quinta-feira, 15 de maio de 2014



UM LIVRO QUE CAUSA POLÉMICA

Este É O Cântico Dos Cânticos, A Mais Bela Das Canções De Salomão. Cantares 1:1.

Ontem conversámos sobre dois livros bíblicos que foram escritos por Salomão: Provérbios e Eclesiastes. Também é de autoria dele o livro de Cantares ou Cântico dos Cânticos. Conheço pessoas que têm dúvidas a respeito desse livro. Perguntam com que objetivo Deus colocou esse texto em Sua Palavra.
No livro de Cantares, Salomão fala sobre um homem e uma mulher que eram casados e tinham a bênção de Deus. O livro fala sobre como se amavam e como desfrutavam de um dos maiores presentes que Deus deixou para o ser humano: a sexualidade.
Sei que você conhece esse tema. Talvez seus pais já tenham conversado sobre isso com você. Talvez no colégio os professores tenham abordado o assunto, ou ainda pode ser que você tenha falado com amigos a respeito. Uma coisa é certa: esse é um assunto sagrado. E, se o livro de Cantares está na Bíblia, é porque hoje, mais do que nunca, precisamos dele.
E por que precisamos dele? Porque hoje em dia, infelizmente, o inimigo distorceu os planos de Deus no que diz respeito ao sexo. O sexo foi criado e separado por Deus para a felicidade do homem e da mulher após o casamento, com o objetivo de formar uma família equilibrada, cercada de amor.
Mas hoje: filmes, novelas, seriados, internet e revistas mostram homens e mulheres que não são casados praticando sexo fora do casamento, diferente do que é o plano de Deus. As pessoas que vivem assim são infelizes. Muitas delas fazem isso porque não conhecem a Deus e Seus maravilhosos planos para nós. Outras porque cederam à pressão de amigos e não conseguiram se manter firmes ao que é certo.
Quando Deus diz "não" para o sexo antes do casamento, Ele sabe o que está dizendo. Foi Ele quem nos criou e sabe o que é melhor para nós. Para você entender mais claramente os motivos de Deus para isso, leia com atenção a seguinte explicação: A psicologia diz que tudo o que fazemos fica gravado em nossa mente. Atos praticados nunca mais são esquecidos. Ou seja, as lembranças do que você fizer hoje vão acompanhá-lo durante toda a sua vida e poderão atrapalhar sua felicidade no futuro.
Para ser feliz é preciso seguir os conselhos e os planos de Deus em todos os aspetos da vida. Seja firme. Quando for necessário, saiba dizer "não!"

http://www.cpb.com.br/htdocs/periodicos/ij/2014/frij12014.html#16 - Inspiração Juvenil - 16.02.2014 - (ver em CPB, Links 1R).


A FALTA QUE O CÂNTICO DOS CÂNTICOS FAZ

Calma, não se desesperem, o livro de Cântico dos Cânticos de Salomão (ou Cantares) não foi retirado da Bíblia. No entanto, pouco a pouco está sendo retirado das nossas vidas. Como Assim?
O livro de Cântico dos Cânticos trata em sua narrativa dos seguintes temas:
1) A perfeição do homem e da mulher criados à imagem de Deus;
2) A sexualidade humana dentro dos limites estabelecidos por Deus;
3) A integridade do amor humano;
4) A nobreza de manter-se puro antes do casamento e da fidelidade após o casamento.
Lendo a revista Marie Claire deste mês de outubro de 2013, deparei-me com uma matéria que me entristeceu por ser um reflexo do comportamento atual do mundo. Traição Conjugal (páginas 114 a 120).
Sabemos que não é de hoje que a traição existe, vide o exemplo de Judas que traiu Jesus por 30 moedas de prata e com um beijo selou tal ato. Porém, a traição que vou dissertar é a conjugal.
A matéria na revista relata um novo tipo de traição, em específico, das mulheres na faixa dos 30 anos que traem não porque pensam em trocar de marido, ou estão em busca de outro romance. A moral da história é a adrenalina para explorar fantasias. Segundo a revista "as infiéis atuais não se sentem culpadas, mas, sim, poderosas." Para o psicanalista Christian Dunker – professor e um dos coordenadores do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da Universidade de São Paulo – "não se trata de uma mensagem para o marido com o intuito de lembrá-lo que ele pode perdê-la e exigir valorização, como acontecia antes. O que ela quer é resgatar a potência de sua sexualidade, explorando um erotismo que não se permitiria com o marido por questões estruturais: não dá para fantasiar demais com o cara com quem você vive e vai para a cama todos os dias."

LIBERDADE X LIBERTINAGEM

Como cristãos sabemos que a instituição criada por Deus mais atacada pelo inferno é a família, pois esta constitui a base da sociedade: corrompem-se famílias e terás sociedades corrompidas. A falta de maturidade, o desrespeito para com o cônjuge, a falta de conhecimento ou o descaso com as leis divinas e o egocentrismo fazem com que o sentido da palavra liberdade englobe a libertinagem. Associação que está totalmente equivocada, pois são sentidos opostos.
Tanto o homem quanto a mulher nos dias atuais se acham os donos do mundo, fazem o que querem, quando querem e como querem. Tudo hoje é relativo e essa relativização nada mais é do que uma desculpa intitulada, muitas vezes, de auto-suficiência. Ser auto-suficiente é ser independente, e ser independente é fazer qualquer coisa que eu queira independentemente de valores "tidos" como morais. Tal pensamento mundano vem sendo difundido por meio de novelas, séries televisivas, comerciais, etc.
Vivemos na era do "aqui e agora", faça tudo sem culpa e sem remorso, se sinta livre. Livre? Que liberdade é essa que não se coaduna com o respeito e o amor?
Uma das entrevistadas pela referida revista diz que: "Depois de tantas experiências, nem entendo mais por que tantas mulheres se reprimem ou se condenam quando são infiéis. Eu me libertei da noção católica de erro e pecado e consegui compreender melhor os homens. Entendi o que significa 'só sexo' e gostei."
Onde foram parar os princípios cristãos? Que sociedade é essa que não encara o pecado como pecado, mas sim como algo natural do ser humano e, portanto, deve ser vivido sem nenhum pudor ou autocontrole?
Cabe a todo o casal cristão essa missão de mostrar ao mundo que o amor segundo a palavra de Deus descrita no Livro de Cântico dos Cânticos não morreu, ao contrário, está mais viva do que nunca. Ministrem casais, deem testemunhos, vão a campo e semeiem a sabedoria de Deus nos relacionamentos amorosos.
Uma família alicerçada na rocha - Cristo - é luz que afasta a escuridão.

Sérgio Siqueira Júnior, Advogado pela Universidade Candido Mendes, Direito Público e Privado pela FESUDEPERJ - Fundação Escola Superior da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro. (texto retirado da internet)


MINHA CONFISSÃO

Eu tenho estado cega e incapaz de ver o verdadeiro amor que Tu me estás dando. Eu ignorei todas as bênçãos.
Estou de joelhos confessando o que sinto, E me entrego cada vez que vejo o Teu rosto.
Estou espantada pela beleza da Tua graça despretensiosa, E eu sinto que meu coração está voltando a se encaixar.

Eu não posso me esconder, ouve agora a minha confissão: Eu estava errada sobre Ti, pensei que era forte sem Ti.
Há tanto tempo que nada podia me mover, Há tanto tempo que nada podia me mudar.
Agora eu sinto que me entrego cada vez que vejo o Teu rosto.
Estou conquistada pela beleza da Tua graça despretensiosa, E eu sinto que meu coração está voltando a se encaixar.

Eu não posso me esconder, ouve agora a minha confissão: Tu és o ar que eu respiro, Tu és o chão debaixo dos meus pés.
Quando é que eu parei de acreditar? Porque eu sinto que me entrego cada vez que vejo o Teu rosto.
Estou espantada pela beleza da Tua graça despretensiosa, E eu sinto que o meu coração está voltando a se encaixar.
Eu não posso me esconder, ouve agora a minha confissão. Eu não posso me esconder, ouve agora a minha confissão.



"Se Confessarmos os Nossos Pecados, Ele é Fiel e Justo, Para Nos Perdoar os Pecados
e Nos Purificar de Toda a Injustiça." I João 1:9.

CINCO  TÉCNICAS  PARA  AUMENTAR  O  PRAZER  FEMININO
SiMpLeSmEnTe  InFaLíVeL!

Técnica nº1: MÃOS MOLHADAS
Faça sua esposa sentar-se numa cadeira confortável na cozinha. Certifique-se de que ela consegue ver muito bem tudo o que você faz. Encha a pia da cozinha com água e adicione algumas gotas de detergente para louça com aroma. Segurando uma esponja macia, submerja suas mãos na água e sinta a sua pele ser envolvida pelo líquido até que a esponja esteja bem molhada... Agora, movendo-se devagar e gentilmente, pegue um prato sujo do jantar, coloque-o dentro da pia e esfregue a esponja em toda a superfície do prato. Vá esfregando com movimentos circulares até que o prato esteja limpo. Enxague o prato com água limpa e coloque-o para secar. Repita com toda a louça do jantar até que sua parceira esteja gemendo de prazer.

Técnica nº2: VIBRANDO PELA SALA
É um pouco mais difícil do que a primeira, mas com algum treino você vai fazer com que sua esposa grite de prazer. Cuidadosamente apanhe o aspirador de pó no lugar onde ele fica guardado. Seja gentil, demonstre a ela que você sabe o que está fazendo. Ligue-o na tomada, aperte os botões certos na ordem correta.
Vagarosamente, vá movendo-se para a frente e para trás, para a frente e para trás... por toda a carpete da sala. Você saberá quando deve passar para uma nova área. Vá mudando gradativamente de lugar. Repita quantas vezes for necessário até atingir os resultados.

Técnica n°3: CAMISETE MOLHADA
Este joguinho é bem fácil, embora você precise de mente rápida e reflexos certeiros. Se você for capaz de administrar corretamente a agitação e a vibração do processo, sua esposa falará de sua performance para todas as amigas dela. Você precisará apenas de duas pilhas. Uma pilha com as roupas brancas, e outra pilha com as coloridas. Encha a máquina de lavar com água e vá derramando gentilmente o sabão em pó dentro dela (para deixar a mulher ofegante, use exatamente a quantidade recomendada pelo fabricante). Agora, sensualmente coloque as roupas brancas na máquina... uma de cada vez... devagar. Feche a tampa e ligue o 'ciclo completo'. Sua esposa vai ficar extasiada. Ao fim do ciclo, retire as roupas da máquina e estenda-as para secar. Repita a operação com as roupas coloridas.

Técnica nº4: O QUE SOBE, DESCE
Esta é uma técnica muito rapidinha. Para aqueles momentos em que você quer surpreendê-la com um toque de satisfação e felicidade. Pode ter certeza, ela não vai resistir. Ao ir ao banheiro, levante o assento do vaso. Ao terminar, abaixe novamente. Faça isso todas as vezes. Ela vai precisar de atendimento médico de tanto prazer.

Técnica nº5: GRATIFICAÇÃO TOTAL
Cuidado: colocar em prática esta técnica pode levar sua esposa a tal estado de sublimação que será difícil depois acalmá-la, podendo causar riscos irreversíveis à saúde da mulher. Esta técnica leva algum tempo para seu aperfeiçoamento. Empenhe-se com afinco. Experimente sozinho algumas vezes durante a semana e tente surpreendê-la numa noite. Funciona melhor se ela trabalha fora e chega cansada a casa.
Aprenda a fazer uma refeição completa. Seja bom nisso. Quando ela chegar a casa, convença-a a tomar um banho relaxante (de preferência aromático numa banheira de água morna que você já preparou). Enquanto ela está lá, termine o jantar que você já adiantou antes de ela chegar a casa. Após ela estar relaxada pelo banho e saciada pelo jantar, execute a Técnica nº 1.


(Criativa Online)
http://www.criacionismo.com.br/2014/02/cinco-tecnicas-para-aumentar-o-prazer.html?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+criacionista+%28Criacionista%29

(Já nos rimos um bocado. Mas você, marido e pai, sabe muito bem... Não trate a sua esposa como "o cavalo do espanhol", porque tudo tem o seu limite. E Deus um dia lhe pedirá contas por isso. Para além de que ela pode não morrer!...
E Deus detesta o adultério, as desculpas esfarrapadas, o 'casa-descasa-casa-'... É mais sábio fazer um pequeno esforço, mas ajudar em casa e aos filhos, no grande esforço da sua mulher. Pense bem! E. E.)


QUE TAL?!... Há Gente P'ra Tudo...




domingo, 4 de maio de 2014

A CONSTRUTORA DO LAR


Numa certa tarde - foi isso há mais de meio século -, uma rapariguinha entregava-se à tarefa de fazer a sua bainha diária ao lado da mãe. A rapariguinha era eu; a mãe, a minha. A bainha já fazia parte da rotina, e pouco importava que eu detestasse a costura.
A minha avó, que descendia de uma família de huguenotes franceses, educara as filhas para boas donas de casa e isso incluía, na nossa geração, o fazer as roupas do agregado familiar. As ditas roupas eram enfeitadas com bordados e rendas; logo, bordar e fazer renda fazia parte dos lavores a ensinar às jovens. Por isso, na altura própria, eu tive de fazer bainhas, bordados e rendas de croché. A mesma combinação de trabalhos enfadonhos e de decoração artística se exigia igualmente em culinária. Ensinaram-me a fazer pão e bolos, a assar, a grelhar e a fritar, como igualmente a preparar doces e compotas. Uma casa precisava de ser limpa de alto a baixo e de ser posta em ordem antes de se disporem as flores, mas tudo era igualmente essencial ao bem-estar e à felicidade da família. Trabalho doméstico e decoração eram, segundo minha mãe decretava, atribuições da mulher.
Era uma tarde quente - lembro-me ainda. A agulha, a linha e o pano de linho chinês pegavam-se-me aos dedos. Sentia-me revoltada.
- Suponha que não me caso? - disse.
- Nem é preciso que te cases - respondeu tranquilamente minha mãe. - Nem todas as mulheres se casam. Mas tens de aprender a tratar da casa, por ti própria, quer te cases quer não, porque és mulher. E o mais natural é que te venhas a casar.
Estávamos sentadas na varanda da nossa velha casa da missão e, nesse momento, o jardineiro regava as flores do canteiro ao longo do muro da cerca. As casas americanas sempre tiveram na China servidores fiéis: a vida ali dependia deles.
- Terei criadas - afirmei.
- As tuas criadas não te respeitarão se não souberes ensiná-las - volveu minha mãe, no seu sereno tom de voz habitual, e, erguendo os olhos da costura, dirigiu-me um sorriso meio travesso e acrescentou: - Não podes fugir à tua condição de mulher.
Quanta verdade se encerra nestas palavras! Onde quer que eu me encontrasse, fosse qual fosse o meu trabalho, não consegui escapar nunca à minha condição de mulher e, no mais íntimo dos nossos corações, todas as mulheres sentem a necessidade de criar um lar.
Nem todas elas se casam; talvez actualmente nem todas consigam ou queiram casar, e o lar pode ser unicamente para elas. Contudo, a maior parte das mulheres aspiram ao casamento e com este surge o dever e a alegria de criarem um lar, não só para elas como para os outros.
Deixem-me afirmar desde já que considero perfeitamente possível que as mulheres conciliem a profissão com a vida doméstica. Na realidade, o custo elevado da vida força frequentemente as mulheres a ganharem a sua subsistência fora de casa e a encarregarem-se dos serviços domésticos. É por vezes difícil conciliar as duas actividades, especialmente quando os filhos são pequenos. Eu tive a sorte de poder dedicar-me à minha profissão dentro das paredes do lar.
A sala em que escrevo faz parte da minha casa, e a porta encontra-se sempre aberta para os meus filhos. A qualquer hora lhes permito que me interrompam o trabalho. Este, quando continuado, sai melhor, mas aprendi a deixar um capítulo importante em meio sempre que os filhos ou o marido precisavam de mim. Pus sempre a família em primeiro lugar.
E mais uma vez me posso considerar feliz porque essa atitude não me custou nenhuma espécie de sacrifícios. Um escritor, em primeiro lugar, tem de viver se quer que os seus livros contenham vida; pelo menos, eu assim o creio; de qualquer modo, isso tem de acontecer com o escritor sempre que este seja mulher. Os homens encontram-se mais afastados das fontes da vida do que as mulheres. Eles poderão ser capazes de tecer as suas histórias no vácuo humano; as mulheres que escrevem, não. Aquelas cujos livros ficaram na história da literatura foram mulheres que escreveram sempre na sala e rodeadas pela família, como, por exemplo, Jane Austen e as irmãs Brontë. Eu confesso que dessa maneira não consigo concentrar-me. Tenho de facto uma sala só para mim e tenho de a ter, tal como acontecia com Virgínia Woolff. Mas a minha porta está sempre aberta.
Bem, que dizer a respeito das mulheres que não podem ficar em casa e vão todos os dias para a fábrica ou para o escritório? Conheço actualmente nas minhas vizinhanças grande número delas. Em tempos, o condado onde vivo era sereno e rural, semeado de vastas quintas, de pastagens e de prados. Tudo isso infelizmente se transformou. Na parte mais baixa do condado instalaram uma grande companhia de aço, no ponto onde o rio Delaware se precipita no mar. As quintas foram vendidas e, no lugar onde elas prosperavam, erguem-se actualmente vastos formigueiros humanos.

O fumo rompe das chaminés, manchando de negro o que foi outrora o nosso céu azul. As mulheres daqui trabalhavam placidamente em casas rurais feitas de pedra. Agora, desaguam febrilmente de casas comuns e correm desabaladas a sentar-se diante das máquinas ou das secretárias enquanto os filhos permanecem nas escolas ou nos infantários da comunidade, ou se concentram aos magotes em casa de qualquer senhora de idade. Será tudo isto necessário? Assim parece enquanto aspirarmos a casas mais modernas equipadas com frigoríficos, aquecedores e muitas outras coisas mais.
Falei há dias com um agente de venda de propriedades acerca da transacção a efectuar quanto a uma das minhas antigas casas de campo, da qual já não necessitava. É uma bela casa construída em pedra, que conta um século de existência. Além do pavimento, feito de pesadas tábuas de carvalho, possui peitoris de janela profundamente encravados nas paredes de mais de sessenta centímetros de espessura. Modernizei-a quanto pude. Abri um belo poço, dotei-a de casa de banho e de água corrente e de esplêndida aparelhagem de aquecimento por meio de ar quente. Devia ser vendida por bom preço mas, quando falei nisso ao agente, este mostrou-se muito duvidoso.

- Actualmente não - declarou. Só um velho casal reformado lhe pegará... A gente nova quer aquecimento a óleo e tudo automático e moderno.
Ora, para conseguir tais confortos, as mulheres têm, como o homem, de fornecer a sua contribuição material. Contudo se, actualmente, eu fosse uma mulher jovem dentro da média, decidia - tenho a certeza - não trabalhar fora de casa, ainda que tivesse de passar sem um segundo carro, aquecimento automático e todos os extras agradáveis. Eu aceitaria aquilo que o meu marido pudesse ganhar e com esses meios criaria um lar em que poria toda a minha alma e os meus poderes criativos.
Atentemos agora contudo no facto de, uma vez que a mulher terá de permanecer em casa - e assim deverá ser se for casada e com filhos pequenos -, os negociantes terem de se compenetrar da necessidade de baixar os seus preços. Não poderemos manter o nosso poder de compra actualmente elevado, nós, os consumidores, se os ordenados se conservarem ao nível da capacidade de ganhar dinheiro, de cada um.

Cumpre aos economistas ocuparem-se deste problema, e os homens de negócios terão de compreender que honra e proveito não cabem num saco. Se as pessoas comprarem as coisas maravilhosas que se fabricam em sua intenção, se tiverem de sucumbir à aliciante propaganda que lhes fornecem e ouvem a todos os momentos do dia e até a meio da noite, então, marido e mulher terão ambos de ganhar dinheiro; logo, a esposa não poderá dar-se ao luxo de ser ela a única pessoa a cuidar da casa. Terá de fazer tudo à pressa; o marido ver-se-á forçado a judá-la a cozinhar, a limpar a casa e a cuidar dos filhos. Eis uma verdade insofismável. Talvez isso até seja melhor para um casal. Não sei.
Seja, porém, como for, temos de compreender que o trabalho doméstico, em todo o sentido da palavra, exige tempo. Exige tempo não só o trabalho de manter a casa limpa e bem arranjada com meios materiais limitados, como também o pensar em todos os membros da família em relação ao lar e ao seu próprio conjunto.
Uma mulher não pode andar à pressa o dia inteiro, esforçando-se por ganhar dinheiro e ser ao mesmo tempo uma boa dona de casa. Sente-se falhada e, a fim de tranquilizar a sua consciência, exaltará até às nuvens o prazer de dispor de dinheiro para gastar.
Nessa altura, a construtora do lar, a mulher que não dispõe de ordenado para acumular, dá-lhe ouvidos e, insatisfeita, pergunta a si própria se na verdade será o seu, o melhor caminho. Afinal, ela sente-se, nessa altura, simplesmente uma dona de casa.
É a esse género de mulher, à construtora do lar, à dona de casa, que neste momento me dirijo. Ser-se dona de casa em toda a acepção do termo exige autodisciplina, e nem todas as donas de casa são construtoras de lares. Algumas põem a casa acima do lar e, nessa altura, não passam de mulheres-a-dias e de cozinheiras.

Algumas são preguiçosas e incapazes de se disciplinar no sentido de realizarem o trabalho diário suficientemente bem e criarem um cantinho de beleza e de ordem para a vida de família.
É muito fácil, quando o marido sai para o trabalho e as crianças vão a caminho da escola, sentar-se uma mulher à mesa, com uma chávena de café bem quente em frente do aparelho de rádio, da televisão ou do telefone. A mulher que é indisciplinada no lar pode igualmente iludir o trabalho no emprego se não possuir consciência. O lar pode converter-se igualmente numa evasão à realidade se a mulher se permite resvalar na preguiça. As mulheres são tão humanas como os homens e há pessoas que só trabalham quando vigiadas.
Suponho que esse tipo de mulheres fariam melhor em trabalhar em locais onde existe vigilância, pois desse modo lucrariam pelo menos a vantagem de um ordenado. A verdadeira dona de casa, contudo, ama o seu lar e a casa é apenas uma parte do lar. Este constitui o ambiente local e a atmosfera em que vive a família. Inclui o pátio, o jardim, as flores na mesa, os livros na sala de estar, a música flutuando no ar, conversação interessante, televisão e excursões de família bem como jogos aliciantes nas noites de Inverno. É a vida partilhada por todos os membros da família o que concorre para a boa atmosfera do lar.
A construtora do lar é responsável pela beleza e consequentemente pela ordem na sua casa.
Eu seria a última pessoa do mundo a insistir numa casa imaculada. A nossa sala de estar pode ficar completamente desarrumada quando se brinca ou se trabalha, mas, terminadas essas actividades, tenho sempre de colocar as coisas nos seus lugares. É esse, como mulher, o meu dever. Deve-se ensinar as crianças a ajudar mas, quando estas se encontram na fase da adolescência, período de natural rebelião, ou quando elas se encontram a braços com outras tarefas, sou eu somente quem se encarrega de restabelecer a ordem. Suponho ser da minha responsabilidade de construtora do lar mantê-lo o mais harmonioso e belo que me for possível sem que ninguém me force a fazê-lo, e - repito -, sem ordem, a beleza não existe. Uma sala pode estar ricamente mobilada, mas se tudo se encontrar desarrumado, todos os valores ficam destruídos.
Deixem-me salientar mais uma vez que se não arruma apenas por amor da ordem mas por amor da beleza. A ordem é a base da beleza. Uma casa desarrumada é um lar em desordem, que só gente desordenada pode produzir. Existe uma nítida relação entre a desordem física e a confusão mental.

Relativamente perto do local onde vivo, existe uma casa por que passo mas minhas idas e vindas e sempre, nessas alturas, penso na história que lá dentro se oculta. É uma casa atraente, limpa e branca, de cortinas igualmente brancas em todas as janelas de vidros reluzentes. Nunca lá entrei, mas os vizinhos dizem-me que vivem nela dois homens - pai e filho - e que a casa se encontra tão arrumada e é tão agradável por dentro como por fora. Vivem sós; ambos saem de manhã para o trabalho e só regressam à noite. Não viveram sempre ali. O pai comprou aquela casa há uns anos depois de a mulher falecer. Antes disso, viviam numa casa grande e antiga a umas centenas de metros de distância da que actualmente possuem.
- E porque se mudaram? - perguntei ao meu vizinho?
- Queriam ter um verdadeiro lar.
- E não tinham?

- Não - foi a resposta. A mulher era uma péssima dona de casa. Nunca tinha nada em ordem. Era uma autêntica preguiçosa, embora nada mais tivesse que fazer. Andava quase sempre por aqui e por ali. Quando o marido à noite regressava a casa, encontrava esta sempre em desordem e ela atrasada no trabalho, e isto sempre, sempre, sempre. Ele era pouco falador, ou talvez tivesse perdido o gosto de falar. Não sei. Mas, quando ela morreu, o viúvo vendeu a casa, toda desarrumada como estava, e comprou essa onde actualmente vive. E tem-na arranjada que é uma beleza. Ele e o filho mantêm-na arrumada e asseadíssima. Até põem flores na mesa. É um verdadeiro lar embora lá dentro não exista uma mulher. Um encanto!
Compreendo esse homem. O que a mulher não pôde ou não quis criar para o marido e para o filho, criou ele. Por vezes, pergunto a mim própria por que motivo não tornou ele a casar, visto que se trata de um indivíduo bem parecido. Suponho que tenha medo de fazer nova experiência. Também uma segunda mulher lhe poderia destruir o lar. E o que me surpreende é o seguinte: porque teria a mulher desperdiçado a sua oportunidade de ser feliz? Que trabalho será mais grandioso para a mulher - ou para o homem - do que a criação e manutenção desse centro da vida humana que é o lar? Nele nascem os filhos. É o seu mundo, o único que conhecerão durante os anos mais importantes da sua existência e, enquanto viverem, ele continuará a exercer sobre os que lá viveram a mais extraordinária influência.

Efectivamente é muito raro que os homens e as mulheres venham a subir acima da atmosfera dos lares em que foram criados. Poderão tornar-se ricos e poderosos; poderão construir casas muito diferentes das que primeiro conheceram, mas levarão com eles a atmosfera do primeiro lar. Se este foi um centro de ordem e de beleza, simples embora, então sentir-se-ão serenos e capazes de enfrentar os problemas da vida. Se nesse lar não existia nem ordem nem beleza, essas carências hão-se persegui-los a vida inteira. Podem não saber o que têm, porque se sentem extremamente inquietos e em busca de alguma coisa, mas saberão que vivem no meio da incerteza e da confusão interior.
A relação entre o material e o espiritual, ou, como disse Einstein, entre a matéria e a energia, é profunda e real, e os seus objectivos não conhecem limites. Efectivamente, só agora começamos a suspeitar da sua imensa realidade. Eu própria acreditei sempre que a graça espiritual apenas pode brotar da ordem física e da beleza. Numa casa onde tudo se encontra bem planeado e disposto com harmonia, as crianças crescem facilmente serenas. Mas as impacientes e irritáveis e os adultos infelizes são frequentemente produto da atmosfera de uma casa desagradável e em desordem.
A mulher, a dona de casa, a construtora do lar concebe e realiza mais do que ela própria pensa. Enquanto varre, limpa e põe tudo em ordem, vai criando seres humanos. Afeiçoa maneiras de ser, molda caracteres e estabelece a harmonia.
Do que mais necessitamos neste mundo é de gente amável, de bom carácter e de natureza serena e harmoniosa. Pode ser importante até à escala mundial que os homens saiam de casa pela manhã, não apenas conscientes de que as mulheres os amam, mas igualmente com a satisfação de saber que possuem lares em ordem, lares atraentes, de onde saem e aos quais regressam à hora própria. Creio, por exemplo, que um delegado às Nações Unidas possa ocupar o seu posto numa disposição de espírito aberto à compreensão e à paciência se poucos minutos antes saiu de um lar aliciante e cuja beleza se baseia na ordem.
A influência da mulher, da construtora do lar, ultrapassa em verdade e em muito as fronteiras da casa. Ultrapassa mesmo as fronteiras da compreensão da mulher em tais condições. Cria ela o centro em que o mundo começa, o mundo e todos os seus habitantes. É dela que tudo resulta. Tal como todo o ser humano, seja ele homem ou mulher, emerge do seu ventre - e ninguém nasce de outra maneira -, assim esse ser humano emerge do lar que ela afeiçoa para o receber quando nasce. É certo: o homem é o seu par e o seu colaborador, mas, por alguma razão, talvez divina, é ela a responsável pela criação da vida em todas as suas formas.

Existe qualquer coisa de singularmente forte na mulher. Raramente, na verdade, um homem consegue arruinar a vida de uma mulher, pois esta reconstrói-a tantas vezes quantas as necessárias. Possui uma resistência interior que a restitui a si própria e às suas funções. Mas os homens, esses, facilmente se deixam aniquilar pelas mulheres. Assim lhes acontece quando ao lar presidem más mães e más esposas. E digo más porque me encontro convencida de que uma dona de casa desordenada, egoísta e incompetente é, de facto, uma má mulher. Ela desempenha a tarefa mais importante no mundo; dispõe da mais fascinante oportunidade e, se não a executa e não aproveita convenientemente, não merece perdão. Se ignorante, essa ignorância representa um crime devido aos prejuízos que causa ao grupo dos seres humanos pelos quais ela se tornou responsável.
E eu que sou escritora de profissão, acredito realmente que as actividades domésticas são, neste mundo, as mais importantes para a mulher? Acredito, sim, e não só em relação aos outros como em relação a mim própria. Na minha qualidade de escritora, sei que é essencial para uma mulher ser a construtora do seu lar e isto independentemente de qualquer outra actividade que exerça. O ser uma boa dona de casa bastará para ela se tornar uma pessoa completa. Direi ainda que, também o homem, quando dá provas de ser excelente marido e pai, atinge a sua plenitude como ser humano.

Nós - os homens e as mulheres - possuímos funções diferentes mas cooperadoras na missão de mutuamente nos completarmos, e o mesmo acontece em relação aos seres humanos que servimos, por sermos responsáveis por eles. Sei que me é necessário, se porventura pretendo que o meu trabalho seja da melhor qualidade possível, sentir-me numa casa tão alindada quanto couber dentro das minhas possibilidades. O lar é a terra onde mergulham as minhas raízes e das quais retido o meu alimento espiritual. A própria segurança se baseia nesta satisfação íntima.
A casa é pois o centro da vida. Assim como for a casa - a casa individual onde uma mulher é matriz - assim será o mundo. Nós, mulheres, temos necessidade, ao observarmos este nosso mundo actual, de perguntar por que motivo ele se apresenta assim conturbado. Para sermos honestas, impõe-se que procuremos as causas do mal e que tentemos eliminá-las. E não me surpreenderá se as nossas pesquisas nos conduzirem ao âmago do lar.

Pearl Buck in Para As Minhas Filhas Com Amor. "Abençoada eu, que possuo sete filhas. A mais velha, a única afinal que dei à luz, sofre de fenilcetonúria, deficiência essa que me lançou no mundo dos bioquímicos, dos pais e dos professores, de crianças mentalmente atrasadas, e me deu a conhecer a coragem confrangedora dessas mesmas crianças diminuídas. (...) Possuo igualmente filhos, todos eles do mesmo modo possuidores de qualidades e que me são igualmente indispensáveis." (...) "Pearl Buck ao longo da sua vida cuidou de 7 filhas e em anos e anos de convívio debateu com elas as mais diversas opiniões acerca da vida e do mundo em geral. Este livro resultou desses debates, fornecendo a Pearl Buck o alicerce de muitas concepções aqui expostas." - Edição «Livros do Brasil» Lisboa, 1967. "Em 1938 tornou-se a primeira mulher norte-americana a ser alguma vez galardoada com o Prémio Nobel."


As Minhas Coisas Favoritas
Gotas nas rosas e bigodes nos gatinhos, Chaleiras de cobre brilhantes e luvas de lã quentinhas,
Pacotes de papel castanho amarrados com fita, Essas são algumas das minhas coisas favoritas.
Póneis de cor creme e tortas de maçãs, Campainhas e sinos e panados com macarrão,
Gansos selvagens que voam com a lua em suas asas, Essas são algumas das minhas coisas favoritas.

Garotas vestidas de branco com fitas azuis, Flocos de neve que poisam no meu nariz e pestanas,
O branco e prata do inverno que derretem na primavera, Essas são algumas das minhas coisas favoritas.
Quando o cachorro morde, quando a abelha pica, Quando estou me sentindo triste,
Eu apenas me lembro das minhas coisas favoritas E então não me sinto tão mal.



Dó-Ré-Mi-Fá-Sol-Lá-Si---Dó-Sol-Dó!



sexta-feira, 18 de abril de 2014

PÁSCOA:
A Oportunidade do Encontro com Cristo


"Perguntei a Jesus o quanto Ele me amava. Respondeu-me: 'Tanto!'
E estendeu os Seus braços e morreu."


ENCONTRO AO CAIR DA TARDE

A festa tinha terminado mal. Caía a tarde do domingo.1 Cansados e taciturnos, dois viajantes voltavam para casa. Entre os farrapos da conversa entrecortada por frases incompletas, suspiros e silêncios, aflorava constantemente a realidade de um facto insuportável, que não conseguiam mencionar nem calar.
Cleofas e o seu amigo2 não podiam afastar do pensamento, a caminho de Emaús,3 a morte brutal do seu querido Mestre, na tarde da sexta-feira. As Suas últimas palavras, a Sua prisão, a Sua condenação, as Suas torturas. E aquele desfecho terrível da cruz.4
"Mais dilacerante do que a indignação pela morte de um inocente, do que dor pela perda de um ser querido, do que o medo de acabarem também eles por ser processados, era a constatação de haverem perdido repentinamente a sua fé e as suas esperanças. Tudo o que havia dado sentido à sua vida ficava agora sepultado atrás da pedra de um túmulo num pequeno cemitério.5
Mais desconcertante do que a própria vida do Nazareno tinha sido aquele inesperado desenlace. Se os Seus ensinos lhes haviam já perturbado todos os conceitos, a crucificação tinha acabado de os transtornar. Aquela morte atroz não entrava em nenhum cálculo imaginável. Eles esperavam um rei invencível e não uma vítima infeliz, mártir do perdão.6
Aquele final, tão infame como absurdo, sem resistência e sem glória, deixara-os completamente desorientados. Que o enviado de Deus fosse humilde, compreensivo com as crianças e as mulheres, amigo dos pobres e amável com os Seus inimigos, já lhes tinha sido difícil de aceitar. Mas que o Libertador de Israel não tivesse sido capaz de Se libertar a Si mesmo, que o Salvador não tivesse feito nada para Se salvar, que o Messias prometido tivesse sido assassinado no patíbulo dos mais abjectos criminosos,7 que o Rei esperado para resgatar o Seu povo do jugo do inimigo tivesse sido executado pelos romanos, era demasiado escandaloso para se poder acreditar. Se Deus existia, se Ele se importava com Israel, era impossível que tivesse consentido semelhante crueldade com Jesus de Nazaré.
Com certeza se tinham enganado. Tinha sido uma ilusão. Um inadmissível equívoco... Devia ser essa a verdade. Tudo havia terminado. E agora regressavam à sua realidade sem futuro. Para o seu vazio de antes. Com o passo pesado de quem já não tem forças para continuar, nem pressa de chegar, porque não vê nada na sua frente...


De súbito, uma terceira sombra aparece no caminho. Um viajante solitário que os alcança e decide acompanhá-los na caminhada. O forasteiro não lhes parece completamente desconhecido, embora não consigam perceber exactamente porquê.
Este caminhante ganha a confiança deles e, do modo mais natural, pergunta-lhes:
- Que assunto é esse sobre que tendes vindo a conversar pelo caminho?8
Incapazes de falar de outra coisa, põem-no ao corrente dos acontecimentos que os entristecem. O seu novo acompanhante deixa-Se informar, arriscando-Se a que Lhe digam:
- És a única pessoa de passagem por Jerusalém que não ficou a saber o que ali aconteceu nestes últimos dias?9
Aqueles homens angustiados têm muito que contar. O forasteiro escuta atentamente o relato que lhe fazem. Parece compreender a profundidade do sofrimento deles, porque não diz uma palavra. Deixa-os falar.
Os homens contam, aos retalhos, a sua dor e a sua desilusão. Falam-Lhe de Jesus, o seu admirado Mestre, "um Profeta extraordinário em obras e palavras, diante de Deus e diante do povo",10 de como os sacerdotes O entregaram para ser condenado à morte, de como O crucificaram... e de como foi sepultado, naquele túmulo que não Lhe pertencia.
- Já faz hoje três dias...
O tempo tem um terrível poder de erosão. Três dias chegam para acabar com a segurança e as convicções destes homens de fé. O desaparecimento do cadáver, complicado pela inverosímil hipótese de um milagre, fê-los afundar ainda mais na confusão.
- Algumas mulheres do nosso grupo foram de manhã cedo ao sepulcro e, como não encontraram o Seu corpo, vieram dizer que uns anjos lhes tinham dito que Jesus estava vivo. Alguns dos nossos correram logo para o local e, realmente, como as mulheres tinham dito, o corpo não estava ali. O túmulo estava vazio...11
Da dolorosa descrição dos factos passam à ainda mais penosa confissão pessoal:
- Nós esperávamos que fosse Ele o libertador de Israel...12
O viajante esperara este momento em que o coração ferido, vencidas já as suas reservas, se abre de par em par, deixando a descoberto as suas ilusões frustradas, as suas perguntas sem resposta.
Quando os caminhantes já chegaram ao fundo, náufragos da sua impotência, quando já disseram tudo, o forasteiro sabe que não têm mais remédio senão escutar. Depois das más notícias dos homens - de morte e de injustiça -, chegou o momento de lhes dar as últimas notícias. Notícias de Vida e de Esperança.
O forasteiro tem uma mensagem da Bíblia para quem já não acredita em nada. E aquilo de que necessitam: uma mensagem de ânimo, que os ajude a entender a sua inquietante realidade.
Nas Suas palavras, que já conhecem e ao mesmo tempo lhes parecem novas, os acontecimentos da véspera vão tomando perspectivas inesperadas. O repugnante crime acaba por ser mais do que apenas um crime. A vítima, mais do que apenas uma vítima. O Seu sacrifício, mais do que apenas um sacrifício. E nas suas mentes ofuscadas pelas sombras da cruz, uma luz irresistível começa a despontar.

Os velhos oráculos tornam-se uma promessa. A história inaceitável transforma-se num testemunho irrefutável. Na perspectiva dos desígnios divinos, a tragédia, o escândalo, a cruz e o túmulo vazio, assumem um aspecto novo. À luz das profecias a figura de Jesus de Nazaré vai-se definindo como o Libertador esperado.
- Não estava dito que o Messias teria de padecer tudo isto para entrar na Sua Glória?
13
Eles escutam-no, ouvindo sem replicar. Alguma coisa, no seu íntimo, lhes diz que o forasteiro tem razão. Que Deus não podia enganá-los. E do fundo do seu ser vai renascendo a fé, em borbotões de esperança, como um verdadeiro manancial que não se pode conter. Os textos mais do que conhecidos tomam nos Seus lábios um sentido tão claro que agora lhes parece mentira não o terem percebido antes.

O Messias incompreendido, rejeitado e crucificado pelos seus, estava anunciado nas Escrituras. Encarnando a terrível experiência do Servo sofredor descrito pelos profetas, o Salvador prometido, de um modo misterioso, através do Seu martírio, redimiria os homens.14
O caminhante acaba a Sua explicação, convidando-os com uma pequena e amável censura a reconsiderar as Escrituras, e a crer na sua incrível mensagem. Terminada, aparentemente, a Sua missão, começa a despedir-se dos que já chegaram ao seu destino. Mas conquistou-lhes de tal maneira o afecto, que aqueles homens emocionados não O deixam ir-Se embora:
- Fica connosco esta noite, que já é muito tarde. Explica-nos mais coisas. Não nos deixes.15
Temem talvez que, sem Ele, tudo volte a ser como antes? Têm medo de voltar a encontrar-se sós na noite das suas dúvidas? O forasteiro aceita-lhes o convite como se já o esperasse, e entra na casa deles para beneficiar da sua hospitalidade.
Depois de lhes ter reconfortado as almas aflitas, chegou o momento de lhes alimentar os corpos famintos. Toma o pão, abençoa-o e começa a reparti-lo...


Naquele instante os discípulos descobrem, atónitos, no estranho visitante o próprio Jesus.16
Não haviam conseguido reconhecê-lo pelas feições do rosto, nem pelo brilho do olhar, nem pelo tom da voz, mas bastou ver-Lhe as mãos marcadas pela maldade humana (uma maldade a que já não se sentiam alheios), abertas naquele gesto familiar de solidariedade, para que a ofuscação da mente desaparecesse e os olhos se lhes abrissem para a realidade espiritual e se encontrassem face a face com o esplendor do Ressuscitado. E eles, que não tinham sabido reconhecer Jesus no Caminhante, nem no Mestre, reconhecem-no finalmente pelo gesto íntimo do Amigo que lhes reparte o pão.
- Não nos ardia o coração enquanto nos explicava as Escrituras pelo caminho? Como não fomos capazes de vê-l'O antes?17
Estes discípulos tinham seguido Jesus durante vários anos. Tinham adquirido uma excelente formação religiosa. Tinham valiosas convicções. Mas naquela tarde tinham perdido de vista o seu Guia. Não foram capazes de reconhecê-l'O porque não esperavam voltar a encontrar-se com Ele.

Como a eles, também a nós a incredulidade e os problemas turvam às vezes a visão. Lamentamos a ausência de Deus na nossa vida, mas os nossos olhos estão cegos para todos os indícios do Encontro. Nem no culto comunitário mais inspirador, nem nas nossas orações mais íntimas, conseguimos perceber a presença divina ao nosso lado.
Quem nunca percorreu o doloroso caminho que se afunda nas trevas do desespero? Quem não conhece a angústia de voltar para trás e caminhar às escuras, perdido e sem ajuda? Quem não sofreu alguma vez por sentir a ausência de Deus? Quem nunca se afastou, na sua vida, desse Deus que parece guardar silêncio?
A queixa de que parece que Deus nos abandona no momento em que mais necessitamos d'Ele solta-se, dolorosa e repetida, dos lábios daqueles que mais se revoltam contra a injustiça e a miséria do mundo. Essa foi a única queixa de Jesus, agonizando na cruz:
- Deus meu, Deus meu, porque Me desamparaste?18

O homem, por mais forte que seja, sente que sozinho não pode fazer frente ao revoltante sofrimento de um mundo onde o mal parece triunfar sempre. Sente que necessita desesperadamente da ajuda de Alguém para poder manter-se firme na luta que acha ser necessária e que não tem sentido sem esse Alguém. A experiência mostra-lhe que é preciso mais valor do que aquele que lhe é possível tirar das suas forças para crer e fazer alguma coisa por um mundo melhor, quando tudo parece opor-se e a maldade prevalece. Que é preciso mais fé do que aquela que é capaz de encontrar por si mesmo para se empenhar numa luta cuja nobreza o encanta mas cujo fim não vislumbra.

O silêncio de Deus é uma pedra de escândalo para a maioria. A uns serve de pretexto para se desinteressarem de tudo o que não seja eles mesmos. A outros permite aventar a hipótese da não existência de um Ser supremo.
Para quem deseja crer, o silêncio de Deus é a prova mais dura da sua fé:
- Se Deus não me escuta, se não me responde, que terei feito? Porque será? Porquê?

Job debateu-se no centro dessa angústia que todos nalgum momento experimentamos, até que descobriu que a censura dos homens ao silêncio de Deus é a de não nos responder como nós desejamos.19 A de não Se pôr ao nosso serviço em vez de nos pormos ao serviço d'Ele. Em suma, de não ser um Deus à nossa imagem e semelhança.
O nosso drama situa-se na rejeição de um Deus que deixa o homem ser homem e que, como Deus, nunca pode deixar de ser Deus. Que, empenhado na nossa procura, nos fala "muitas vezes e de muitas maneiras"20 mas quase sempre incógnito.
Por isso, não é da nossa atribuição julgar Aquele que é o amor e a sabedoria absolutos, pela nossa impressão das Suas intervenções ou abstenções no nosso caso particular. Baste-nos saber que, se não parece agir - do modo imediato e mágico que desejaríamos -, é porque respeita a nossa liberdade - a mesma que defendemos com tanto interesse noutros casos - e prefere agir por nosso intermédio, potenciando a liberdade, a responsabilidade e a fraternidade humanas.
Como os discípulos de Emaús, precisamos de aprender a ver e a ouvir, vencendo os obstáculos do silêncio divino e da surdez ou da cegueira humana, as revelações do Eterno presente.

Quando, como eles, temos a coragem de O convidar a partilhar a nossa existência, a Sua deixa de ser um problema e, em vez disso, transforma-Se na solução dos nossos restantes problemas, capaz de superar as nossas limitações, incluindo a morte. Momento crucial de presença descoberta, mas também de aceitação da ausência. Quando O descobrimos como - sempre - presente, pode desaparecer fisicamente do nosso lado, porque nos deixa a segurança da Sua presença espiritual. Já não é apenas Alguém importante na nossa vida: é a razão dessa mesma vida.21
O Mestre que ilumina sem se impor, cumprida a Sua missão, "desaparece", porque chegou a hora de o discípulo tomar o Seu lugar e preencher com a sua presença a ausência de Deus na vida de outros. Até que o Encontro se produza e que o intermediário possa, por sua vez, ceder o seu lugar. Não há que interferir na intimidade do amor...
Cleofas e o seu amigo, fortalecidos por aquele pão que talvez nem sequer chegassem a comer, recuperam prontamente a sua energia. Já não importam as distâncias, nem os obstáculos nem os temores. Sem esperar um instante, levantam-se e correm a cidade para dizer a todos os que encontrem, a começar pelos amigos, que Jesus, a quem todos julgavam morto, Ressuscitou e Vive Para Sempre.22 Para anunciar aos que sofrem, duvidam e procuram, perdidos na noite das suas lutas, que não estamos sós. Que Alguém está presente, ao nosso lado, esperando que O deixemos acompanhar-nos, por muito que nos desviem os nossos caminhos para qualquer Emaús.


VEM A MIM

A vida tem tristeza, temores e aflição. E nossos sonhos parecem em vão.
Se estamos tão cansados querendo desistir, O nosso Mestre assim nos diz:

Vem a Mim! Com eterno amor te amei, Vem a Mim! Com paciência esperei.
Minha vida dei e Me entreguei, Sofri a cruz por ti,
Volta já para o lar, E hoje vem a Mim.


Lutar, lutar, até cansar, Parece ser assim, Quando vivemos sem ver o fim.
Mas ao sentirmos a firmeza da mão que nos conduz, Não temeremos, nós temos Jesus.

Referências:
1. Texto baseado em Lucas 24:13-35 (cf. Marcos 16:12, 13); 2. Cleofas é talvez o equivalente semita abreviado do grego Kleopatros. Conhecemos com este nome o esposo de Maria, a mãe de Tiago e de José (Mateus 27:55, 56; Marcos 15:40), uma das mulheres presentes na crucificação (João 19:25). O anonimato do seu companheiro de viagem deu lugar a numerosas hipóteses; supôs-se até que pudesse ser a sua própria mulher que regressasse com ele a casa (K. Bornhauser, The Death and Resurrection of Jesus Christ. Bangalore, 1958, págs. 221, 222). A igreja antiga identifica este Cleofas com o irmão de José de Nazaré, o pai adoptivo de Jesus (Eusébio, História Eclesiástica, 3:11, 32; 4:22); 3. Se Emaús ficava a 60 estádios de Jerusalém (Lucas 24:13) - sendo o estádio equivalente a 180 metros -, a distância era de aproximadamente onze quilómetros. A localização desta povoação põe alguns problemas: Amawas está a 30 Km (isto é a 160 estádios como indicam alguns manuscritos). Josefo faz menção de uma colónia militar com o nome de Ammaus, fundada por Vespasiano a cerca de 30 estádios a oeste de Jerusalém (Guerra 7:217). Hoje o lugar que se supõe ter sido Emaús chama-se el-Qubeibe; 4. Sobre o relato da crucificação de Jesus, ver Mateus 27:1-56; Marcos 15:1-41; Lucas 23:1-49; João 19:1-37; 5. Sobre a sepultura de Jesus, veja-se Mateus 27:57-61; Marcos 15:42-47; Lucas 23:50-56 e João 19:38-42; 6. Na cruz, Jesus tinha orado pelos seus algozes, dizendo: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem" (Lucas 23:34); 7. Não podemos esquecer que Jesus foi executado oficialmente, no lugar de Barrabás, que era acusado de sedição e homicídio (Lucas 23:13-25), e que foi finalmente crucificado entre dois malfeitores (Lucas 23:32), salteadores ou bandidos (Mateus 27:38; Marcos 15:26); 8. Lucas 24:15-17; 9. Lucas 24:18; 10. Lucas 24:19, 20; 11. Lucas 24:22-24; 12. Lucas 24:21; 13. Lucas 24:25-27 (cf. 44-48); 14. Entre os textos de Moisés a que Jesus faz alusão, podemos citar Génesis 3:15 e 22:18; Números 21:9; Deuteronómio 8:15, 18, 19; e entre os dos profetas Isaías 40:10, 11; 50:4-7; 52:13 a 53:12; 61:1-3; 63:1-6; Jeremias 33:14-16; Daniel 9:24-27; Miqueias 5:2; Zacarias 9:9 e 12:10; 15. Lucas 24:28, 29; 16. Lucas 24:30, 31; 17. Lucas 24:32; 18. Mateus 27:46; Marcos 15:34 (citando Salmo 22:1). Sobre o sentimento de solidão e abandono de Jesus na cruz, veja-se E. G. White, O Desejado de Todas as Nações (Publ. Atlântico, 1992), pág. 823; 19. Job 42:1-6; 20. Hebreus 1:1-3; 21. Ver como Paulo formula esta experiência em Gálatas 2:20; Filipenses 1:21; 4:13; Colossences 1:27 e 3:3, 4; 22. Lucas 24:33-35. Cf. E. G. White, O Desejado de Todas as Nações (Publ. Atlântico, 1992), pág. 847.

DESPEDIDA ENTRE AMIGOS

A notícia espalhara-se com a rapidez de um relâmpago. Era uma notícia inacreditável, mas sabiam que era verdadeira. Não apenas porque desejavam intensamente que o fosse (como pretendiam aqueles que acreditavam n'Ele), mas porque qualquer pessoa que tivesse conhecido Jesus a fundo, sabia que tinha de ser assim. Jesus não era um sonho da sua imaginação, mas a mais sólida das suas realidades.1
- Por isso se tinham reunido naquela noite,2 na intimidade e no recolhimento expectante daquele sótão,3 os seus seguidores e amigos, desafiando a perseguição decretada por aqueles que não queriam que tivessem razão4 e continuavam a procurar argumentos e a montar guarda a um túmulo vazio.
Todos ali estavam porque um dia, desde aquela primeira vez que se dera a conhecer junto ao Jordão, O tinham encontrado. Era isso que, na realidade, os unia: a amizade de Jesus.

- Camponeses, pescadores, artesãos, donas de casa, funcionários, médicos, militares, operários, mendigos, estrangeiros. Pobres e ricos. Homens e mulheres. Velhos e jovens. Todos juntos. Mais de quinhentos.5
- Ali estava José de Arimateia,6 com outros aristocratas e intelectuais fariseus7, excluídos do Sinédrio, excomungados8 por terem abraçado a nova seita,9 decididos a usar toda a sua influência e talentos fazendo causa comum com os apóstolos do Nazareno.
- Ali estava um centurião romano10 e vários soldados que tinham deposto as armas para se alistar na luta pela paz.
- Ali estava Simão com outros terroristas que tinham fugido à prisão e sobrevivido aos seus atentados, militando agora, com mais valentia do que nunca, já não pela sua ideia de pátria, mas por uma liberdade sem fronteiras nem classes, mais ampla do que todas as liberdades civis.
- Ali estava também Mateus, o ex-cobrador de impostos, com os seus colegas banqueiros, empenhados agora não em aumentar a sua riqueza mas em partilhá-la e em convencer os seus antigos clientes de que o investimento mais rendoso é no tesouro do céu, onde as poupanças estão definitivamente seguras.11
- Ali estava a Madalena12 e várias ex-prostitutas famosas, quase irreconhecíveis, passando despercebidas, libertas, vivendo agora por e para outra espécie de amor.
- Ali havia inclusivamente alguns essénios,13 expulsos do seu mosteiro por terem compreendido que Deus prefere a vida a qualquer espécie de mortificação, e a fraternidade a qualquer espécie de ascetismo.

Eles Ali Estavam, Tão Diferentes Uns Dos Outros, Unidos, Apenas, Porque Um Dia Se Dera Um Grande Encontro Na Sua Vida.

Jesus tinha-os encontrado porque sabia ver e escutar:
- Porque atrás da máscara maquilhada de uma mulher da vida percebeu um pedido de ajuda, diante do qual não quis ficar indiferente.
- Porque atrás dos obstinados argumentos de um doutor da lei percebeu uma insegurança profunda e um desejo sincero de encontrar a verdade.
- Porque no tremor de um homem empoleirado numa árvore percebeu a sede espiritual de um marginal que não suportava mais a sua solidão.
- Porque nos remoques irritados de Marta soube entrever uma enorme necessidade de ser aceita e de encontrar uma escala coerente de valores.
- Porque atrás da curiosidade intelectual de um jovem elegante Jesus descobriu a angústia de um ser insatisfeito, em conflito entre os seus interesses egoístas e a sua sede de ideal.

Que Teria Sido De Cada Um Deles Se Não Tivessem Encontrado Jesus?

- Que teria sido de Maria de Betânia? Teria acabado por ser apedrejada em público pelas pessoas decentes do seu povo, ou continuaria a mesma vida no seu bordel até desaparecer na miséria do esquecimento ou de alguma doença fatal...
- Que teria acontecido ao gadareno e aos outros endemoninhados se não tivessem sido salvos do abismo da sua possessão? Durante quanto tempo os teriam torturado os seus exorcistas até à perseguição e à fogueira que lhes traria a libertação final?
- Que teria acontecido à fé e ao equilíbrio do pai do surdo-mudo, diante do sofrimento sem solução de um filho doente incurável?
- Que teria sido de Nicodemos e de outros teólogos, se não tivessem encontrado a chave da explicação das Escrituras e o verdadeiro sentido da religião? Teriam seguido a fé ou continuado a interpretar utopicamente a Bíblia, à espera da solução dos problemas humanos com a ditadura final de um supermessias?
- Que teria sido de Zaqueu, o chefe dos publicanos, se não tivesse descoberto o segredo da sua felicidade? Por quanto tempo teria continuado a defraudar o fisco e a extorquir os contribuintes para se vingar da amargura da sua frustração?
- Enfim, que teria sido de João, de André, de Cleofas e do seu amigo, e dos demais jovens ricos - ou pobres -, se não tivessem encontrado em Jesus o sentido da sua existência?
Ninguém poderia sabê-lo, nem mesmo eles próprios. Que importava isso agora, se Jesus lhes tinha vindo ao encontro e dado às suas vidas um rumo novo? Também ninguém poderia dizer de que maneira teria Jesus chegado mais uma vez até àquele sótão cheio de recordações.14 Mas que importava isso, ao fim e ao cabo? O essencial é que Ele estava ali com eles. Esse era um milagre, mas não seria um milagre ainda maior que eles ali estivessem com Ele?

O mais prodigioso é que o último encontro que teve com os seus primeiros amigos também dizia respeito a nós, porque Jesus lhes confiou a missão de partilhar com todos o que tinham aprendido nos seus Encontros com Ele.15 E também o encargo de nos dizer que O esperemos, porque voltará. Tão importante notícia não podia ficar no esquecimento entre os legados das memórias dos amigos de Jesus, nem nos arquivos da sua teologia. Estimulados pela alegria e pela urgência, correriam a difundi-la aos quatro ventos. Uns de viva voz. Outros por escrito. Alguns à custa da própria vida.
Aqueles homens e mulheres - nem mais crédulos nem mais dotados do que os outros - seriam capazes de desafiar todos os riscos para nos falar de Jesus, impelidos pela certeza de que cumpriria a Sua promessa.
Ele partiu, deixando aberta de par em par a porta da esperança, insistindo em que haveria de mantê-la sempre aberta. Sem muitas explicações, como Lhe era habitual, dando a entender que, ainda mais do que ser compreendido, para Ele era importante ser esperado. Em vez de nos incitar a olhar para trás, tornando-nos tributários de um passado cada vez mais distante, preferiu convidar-nos a observar o horizonte,

UNIDOS NA ESPERANÇA DO GRANDE DIA, cada vez mais próximo, em que voltará a reunir-nos num Encontro entre Amigos,
QUE NUNCA TERÁ FIM!"16

Unidos, porque enquanto a humanidade tende a instalar classes, categorias, hierarquias ou escalões, Ele apenas quer amigos. Porque enquanto o tempo acumula tradições, instituições e sistemas, Ele prefere manter um corpo unido, uma comunidade e uma família. Porque enquanto somos propensos a lançar os nossos anzóis rivais, Ele deseja lançar uma única rede. Porque enquanto tão facilmente descarregamos as nossas responsabilidades sobre um magistério, um corpo profissional ou um sacerdócio, Ele prefere, muito mais, o nosso testemunho directo.

Jesus assim o quis, porque sabia que, sem a nossa intervenção pessoal, faltaria sempre aos Encontros dos Evangelhos a emoção da transmissão directa. Por isso nos deixou o cuidado de lhes emprestar, todas as vezes, a voz, o coração e a força.

A ÚLTIMA PÁGINA DO EVANGELHO CONTINUARÁ INCOMPLETA ENQUANTO LHE FALTAR O TEU ENCONTRO

Referências: 1. Sobre os relatos da ressurreição, ver Mateus 28:1-15; Marcos 16:1-15; Lucas 24:1-12 e João 20:1-18; 2. Texto baseado em Lucas 24:33-53 e João 20:19-33; 3. Actos 1:3, 4, 13, 14; 4. João 20:19; Mateus 28:11-15; cf. Actos 41:1-31; 5:17-42; 5. I Coríntios 15:6; 6. Mateus 27:57-61; Marcos 15:42-47; Lucas 23:50-56; João 19:38-42; 7. João 19:39 cita Nicodemos entre os "príncipes" ou "principais" judeus (cf. João 3:1). Actos 6:7 fala de numerosos sacerdotes convertidos ao cristianismo, e Actos 15:5 menciona fariseus membros da nova igreja; 8. João 9:22, 34, 35 atesta que a ameaça de excomunhão por conversão ao cristianismo já existia enquanto Jesus ainda estava vivo; 9. O primeiro nome dado ao grupo dos discípulos foi "o caminho" (Actos 19:9, 23; 16:17; 18:25, 26; 22:4), logo a seguir considerado como uma seita (Actos 24:5; 28:22). Os discípulos de Jesus começaram a ser chamados "cristãos" pela primeira vez em Antioquia (Actos 11:26), talvez a partir da perseguição decretada por Herodes Agripa entre os anos 41 e 44 (Actos 12:1-3); 10. Hipótese baseada em Mateus 27:54; Marcos 15:39 e Lucas 23:47; 11. Ver Mateus 6:19-21; 12. O testemunho unânime dos evangelhos considera Maria Madalena a primeira testemunha do Ressuscitado (Marcos 16:9-11; cf. 1-8, 12-14; João 20:11-18; cf. Mateus 28:1-10.); 13. À parte o mosteiro de Qumran, a maior comunidade de essénios de que tenhamos conhecimento é a de Damasco. Em 1897, descobriu-se no Cairo um livro intitulado O documento de Damasco (ou Documento Sadoquita, publicado em 1910), que descreve a "comunidade da nova aliança" que devia instalar-se em Damasco, e que tem muito em comum com a Regra da Comunidade de Qumran. Uma importante conversão de essénios ao cristianismo em Damasco explicaria que Saulo de Tarso aí tivesse organizado uma perseguição (Actos 9:1-27; 22:1-16; 26:12-20); 14. Ver Lucas 24:36-49; cf. João 20:19-23; I Coríntios 15:6. O grande aposento superior de Jerusalém poderá ter sido o mesmo em que tivera lugar a Santa Ceia (Lucas 22:12-23) e a efusão do Espírito Santo no Pentecostes (Actos 1:12 a 2:5). Actos 1:3 diz que Jesus, depois de ressuscitar, deu aos discípulos "muitas provas" da Sua ressurreição "no espaço de quarenta dias"; 15. Ver Mateus 28:16-20; Marcos 16:14-18; Lucas 24:44-49; João 20:21-23; cf. Actos 1:1-8. No texto grego de Mateus, os diferentes elementos da ordem de Jesus não têm a mesma função na frase. Estão todos subordinados a "fazer discípulos". Por conseguinte, Jesus dá uma única ordem: "Fazei discípulos de todas as nações" e explica como o conseguir: indo, ensinando e baptizando; 16. João 14:1-3; Apocalipse 22:20.



Roberto Badenas, Escritor com livros publicados em vários países. Professor de Teologia, licenciado em França e com Mestrado e Doutoramento nos EUA. Exerce neste momento a sua atividade como professor na Facultad Adventista de Teología em Espanha (Links 3I). Textos do seu excelente livro ENCONTROS - um livro recheado, também, de psicologia. Publicadora Atlântico, S. A., Lisboa, Portugal, 1998.

quarta-feira, 19 de março de 2014

O FILHO DO MEU VIZINHO


Estamos no Outono. Tudo na minha aldeia respira serenidade, e o mesmo acontece com a estrada aonde o nosso caminho vai morrer. As crianças regressaram da escola; as mais crescidas e as mais pequenas; as principiantes para as quais a escola é motivo de assombro porque nada sabiam dela, e as mais adiantadas, as do ensino secundário, que já a conhecem por dentro e por fora e fervem de impaciência na antecipação do novo ano, em que têm de optar por um novo caminho, seja ele a carreira, a universidade ou o emprego.
No interior dos lares, nas quintas ou nas ruas, também os pais se sentem cheios de preocupações. O Verão trouxe-lhes um convívio mais íntimo com os filhos; daí um sentimento de orgulho, de vago sobressalto, de exasperação ou de esperança. Nunca houve para os pais época mais difícil do que esta em que vivemos. Todos conhecemos demasiadamente bem esta verdade: o mundo que os nossos filhos vão enfrentar não é aquele que, com a mesma idade, encontrámos. Por, isso, duvidamos da nossa aptidão para os ajudar. E eles, por seu lado, acham que os pais são pouco esclarecidos.
Existiu sempre nos jovens uma fase em que eles se sentem incompreendidos, enquanto a maturidade não se encarrega de os brindar com o estado de espírito comum a esta fase da vida e com a sensatez capaz de afugentar os miasmas. Contudo, os nossos filhos acusam, cada vez com maior intensidade, a dolorosa febre de uma independência crescente. Chegam afinal à seguinte conclusão: os pais e os professores não sabem o suficiente deste nosso mundo em rápida transformação para merecerem confiança; por isso, serão eles próprios - os jovens - quem se encarregará de apurar a autenticidade dos factos.

Conscientes deste afastamento, os pais leem os periódicos e ficam sabendo o que se passa com os filhos dos outros. Leem notícias acerca de rapazes - não crianças mas jovens - que dão em roubar, torturar e assassinar pessoas inocentes que nem sequer conheciam. E, afinal, muitas vezes não se trata de filhos de pais desonestos. Podem ser filhos de gente respeitável e trabalhadora que se esforça por construir para os filhos bons lares de ambiente aceitável. Esses pais recusam-se a acreditar que os jovens algemados pela polícia sejam os seus filhos.
- Foram sempre tão bons rapazinhos! - exclamam esses pais.
- Porque os deixaram andar a vadiar pelas ruas? - contrapõe a polícia. - Porque não trataram de apurar por onde andavam eles à meia-noite?
E os pais não sabem que responder. Quem conhece os adolescentes de hoje - não só os rapazes como igualmente as raparigas - sabe que não é fácil conseguir saber onde eles se encontram à meia-noite. Como não depositam confiança nos pais, não os respeitam. Afirmam a sua independência e pensam que dela faz parte andarem por onde lhes apetece. Que poderá fazer um casal de meia-idade quando um filho robusto e com um corpo já de homem, se recusa a obedecer? Que espécie de castigo poderá aplicar uma pessoa de idade a um jovem? Este ri-se das ameaças paternas e despreza toda e qualquer espécie de exortação.
- Não estou disposto a aceitar leis de ninguém - eis o que ouvi gritar a um jovem na casa de um excelente homem, seu pai e meu vizinho.
O rapaz, que mede cerca de um metro e noventa, largou de casa enquanto o pai ficava a olhar para mim.
- Que hei-de eu fazer? - perguntou, desanimado.
- Não faço ideia nenhuma - respondi eu, igualmente descoroçoada.
De regresso a casa, fiquei-me a reflectir na pergunta e na minha resposta. Conhecendo o pai como conheço, senti, ainda assim, pena do filho e, conhecendo este, achei-me do mesmo modo a lamentar o pai. Como foi possível que o filho do meu vizinho, que conheci quando ele era um bebé de caracóis a ensaiar os primeiros passos, se convertesse naquele rufião? Era, nessa altura, um bebé simpático; sorridente e afável. Hoje nada possui de simpático, e o seu sorriso, geralmente, não passa de uma careta de sarcasmo. Que terá acontecido? Os pais são criaturas simples e boas. A mãe tirou um curso secundário; o pai andou na escola técnica e ganha um bom ordenado como mecânico. Têm mais dois filhos: uma rapariga nos primeiros anos de um curso secundário e um rapaz mais novo. Também esses foram bebés sorridentes, mas também eles se encontram actualmente longe de ser crianças felizes. E, no entanto, o seu lar é bastante agradável e desfrutam daquele conforto que hoje se considera imprescindível. A família frequenta a igreja com certa regularidade, embora os filhos considerem essa mesma igreja mais como um centro social do que como uma fonte religiosa. A mãe nunca trabalhou fora de casa. Raramente vai a algum lado excepto à reunião mensal do seu clube; é boa cozinheira e excelente dona de casa. A família lê muito pouco, mas gostam de música popular e possuem um televisor que, de vez em quando, ocasiona discussões pois os pais não gostam de ver os filmes de violência que os filhos apreciam como espectáculo.
Que as crianças de hoje adorem cenas de violência - eis um facto significativo. É por albergarem na alma uma irritação de tal modo cravada lá no fundo que nem dão por ela. A sua ânsia é atingirem violentamente, mesmo que seja de forma indirecta, um mundo que os aterroriza. Eis o perigo! A juventude, quando feliz, adora a vida e a beleza.

Que haverá de errado em casa do meu vizinho? Quem quer que lá entre dirá que se trata de um lar extremamente agradável. Tudo o que em termos de mobiliário e de equipamento se considera digno de um lar ali se encontra, e o mesmo parece acontecer em relação aos pais e aos filhos. Mas, quando lá se permanece por algum tempo, invade-nos a estranha sensação de nos encontrarmos numa casa vazia. Verdadeiramente, nada ali existe de vivo, a não ser talvez a mãe na cozinha. Não sei por que motivo a casa me dá a impressão de vazia. Depois de reflectir um pouco sobre o assunto, parece-me que ela não se encontra integrada na corrente da vida dentro da comunidade, da nação e do próprio mundo. É uma espécie de ilha isolada, que luta pela sobrevivência nesta rápida maré de transformações. Mas nós - seres humanos - precisamos uns dos outros, quer dos vizinhos quer do nosso semelhante longínquo. O alheamento do indivíduo, ou da sua nação ou da sua raça, seja ele voluntário ou forçado, conduz a resultados perigosos. É-nos necessário alimentarmo-nos constantemente da corrente da vida humana: de outra forma, morreremos à sede.
A rebelião do filho do meu vizinho é inevitável e justa. Revolta-se - inconscientemente - e portanto com toda a sua energia - contra o jazigo que é a sua casa. Nada tem que fazer dentro dela. Ah, sim, há certos trabalhos, mas porque esforçar-se em proveito de uma sepultura? Que sentido tem para ele manter limpo o carreiro de casa, lavar janelas ou varrer a cave? Tudo isso não passa de partes da mesma sepultura.
Já lhe interessa lavar o carro e até passar um ou dois dias a tratar dele porque num carro existe vida. Pode até levá-lo para longe de casa. Mas dentro desta tudo se mantém, tanto quanto ele se lembra, imutável. Em vinte anos, o pai não mudou de maneira de ser nem de opinião, e vinte anos para o rapaz representam uma vida. A mãe, essa fala pelos cotovelos mas não tem, na opinião do filho, ideias para além do custo da vida e do desejo de ter um frigorífico novo que o pai não lhe pode comprar. O filho é demasiado jovem para compreender a singela sabedoria da filosofia paterna e a atitude concordante da mãe.

Descobriram os pais que uma taça só pode receber o que nela caiba. E uma chávena de cozinha e uma chávena de vida são a mesma coisa. Só contêm aquilo que podem conter. Os pais contentaram-se com o que têm. É, afinal, uma modalidade de sabedoria. Chamem-lhe resignação se assim o entenderem.
Mas os jovens não se podem resignar, a não ser que os tenham magoado ou deformado. Recusam-se a acreditar que a vida, não seja mais do que o conteúdo de uma taça. Tem de haver mais lá fora, em qualquer sítio, que não em casa. Há-de haver alegria, paz, segurança, camaradagem, compreensão e comunhão de ideias. Se assim não fosse, de que valeria nascer? E os jovens têm razão. É que também eles possuem a sua sabedoria.
Nesse dia, o meu vizinho viu aquele filho, tão alto e tão forte, saltar para dentro do carro da família e afastar-se a toda a velocidade. Li-lhe nos olhos um desânimo gelado e no rosto um profundo desespero.
Eis o que me disse então o meu vizinho:
- Devíamos tê-lo mandado para o Exército aos dezasseis anos.
Protestei contra semelhante abdicação.
- Oh, não diga isso! Isso significa que não sabemos construir um mundo que tanto sirva para os novos como para os velhos.
- Fiz quanto pude - tornou ele. E, voltando costas, entrou em casa e fechou a porta.
Aquela casa encontra-se realmente vazia, e eu não censuro o filho por saltar para dentro do carro e se afastar dali. Contudo, sei que o meu vizinho tem razão quando afirma ter feito quanto lhe foi possível. Encontra-se a braços com uma tarefa de tal modo gigantesca que não existe homem capaz de a realizar.

Toda a comunidade deverá ajudar os pais neste problema dos filhos e das filhas. Os professores não se podem limitar a ensinar nas escolas; os pregadores, a salvar almas; a polícia, a prender os delinquentes; os pais citadinos, a ocupar-se simplesmente dos problemas da cidade. A todos eles cumpre unirem-se para ajudarem os pais a modelarem os filhos.
Nos países antigos, em que a unidade social é uma grande família, em que os avós e os pais, tios, tias e primos vivem todos juntos e funcionam como uma comunidade, as crianças pertencem a todos. A comunidade familiar é, em si própria, o fluxo da vida, que vai desaguar na nação e no mundo. Mas, duas pessoas que lutam pelo sustento diário, na nossa sociedade altamente competitiva e numa época flutuante, não podem, simultaneamente alimentar, vestir, educar, treinar e inspirar uma família de crianças irrequietas e cheias de vida.
Não há dois pais que possuam força para tanto. E quando digo educar, refiro-me à educação nos seu sentido mais lato, pois aquilo de que os professores dispõem para ensinar a criança é muito pouco, comparado com o que os pais, se forem conscienciosos, lhe podem ensinar.

Na China pré-comunista, por exemplo, as responsabilidades do professor eram muito maiores do que entre nós. Quando um pai levava um filho à escola, dava-o em certo sentido ao professor. Dizia-lhe, efectivamente: "É seu, não só para que o ensine mas também para que faça dele um homem honesto." Os professores compartilhavam com os pais a responsabilidade de formar o carácter dos jovens. Além disso, também a memória dos antepassados ajudavam os pais. Os preceitos passavam de geração em geração e eram respeitados pelos jovens e pelos velhos, e o filho obedecia à memória dos seus antepassados mortos como se curvava perante os avós e os pais vivos.
Se o meu vizinho tivesse vivido na velha China, disporia de vintenas de pessoas para o ajudar a educar o filho, o qual haveria de sentir-se então ligado a todos e, por esse facto, parte integrante da corrente da Humanidade. Em vez disso, o meu vizinho, tem de lutar quase sozinho, pois conta apenas com a perturbada ajuda da mãe do rapaz e com o interesse intermitente da igreja e da escola. Claro que sinto muita pena do meu vizinho, pois ninguém o ensinou a ser pai. Passou anos a aprender o ofício de mecânico. E, contudo, dessas duas ocupações, é a paternidade a mais difícil e importante.
Quanto à mãe, o que menos importa dentro da função maternal é cozinhar e governar a casa. E ninguém ajuda estes pais, nem os mortos nem os vivos. Contudo, há quem os censure pelos actos do filho. E, apesar da sua perturbação e sensação de derrota, continuam com as suas tentativas.

Claro que o rapaz está fora da razão quando despreza os pais e os considera incapazes de o ajudarem. Não faz ideia alguma de como eles se sentem atormentados ao pensarem nele, e quanto lhe querem. Também é certo que não espero encontrar tamanha sensibilidade nos rapazes e raparigas de hoje. Esta nossa época está longe da sensibilidade, tantas foram as atrocidades que nos endureceram. Contudo, um filho deve a si próprio o ser delicado e cooperante em relação aos pais, isto ainda que não os ame e respeite. Ao proceder malcriadamente, ao negar colaboração aos pais, está a ser desleal para consigo próprio. Mas - ao que parece - ninguém se deu ao trabalho de lhe ensinar tais coisas. Além disso, ele não sabe que o sentimento pode-se seguir à acção ou que a acção se deve basear em princípios e não em sentimentos.
- Então sou obrigado a dizer que estou arrependido quando não estou? - perguntou-me, certo dia, um dos meus filhos depois de ter procedido mal para com a irmã mais nova.
- Claro que deves dizer que estás arrependido, quer o estejas quer não - respondi. - Tens de proceder bem, seja qual for a tua maneira de sentir. Não podes forçar-te a sentir o que não sentes, mas podes proceder bem sintas o que sentires. E vais ficar admirado quando, por te teres habituado a dizer que estás arrependido, acabares afinal por lamentar sinceramente o que tiveres feito.
Pela minha parte, aprendi este preceito há muitos anos quando era criança e o meu mestre, um velho altamente sabedor, não pertencia nem à minha raça nem à minha religião. E durante toda a minha vida o achei sempre verdadeiro.
Tendo actuado sem delicadeza ou respeito para com o pai, que prazer sentirá o filho do meu vizinho durante a tarde em que se ausentou, esteja ele onde estiver? Vai descendo a rua a toda a velocidade, envolto num torvelinho de poeira, e o meu coração acompanha-o, pois receio bem que ele não vá encontrar aquilo por que realmente suspira: a integração na corrente da vida humana. Vai passar a tarde no campo de futebol e, depois, com os amigos a quem ele chama "a malta", encaminha-se para a garagem, actual substituta da loja da aldeia ou dos bares da cidade, onde se falará dos golos do jogo, da vontade de continuar com os estudos secundários ou de desistir dos mesmos, das fitas que tencionam ver, das raparigas suas conhecidas, dos empregos em que o serviço é mais fácil e mais susceptível de os manter afastados da obrigação de matar homens que nunca viram.

É um facto promissor, este de a maior parte dos jovens não querer matar. Sim, quanto a isso, eles continuam relutantes. Não acredito que esses rapazes da notícia que hoje li no jornal da manhã, que vagabundeavam pelas ruas da cidade, espancando, torturando e matando gente que nem conheciam, desejassem realmente praticar crimes semelhantes. Matar o próximo não está na natureza do homem. Esses rapazes já não podiam certamente aguentar o aspecto cruel do mundo à sua volta e, no desamparo da sua juventude, tentaram agarrar o que eles supunham ser a vida.
Se, algum dia, têm de ser arrastados para a violação de todos os instintos naturais, então que seja agora. Queriam a vida fosse como fosse. Podia essa ânsia ter assumido outro aspecto - o de salvar vidas - se alguém lhes tivesse mostrado que, mesmo hoje em dia, pode continuar a subsistir uma possibilidade ardente de paz e de boa vontade.
No cérebro desses adolescentes trágicos não houve raciocínio consciente elaborado: na sua ignorância, confundiram a morte com a vida. O que devemos temer é o raciocínio absurdo provocado pelo desespero do jovem que julga não poder escapar ao que prevê; teme e odeia e, por esse motivo, precipita-se ao encontro do que o atormenta. E, ao olhar para trás, sabe que não encontra refúgio no seu passado de criança.

O filho do meu vizinho foge da casa vazia da sua infância, mas - pobre dele! - o campo de futebol, a garagem, o cinema e até a rapariga com quem saiu algumas noites e logo abandona, porque ela não lhe satisfaz nem o espírito nem a alma (os quais, conquanto ele o ignore, significam mais para ele do que o corpo); todas essas derivantes são igualmente vazias, pois também elas se encontram afastadas da impetuosa corrente da vida neste mundo.
É que eu acredito no seguinte: o filho do meu vizinho sabe instintivamente que existem coisas importantes a realizar neste mundo, na sua nação e até na cidade próxima, coisas que o interessam e entusiasmam, e sente latejar no seu íntimo um vago, cego desejo de se lançar em qualquer acção importante, e por isso mesmo capaz de lhe despertar o interesse e o entusiasmo. A sua necessidade é a que todo o indivíduo sente de ser necessário e portanto essencial.
E como cheguei a semelhante conclusão? Certo dia, andava eu a passear à tarde pela mata que fica mesmo ao fundo da minha quinta, quando ouvi um som de soluços. Pus-me a escutar. Era um homem quem soluçava; um jovem, cuja voz se quebrava com o choro. Fui-me guiando pelo som até que, num pequeno vale, dei com o filho do meu vizinho, sentado num tronco, de cabeça entre as mãos.

- Aconteceu-te alguma coisa? - perguntei-lhe.
O som da minha voz provocou-lhe um sobressalto. Tentou esconder o rosto.
- Não é nada - disse.
Procurou o lenço e, não o achando, enxugou os olhos à fralda da camisa.
- Claro que se trata de alguma coisa - tornei eu - mas, se não me queres responder, não te pergunto mais nada.
- Trata-se de um assunto pessoal - respondeu.
- Os aborrecimentos são sempre pessoais - comentei. Também já os tenho tido. Sei como é.
Sentei-me no outro extremo do tronco e fiquei-me à espera. Era o fim de um lindo dia de Outono; o ar estava quente; o céu, límpido, e as árvores pareciam arder.
- Não sei explicar ao certo o que é - tornou ele por fim. - Sinto-me como que arrastado por aí...
- E quem é que te arrasta? - perguntei. Os pais eram inegavelmente brandos; mais do que isso: tolerantes.
- Oh, tudo; é assim como...
- Não existe nada por que verdadeiramente te interesses? - sugeri.
- É isso mesmo - concordou.
- Ou - tornei eu - ou ainda não descobriste o que realmente queres fazer e não sabes a que te hás-de agarrar?
- Suponho que é isso - respondeu contra vontade. E, desviando o olhar da minha pessoa, acrescentou:
- Bem, tenho de ir andando...
- E eu também - disse, erguendo-me da minha ponta do tronco. - Quero simplesmente dizer-te o seguinte: espero que não desistas de procurar o que realmente desejas fazer na vida. Garanto-te que o mundo é um lugar imenso e maravilhoso, muito mais do que possas imaginar, e certamente existe qualquer coisa que hás-de gostar de fazer, e pessoas que necessitam desesperadamente do que tu possas fazer por elas. Continua a olhar à tua volta e tem paciência contigo próprio.
- Fixe!
Baixou a cabeça e afastou-se, embrenhando-se na mata enquanto eu ia caminhando para casa. A própria pobreza das suas expressões denunciava o seu desassossego íntimo e certamente contribuirá para lhe aumentar a frustração. Não conseguia explicar-se por falta de vocabulário, e semelhante carência esmaga-lhe por assim dizer o turbilhão dos pensamentos. "É assim como... Suponho que sim... Fixe!" Expressões como estas constituem o vocabulário tipo carimbo da maior parte da nossa gente moça.
Mas, na sua autenticidade, aquele sofrimento corresponde ao anseio universal do homem de pertencer a algo maior do que ele - o de ser indispensável ao seu semelhante e apreciado como indivíduo.

Verifico que os nossos jovens americanos sofrem mais profundamente do que os jovens de outros países do convencimento da sua inutilidade. Prolongam-lhes a infância até que ela se converte num vácuo dentro do qual despejam desportos, diversões, vagabundagem, escapadelas, tudo actividades inofensivas e vazias e todas elas incapazes de substituir o trabalho em que a alma se compraz, no ponto mais alto da corrente humana. Ninguém pode tornar-se adulto e achar satisfação em si próprio se não possuir a consciência de que anda a contribuir com a sua quota-parte para o crescimento, expansão e desenvolvimento da raça humana.
Nunca ao filho do meu vizinho ensinaram esta verdade tão simples e tão profunda; por isso, ele se sente só e vai para a mata chorar sem saber porquê. Deus queira que a não venha a aprender demasiado tarde. Oxalá a sua existência venha a ser mais ampla do que uma taça mal cheia. No entanto, devia ter começado a aprender há muito, quando era ainda um rapazinho sorridente de cabelos encaracolados. Desperdiçámos-lhe a juventude e a força, tal como desperdiçamos tantos dos nossos jovens.
Todas as vilas, cidades e campos desaproveitam os seus jovens. Porque ficará tanta coisa por fazer? Porque os nossos filhos não se encontram relacionados com a vida. Vivem num mundo infantil que já os aborrece e contudo ainda não sabem como sair dele. Eu não acredito num mundo infantil. É um mundo imaginário. Creio que se deve ensinar à criança - e o mais cedo possível - que o mundo inteiro é o seu mundo; que o adulto e a criança partilham esse mesmo mundo e que todas as gerações são necessárias à consonância do mesmo.

- Se eu fosse presidente da câmara municipal de qualquer vila, empenhar-me-ia em que até as crianças que frequentam a instrução primária soubessem que eram cidadãos e que, nessa qualidade, possuíam deveres a cumprir. Não se lhes concederiam privilégios, mas possuiriam direitos. Os seus primeiros deveres seriam relativos ao bem-estar comum. Não receberiam, em circunstância alguma, compensações monetárias ou qualquer outro tipo de recompensa quando cumprissem os seus deveres, e uma parte destes constituiriam em estudarem a matéria de fazer progredir a sua terra, e as suas opiniões seriam séria e devidamente ponderadas.
- Se eu fosse presidente da câmara de qualquer vila, levaria até os alunos da primeira classe a conhecerem os nomes dos nossos cidadãos mais notáveis e meritórios e a reconhecerem as virtudes dos homens e das mulheres que fossem bons cidadãos. Considerá-los-ia responsáveis em qualquer parte pela conservação dos museus, monumentos e edifícios públicos. Levá-los-ia a compenetrarem-se de que era do seu dever cooperar com a polícia. Esta é a protectora da gente honesta, mas, na sua missão de servidora do público, não deve agir de forma cruel e tirânica, abusando do poder que lhe é outorgado pelos cidadãos pagadores de impostos.
- A responsabilidade destes cidadãos-crianças aumentaria com o nível etário. Quando perfizessem os doze anos, deveriam conhecer o governo da sua terra ao ponto de lhes ser possível analisar a reputação de um homem ou de uma mulher que se apresentasse a desempenhar funções públicas, porque elas saberiam o que essa pessoa teria realizado como personalidade e como membro do governo. Pais e professores deveriam responsabilizá-los por esse conhecimento, facultando-lhes ao mesmo tempo os meios necessários à aquisição de tais conhecimentos. E dever-se-ia dar às crianças uma forma legal de exprimirem a sua opinião por meio de um voto graduado.

Não creio que o filho do meu vizinho, a fazer parte integrante do pequeno rio da vida da sua terra natal, se internasse pela mata a chorar por se sentir desamparado. A responsabilidade gera o respeito; por isso, quando a gente nova assume responsabilidades, merece o nosso respeito. Magoa-me profundamente ver os jovens da nossa terra tão pouco respeitados.
Amamos os nossos filhos e inundamo-los de privilégios; estragamo-los de mimos; vestimo-los com belas roupas, dotamo-los de carros velozes, segundo o conceito egoísta de que os filhos são propriedade dos pais.
"O filho é meu, não é? Portanto, não tem nada a ver com isso." Mas não sabemos respeitar os nossos jovens na sua qualidade de seres humanos e de indivíduos. Os jovens americanos, muito ao contrário do que geralmente se pensa entre nós e no estrangeiro, sofrem quase todos de um profundo complexo de inferioridade. A sua bombástica vulgaridade ou o seu alheamento negativo são indícios de falta de confiança neles próprios. E quem poderá censurá-los por não se auto-respeitarem quando não são respeitados pela sociedade? O respeito dos outros é a fonte do respeito próprio e, para uma criança, o respeito que por ela possam ter é a primeira atmosfera favorável ao seu desenvolvimento.

A minha compaixão continua a ter por objecto o filho do meu vizinho. Quase não o ajudaram a crescer. Aos dezoito anos, os seus divertimentos continuam a ser infantis, monótonos e destrutivos e, no entanto, são os únicos que lhe têm facultado. Quase não lê, pois na verdade é pouco dado às letras, apesar dos seus anos de escolaridade, e, por isso, ignora que a nata do pensamento humano encontra-se entre as capas dos livros. Em compensação, lê histórias em quadradinhos e uns outros tantos tristes jornais humorísticos.

Lembro-me de que, uma vez, a minha mãe se recusou a ler uma certa revista, então muito popular, por a considerar autêntico lixo. Se o era, realmente, confesso que não me lembra. E isso possuía tão pouca importância nessa altura como agora.
Em compensação, o que ela então afirmou era tão importante que eu nunca mais esqueci. Eis as suas palavras: "Sou tão incapaz de pôr lixo no meu espírito como de o pôr na boca." Foi aquela a sua maneira de exprimir um velho e sábio dizer da Bíblia: "Pelo pensamento de um homem se conhece a sua qualidade."
O espírito converte-se num esgoto se lhe dão unicamente imundícies. Se, em nome da liberdade, consentimos que a onda da imundície, do homicídio, do crime em geral, da violência e da fantasia absurda invada continuamente o espírito dos nossos filhos, então, em nome da liberdade, teremos de lutar com todas as nossas forças para contrariar a onda do mal com a poderosa vaga do bem.
Sou contra o sofisma que afirma dependerem o bem e o mal, na pessoa, dos padrões da sociedade a que se pertence. O bem e o mal podem ser universalmente definidos na sua base essencial, e assim serem ilustrados através das pessoas em qualquer parte do mundo. Nos muitos países em que tenho vivido e viajado, impressionou-me a descoberta de que um bom ser humano de um determinado país é considerado como um bom ser humano em qualquer outro. Sabemos instintivamente, seja qual for o local do nosso nascimento, o que é o bem e o que é o mal, mas os nossos instintos podem não saber distinguir a diferença entre um e outro. Suponho que o filho do meu vizinho anda confundido e nisso constitui parte da sua perturbação. Alimentaram-no com má comida, quer mental quer espiritualmente, e, entretanto, o corpo foi-se-lhe enchendo de excelentes produtos alimentares e de vitaminas. Pouco esperavam dele, e essa mesma pobre expectativa acabou por limitá-lo.
Não sou a favor da severidade, mas creio na inexorável exigência da responsabilidade que se deve pedir aos cidadãos de todas as idades e na privação de direitos, se não em castigos, quando cada um não cumpre o seu dever. Precisamos de restaurar o significado total desta velha palavra - dever. É o reverso da medalha dos direitos. Cada um de nós contrai um dever para com os outros seres humanos, e o justo cumprimento desse mesmo dever assenta no de cada um para com a sua própria pessoa. Também não é por meio da disciplina que levamos os outros ao cumprimento do dever. Há um vazio que tem de ser preenchido nas vidas dos jovens, e a disciplina em si própria é um meio negativo, uma proibição e não uma realização.
Temos de ensinar aos nossos jovens o seguinte: eles nunca serão felizes enquanto não ingressarem no mais profundo do rio da vida. E então, graças aos meios maravilhosamente compensadores de que a vida dispõe - a paz e a felicidade quando não procuradas por elas próprias apenas - insinuar-se-lhe-ão nos espíritos através das portas do dever cumprido. O dever não é uma coisa odiosa, enfadonha ou destrutiva. O dever cumprido é algo de compensatório, de agradável e de reparador para a alma, e o seu fruto chama-se serenidade. Oxalá que o filho do meu vizinho se encontre ainda a tempo de chegar a esta conclusão.

Pearl S. Buck in Para as Minhas Filhas Com Amor, Edição "Livros do Brasil", Lisboa, 1975 - http://pt.wikipedia.org/wiki/Pearl_S._Buck

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