ao comer a Páscoa com os Seus discípulos, instituiu em seu lugar o serviço que havia de comemorar o Seu grande sacrifício. A festa nacional dos Judeus devia cessar para sempre. O serviço que Cristo estabeleceu devia ser observado pelos Seus seguidores em todas as terras ao longo de todos os séculos."4
       Para o Cristão, a Páscoa é Cristo. Sempre que alguém aceitar o sacrifício vicário do Salvador, encontrará o verdadeiro sentido da Páscoa. E a cerimónia que Jesus instituiu para celebrar isto foi a Santa Ceia. Embora seja muito solene, esta ocasião é também uma ocasião festiva, pois o seu propósito é reavivar na memória do Cristão a certeza da Salvação. Ninguém deve excluir-se, nem deve ser impedido de participar.5  A Santa Ceia é o símbolo do perdão e da reconciliação.
       Mesmo que a Páscoa tenha sido substituída pela Ceia do Senhor, e ainda que esteja corrompida pelas influências do paganismo, a sua comemoração na atualidade é uma importante oportunidade de evangelização, pois as pessoas são levadas a pensar em Jesus nessa data. Assim, a Igreja deve aproveitar para ensinar o verdadeiro sentido desta festa e o seu cumprimento pleno em Cristo. O olhar das pessoas deve ser orientado para a Páscoa definitiva, que ocorrerá na Segunda Vinda de Jesus, quando Deus libertar completamente os Seus filhos do cativeiro do pecado.


      

A PÁSCOA ESCATOLÓGICA

       O evangelista João serviu-se do verdadeiro ícone pascal, o cordeiro, para falar da Salvação eterna. O último livro da Bíblia, Apocalipse, esboça um cenário em que o mundo vive os seus dias finais. O povo de Deus é perseguido, as pragas caem sobre os ímpios e o mundo natural é destruído. O quadro é tão caótico que, em Apocalipse 6:17, surge a pergunta: "Quem poderá subsistir?" A impressão com que ficamos é a de que todos estão condenados e ninguém conseguirá escapar da destruição. No entanto, surge em cena um grupo especial, que passa incólume pelos terríveis eventos finais da história do mundo. Essas pessoas estarão seladas (Apocalipse 7:3), não receberão o sinal da besta (Apocalipse 13:16) e marcarão os "umbrais" do seu coração com a obediência ao Cordeiro (Apocalipse 7:14; 14:4).

       Tal como na Páscoa original, o sangue do Cordeiro é a grande causa da vitória deste povo, a despeito da feroz perseguição que sofrerá. Estas pessoas são vividamente descritas como "os que vêm da grande tribulação, lavaram as suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro" (Apocalipse 7:14; itálico acrescentado). O sangue de Jesus livrará estes fiéis da destruição, mantê-los-á firmes na tribulação e introduzi-los-á na Canaã celestial.


       A Páscoa original marcou a saída do povo de Israel do Egito e o início da sua trajetória de quarenta anos pelo deserto até à Canaã terrestre. A Páscoa antitípica - a morte de Jesus na cruz - marca o início da caminhada dos Cristãos para a Canaã celestial. Na Páscoa original, a orientação foi: "Desta maneira o comereis: lombos cingidos, sandálias nos pés e cajado na mão; comê-lo-eis à pressa; é a Páscoa do Senhor" (Êxodo 12:11). O mesmo vale para a Páscoa definitiva. Devemos sentir urgência em seguir para Canaã e nos apropriarmos, com avidez, da "carne" e do "sangue" do Cordeiro, que alimentam a nossa vida espiritual, dando-nos força para prosseguir na jornada.


A propósito, esta situação evoca a antiga e poética pergunta: "Ainda é longe Canaã?" Sinceramente, NÃO!

       Canaã está às portas!


Vinícius Mendes
Editor-associado da Casa Publicadora Brasileira. Folheto editado em Portugal pela Publicadora SerVir

1. Mirela Faur, Mistérios Nórdicos, São Paulo: Editora Pensamento, 2007, p.134.
2. J. Lopez Marin, A Celebração na Igreja: Ritos e Tempos da Celebração, São Paulo: Edições Loyola, 2000, p.42.
3. Ángel Manuel Rodríguez, Israelite Festivals and the Christian Church, 2005, p.2, disponível em adventistbiblicalresearch.org/sites/default/files/pdf/release%203.pdf.
4. Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, p.559, ed. P. SerVir.
5. Idem, p. 563.



- Pode ouvir músicas da Páscoa no último grupo dos links de Meditação para a Saúde e de Uma Palavra Amiga -

quinta-feira, 8 de março de 2018

*O que Seria do Mundo Sem as Queridas Mulheres?!!!...


CRÓNICA
António Lobo Antunes



PARAFUSOS E PORCAS

        Quando eu era miúdo, na periferia de Lisboa onde fui feito e onde cresci, um subúrbio pobre, havia um grupo de excursionistas chamado GRUPO EXCURCIONISTA OS PARAFUSOS, do qual faziam parte só homens, que passavam um domingo por mês num autocarro cheio de litros de tinto, partiam de manhã e regressavam ao fim da tarde, completamente grossos, a lutarem com a maré alta do passeio, a gritarem, a abraçarem-se, a rirem, a empurrarem-se, na panóplia completa dos bêbados, no meio de quedas, discussões, insultos e cantorias, dispersando-se aos tropeções, alguns de gatas, uns calmos, outros impetuosos, outros coléricos, alternando abraços com empurrões e juras de amizade eterna com tentativas de pancadaria, entre vómitos e tropeços. Conhecia-os mais ou menos a todos porque pertenciam ao mesmo bairro que eu, e a maior parte deles, nos intervalos das excursões, eram pacíficos e cordatos. Trabalhavam por ali, em oficinas e coisas assim, e depois do trabalho, antes do jantar, passavam pelo tasco da sede do Grupo para um copo fraterno, muitas vezes silencioso e soturno. Nas excursões não eram permitidas mulheres. Dos lados do autocarro havia dois lençóis estendidos, amarrados com cordas, anunciando
        GRUPO EXCURSIONISTA OS PARAFUSOS
        por baixo do
        GRUPO EXCURSIONISTA OS PARAFUSOS
        a frase, em letras gordas
        AS PORCAS FICARAM EM CASA
        e, de facto, não se via uma só porca nas redondezas, parafusos apenas, às palmadas nas costas uns dos outros, felizes pelos delirium tremens que se aproximavam, transportando a alegria em garrafões, ainda pausados e calmos. Meia dúzia de porcas, inquietas, vigiavam a partida de longe, na certeza de uma noite tempestuosa, escondendo santinhos e bonecos de barro nos quintaizecos das traseiras porque, dali a horas, viria um temporal de cacos, cuja violência era celebrada durante dias, com frases de felicidade no género
        - Grande domingo: apanhámos cá uma bebedeira...
        isto dito, claro, com orgulho e natural satisfação, mudando de conversa a fim de cumprimentarem, com solenidade, as senhoras que passavam, tirando o boné numa educação lenta, já de alma apontada ao próximo passeio.
O autocarro, quase podre, andava uns quilómetros, poucos, na direção de uma berma propícia, e gastavam o dia aos encontrões, a mamarem dos gargalos, enquanto as porcas escondiam bibelôs, retratos e mobília mais frágil. Partiam de gravata e casaco e regressavam de fralda da camisa de fora, com a gravata amarrotada no bolso, ao mesmo tempo joviais e comovidos, até as porcas os pastorearem para casa a tropeçarem nos próprios sapatos. À medida que os tempos iam mudando e os parafusos envelhecendo
        (começaram a aparecer bengalas, muletas, bocas tortas, um bracinho defunto, uma perna que se arrastava, as primeiras mortes
        - os fígados gastam-se, amigos)
        o GRUPO EXCURCIONISTA OS PARAFUSOS deu em diminuir e as porcas, mais resistentes, a ganharem força. A frase, em letras gordas
        AS PORCAS FICARAM EM CASA
        desapareceu dos lençóis, e as ditas porcas começaram a acompanhá-los nas excursões de domingo onde havia agora água mineral e almofadas para os rabos cansados dos parafusos que já não discutiam, não se abraçavam, não riam, acocorados em pedras à beira da estrada, enquanto as porcas conversavam umas com as outras e lhes davam ordens, transformando vinho em água-pé primeiro e confiscando-o finalmente, atentas às queixas
        - Mijei-me todo
        ou
        - Não consigo segurar as fezes
        equilibrando-os com dificuldade e uma página de jornal na mão, a puxá-los
        - Anda lá, anda lá
        para trás de uns arbustos, nos quais se distinguia uma cabeça vencida.
O autocarro acabou, sem pompa, num baldio do bairro, os domingos terminaram, e os parafusos principiaram a permanecer no bairro, em banquitos ao acaso, com boinas coçadas a cobrirem as calvícies, e as bocas desmobiladas a chuparem cigarrinhos meio apagados. Elas levavam-nos para casa equilibrando-lhes os sovacos
        - Mexe-te, emplastro
        e agarrando-os pelas calças que amoleciam. Quando me tornei adolescente já poucos sobravam, sem diálogos, sem interesses, sem júbilo algum, a engolirem os comprimidos que elas lhes estendiam numa obediência mansa. No caso de um deles perguntar
        - O Jorge?
        uma voz respondia
        - Morreu o ano passado
        e o queixo do que perguntava descaía um bocado, numa aceitação melancólica. As porcas, essas, iam aumentando de autoridade
        - Estás cada vez mais um farrapo
        e o GRUPO EXCURSIONISTA OS PARAFUSOS dissolveu-se, substituído, progressivamente, por idosas enérgicas, a quem eles se submetiam num cansaço desarticulado. Deviam trocar-se os letreiros por cartazes que anunciassem
        GRUPO EXCURCIONISTA AS PORCAS
        com outro por baixo
        OS PARAFUSOS ESTÃO QUASE TODOS NO CEMITÉRIO
        enquanto elas faziam crochet no murozito da estrada, a contarem histórias dos netos, que os parafusos sobreviventes nem escutavam. Talvez, quando muito
        - O Jorge morreu mesmo?
        seguido de um chichi desolado pelas tíbias abaixo, um lamento de mulher
        - O que eu aturo
        o que os dois ou três parafusos que resistiam já nem conseguiam ouvir. O tasco é agora uma butique que vende roupa feminina a pessoas para quem os parafusos não significam nada.

Texto EXCELENTE do Escritor e Médico Psiquiatra Dr António Lobo Antunes in Revista Visão, 2 de abril de 2015.
*O Título da postagem é meu, não resisti... Mas o que seria do Mundo sem os Maravilhosos Homens?!!! Mas SEM o álcool, por favor! Era o MELHOR presente para todos. Sou muito feliz por ter um marido que não fuma nem bebe bebidas alcoólicas! E ele é também muito feliz! Quanto a Saúde das PESSOAS, e o ESTADO, beneficiariam!!!... EE



sexta-feira, 2 de março de 2018


ARTIGO DE OPINIÃO
                 Artes

SER MÉDICO, SER ARTISTA

A Medicina tem-se revelado fonte inspiradora de várias artes: Literatura, Pintura, Escultura... Quantos médicos sentiram necessidade de se perder entre rasgos de imaginação depois de despirem a bata. O legado é extenso.
Por Professor Doutor Armando Moreno

       As relações entre os médicos e a sociedade situam-se nas mais variadas áreas das actividades humanas e podem ser ilustradas por meio de diversificados processos e realizações: clínica, investigação, caridade, arte, pedagogia, divulgação, política, filosofia, desporto, história. Todos estes meios têm sido utilizados pelos médicos enquanto profissionais ou, noutros casos, como actividades colaterais. O palco de clivagem entre cada uma destas formas, enquanto colaterais ou enquanto profissionais, nem sempre é bem definido pois não podemos imaginar a obra de Abel Salazar sem a sua formação médica, nem os escritos de João de Araújo Correia sem a sua prática clínica. Vale a pena relembrar todas estas actividades? Se vale, com que finalidade?
       Sempre tenho afirmado que não sou historiador mas "historiólogo": a História interessa-me, essencialmente, para tirar conclusões para a vida moderna. Nem sempre estas comparações são claras ou patentes. No último Congresso de Medicina da Ordem dos Médicos, realizado em Coimbra, sobressaiu uma tónica: a importância das novas tecnologias e os desvios que a Medicina iria sofrer em função dessas tecnologias. As abordagens assumiram tons de alarmismo, como se a Medicina estivesse prestes a sofrer um ataque de marcianos.
       Como os marcianos, essas tecnologias surgem, aos olhos de uns, os mais antigos, como monstros desconhecidos, para outros, os mais novos, como resultado de pesquisas científicas de resultados nunca antes vistos. Ora a História ensina que as novas tecnologias surgiram ao longo dos séculos, provavelmente de modo muito mais importante do que as que surgem nos nossos dias: o que pensariam os médicos de então quando Leeuwenhoek, depois de inventar o microscópio, lhes disse que na boca existem bichinhos que aí se reproduzem? Quando Lister iniciou a prática da vacinação, dizia-se que os vacinados mugiam como vacas e que nasciam cornos no local da vacinação. Embora estas novidades tivessem um impacto estrondoso, a Medicina seguiu naturalmente o seu caminho.
       É certo que o médico se encontra cada vez mais absorvido pelas actividades diárias, canalizado por um ensino cada vez mais tecnológico e menos humanista. Na maioria, os médicos nem se dão pela importância que as lições da História assumem na actividade clínica. Aos poucos, a preparação em áreas da Psicologia, da Sociologia, da relação afectiva são desmembradas e constituem cursos de especialidade, porque o médico deixou de ter tempo para essas actividades que eram, não há muito, a raiz da sua relação com os doentes.
       Felizmente, muitos cavaleiros andantes reservam-se o direito de manter essas actividades na vida clínica. Vivemos, realmente, um período fulcral e decisivo da reorganização hospitalar a merecer uma profunda meditação, a substituir o deixa correr que tem presidido ao desenrolar dos acontecimentos. Como Director de uma Escola Superior de Saúde em que estas profissões são ensinadas, preocupo-me especialmente com esta nova ocorrência e a comparação com as lições da História tem sido de elevada ajuda na clarificação destes aspectos. Por isso me interesso por conhecer as actividades que os médicos desenvolvem ao longo dos séculos, no primado da Filosofia, da Política, do Desporto, das Artes.

A Liberalização das Profissões

       Uma das grandes mudanças no hábito hospitalar reside na emergência de novos cursos, de profissões mais ou menos antigas elevadas agora à categoria de bacharelatos e de licenciaturas. É uma realidade imparável de que muitos médicos não têm ainda consciência. Mas a História tem uma importante palavra a dizer.
       Embora hoje se possa entender que o exercício da cirurgia é constituído em 75% pelo diagnóstico e adequação da terapêutica e só 25% pertencem à técnica cirúrgica, nem sempre assim foi. Durante séculos, a cirurgia era praticada por barbeiros, que acumulavam com as profissões de dentista e de sangrador. O diagnóstico e a terapêutica a seguir estavam entregues aos médicos. Assim em Portugal, como em toda a Europa. O cirurgião era, por natureza, um técnico, um indivíduo desprezado porque a sua profissão era executada com as mãos (do grego cheirus - mão) e, como é sabido, os nobres não gostavam do trabalho braçal (neste caso manual). Daí que os profissionais de Medicina, entendidos como os nobres da Saúde, porque formados pela universidade, não se rebaixassem a fazer Cirurgia. Acresce que, durante séculos, o médico usava trajes de rendas e brocados que seriam conspurcados no acto cirúrgico.
       Aos poucos, a cirurgia foi tomando volume, experimentando técnicas, saiu da sua condição de secundária e o cirurgião passou a ser considerado par do médico. Foi a emancipação, o desapego à subalternidade, a especialização que lhe deram o desenvolvimento para ascender à categoria semelhante à do médico. E não foram os médicos que abriram as portas, mas os cirurgiões que as forçaram.
       Transportemos este raciocínio para as actuais novas profissões ditas tecnológicas, como é o caso do enfermeiro, do técnico de radiologia, de cardiopneumologia. Em primeiro lugar, é um erro considerá-las na área exclusiva das tecnologias. Se a Medicina é uma das ciências mais ligadas ao humanismo, não se veem em que a Enfermagem o seja menos. Em segundo lugar, desejam os médicos que na sua equipa de trabalho os enfermeiros sejam competentes. Em terceiro lugar, vai ser a capacidade se seguir um estudo próprio, a especialização liberta de preconceitos, a sua formação científica, que vai permitir à Enfermagem atingir o grau de excelência que lhe foi negada durante séculos, utilizando os seus serviços apenas para trabalhos braçais ou de assistência e caridade. É a mesma História que aponta o caminho. Custa mudar as mentalidades, estamos habituados a entender que mesmo na assistência aos doentes existem hierarquias de valor, mas um enfermeiro mal apetrechado pode dar origem a um erro tão fatal à cabeceira do doente, quanto o médico. Numa sala de operações inglesa ou americana, a instrumentista é a responsável pela manutenção da higiene e esterilização e não há hierarquia médica que se sobreponha a isso. A posição ancestral a que estamos habituados, quer se queira quer não, tem os dias contados. É necessário olhar para a situação sem preconceitos, dando uma nova organização às equipas de trabalho, em que cada um tenha um lugar definido, com base na competência. Esboçar ou encetar um antagonismo entre quem deve colaborar é uma atitude negativa e de más consequências. É certo que, no final, a quem se pedem responsabilidades é ao médico, porque é nele que o doente confia. Mas se um doente tiver um desfecho fatal porque o enfermeiro trocou as embalagens, o médico pede responsabilidades ao enfermeiro. Só que, para ele ser responsável, tem de ter adequadas condições de aprendizado. Todos com os olhos postos no doente.

Vestígios da Profissão nas Artes

       É curioso observar que as obras artísticas de médicos abordam com raridade os temas da sua profissão. Os primeiros poemas escritos por médicos que chegaram até nós são dedicados ao Saber, ao estudo, ao conhecimento. João Pinto Delgado deixou uma colecção que merece leitura. Assinale-se ainda a contribuição valiosa de Estevão Rodrigues de Castro e Domingos Pereira Bracamonte. Este deixou uma série interessante de poemas relacionados com a dietética. Mas temos de procurar com afinco para encontrar textos de verdadeiro cariz médico mormente temas sociais ligados à Medicina. A enorme contribuição dos médicos avantaja-se em temas gerais de referência literária, seja na poesia, no conto, no romance e mesmo no ensaio literário.
       É certo que podemos entender que Rodrigues Castelo Branco, Amato Lusitano, deixou, nas suas Centúrias, saborosos textos de carácter prático, por onde se podem vislumbrar aspectos da relação social entre médicos e doentes. Também outro médico, Mestre Afonso, dedicou alguns fragmentos na sua viagem através de África, a aspectos médicos muito escassos. Mas foi necessário aguardar até ao século XIX para Júlio Dinis e, já no Século XX, Fernando Namora, nos darem figuras e cenas carregadas de características médicas, com pinceladas firmes e caracterizações notáveis. A figura do João Semana está hoje tão viva como quando foi criada, bem como as cenas jocosas em que tomou lugar. Estou a lembrar-me da história da Última Ceia, n'A Morgadinha dos Canaviais ou a visita do João Semana à aldeia. Vale a pena desenterrar os seus velhos livros do pó do tempo e reler estas passagens.
       No campo da Pintura, o cenário é semelhante. Surgem temas médicos com alguma raridade: merecem referência os trabalhos de natureza psíquica legados por Mário Botas, com vários quadros, como as Máscaras, a evolução fetal de Tropa de Sousa, no quadro a que deu o nome de Mórula, o desenho de Miguel Salazar com o seu Voando sobre um Ninho de Cucos, ou o trabalho desse notável pintor e poeta que é Cabral Adão, com projecção internacional.
       Tratado o aspecto fulcral da actividade dos médicos em áreas tão diversas, vejamos agora o inverso: o interesse que os problemas médicos têm despertado em artistas não médicos, pintores, escultores, escritores, poetas. Passando rapidamente os nomes de Cornan Doyle, o célebre criador de Scherlok Holmes, de Axel Munthe, escritor que nos deixou o belo livro de S. Michele, de Chekov, criador de personagens inesquecíveis, foquemos os artistas portugueses, numa breve passagem, por ser impossível, em tão curto espaço de tempo, referir o que, por direito, merece horas de observação, estudo e encantamento.
       São famosos os frescos de Veloso Salgado, da Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa e Malhoa deixou-nos, entre outros, um magnífico quadro a que chamou O Remédio, que se exibe no Museu Nacional de Soares dos Reis, no Porto. Lá está estampada a ansiedade da mulher, filha, esposa ou mãe, com a garrafa do remédio sob o braço, em busca da salvação do seu ente querido. Eça de Queiroz deixou registado, n'O Primo Bazílio, a influência das cunhas no provimento das vagas de médicos, e David Mourão Ferreira, n'Um Amor Feliz foca a moda tão divulgada dos congressos, a caracterizar a Medicina dos nossos dias. Estas e outras obras devem merecer por parte dos médicos, um pouco, um mínimo de atenção.
       Neste breve resumo, é possível retirar algumas importantes conclusões. Dos trabalhos de Arte, Filosofia, Sociologia, enfim, da autoria de médicos pode concluir-se que a profissão tem dado ao país vultos dos mais destacados em cada uma destas áreas: o gigante Miguel Torga; António José de Almeida, Presidente da República; António Augusto da Silva Martins, pai do Dr. Gentil Martins, que todos conhecemos, considerado ainda hoje o atleta português mais completo, vítima de uma explosão da arma com que competia nos Jogos Olímpicos em idade precoce, são apenas alguns nomes a referir.
       No campo da Literatura, é possível caracterizar as várias fases da História da Literatura Portuguesa só com obras de médicos. Reconhece-se também que foram médicos os pioneiros de certos tipos de Literatura. Tal é o caso de Rodrigo Paganino, criador desse pequeno livro Os Contos do Tio Joaquim que iniciou a investida do conto literário em Portugal após três séculos de silêncio e foi também esta obra o rastilho para o tipo de escrita rural que outro médico, de pseudónimo Júlio Dinis, tão bem soube desenvolver.
       Do trabalho dos artistas não médicos, mas que dedicaram parte das suas actividades à Medicina podemos resumir o seguinte: as obras que legaram, sobretudo na Literatura e na Pintura, são o espelho da vida médica das épocas que referem. Na Escultura deixaram, sobretudo, bustos ou estátuas de médicos. Toda esta caracterização constitui um elemento de estudo e lição para os tempos modernos. Daí a importância da Historiologia. A título de exemplo, refiro um poema de João de Deus que caracteriza os hábitos sanitários da população portuguesa do seu tempo.

Mal de pés

Certo patrício nosso brasileiro,
Depois de ter corrido o mundo inteiro
Ao voltar de Paris desenganado
Dos médicos, que tinha consultado,
Achou-se num wagon com um inglês.
O desgraçado tinha mal de pés...
E a última palavra da ciência
Era ir vivendo e tendo paciência!

Mostrou-se o bife incomodado,
Fungando para um e outro lado...
Como quem busca o foco de infecção;
Diz-lhe o nosso infeliz compatriota,
A apontar-lhe com o dedo a bota
E exalando um suspiro de paixão:
— Eis a causa, senhor, eis o motivo!...
O que eu não sei é como ainda vivo!

Tenho gasto rios de dinheiro,
E sempre, sempre, sempre o mesmo cheiro!
E isto por ora vá!... mas alto dia
Quando aperta o calor... Virgem Maria!1...

"E diga-me: em lavando os pés refina,
Ou sente algum alívio?"
— Isso não sei,
Sei que tenho exaurido a medicina;
Mas lavar é que nunca experimentei.

Às vezes dá-se ao médico o dinheiro
Que se devia dar ao aguadeiro*.

in Campo de Flores, Satíricas e Epigramas.

1Expressão sem suporte bíblico... mas era o que ensinavam ao povo. EE
*Homem que no século XIX vendia água e carregava os respectivos potes até à morada do cliente.


Texto retirado da Revista da Ordem dos Médicos - Abril/Junho 2001