sexta-feira, 7 de maio de 2010

UM AMIGO PARA SEMPRE



«Um dos paradoxos mais impressionantes do mundo moderno é que nos nossos dias, apesar do mundo estar mais habitado do que nunca, existem mais pessoas solitárias do que jamais houve noutro tempo.

Pessoas que sentem que ninguém se interessa por elas.

Pessoas que sentem que não há ninguém a quem se possam dirigir em busca de ajuda para enfrentar os seus problemas.
Pessoas que sentem que não têm nenhum amigo.

E assim é que muitos põem fim à vida. Ou afogam a sua solidão no álcool e nas drogas. Ou levam uma vida medíocre lamentando-se miseravelmente, quando poderiam viver de forma vibrante irradiando gozo e valor.

Poderiam enfrentar cada novo dia com certeza e confiança. Poderiam caminhar com a cabeça erguida e o rosto resplandecente, de mãos dadas com o Melhor Amigo que já existiu, se tão somente conhecessem a Jesus Cristo como Ele quer que O conheçamos.

Algumas pessoas pensam que Jesus é como que um juiz que está esperando para condenar-nos ao sofrimento eterno quando chegar o distante, mais aterrorizador, dia do juízo.

Outras pensam que Ele criou o mundo, estabeleceu as leis que regem o seu funcionamento, e afastou-Se da humanidade, abandonando-a à própria sorte.

Ainda outras pensam que Ele foi um mito, um herói legendário que na realidade nunca existiu.

Outras nem sequer pensam n´Ele. Seguem a sua rotina diária, dia após dia absortos pelo trabalho, a casa, os problemas com os vizinhos, o carro novo que esperam comprar, e nunca dedicam um instante ao solene pensamento sobre o seu destino eterno e ao seu melhor Amigo.

É exactamente isto que Jesus Cristo deseja ser para cada um de nós: O Nosso Melhor Amigo.

Para ser o nosso melhor amigo Ele veio a Belém há cerca de 2 000 anos.

O Seu nascimento foi uma notável demonstração de solidariedade para com a raça humana.

Além disso, Ele era o Rei do Universo, o Criador do vasto e ilimitado espaço e dos incontáveis corpos celestes espalhados pela sua incomensurável extensão.

Era amado e adorado por uma incontável quantidade de anjos - «milhares de milhares e milhões de milhões» - que se deleitavam em render-Lhe louvores dia e noite.

O nosso pequeno mundo era habitado por pessoas egoístas, rebeldes, cheias de inveja e de orgulho, e Jesus, o Rei do Universo, o Filho de Deus, queria que O amássemos. Ansiava por ser o nosso Amigo. Desejava identificar-Se connosco para nos ajudar.

Isto é algo tão extraordinário que muitos certamente nem acreditam. A manjedoura de Belém e o «menino envolto em panos» assim o provam.


Prezado Leitor, Jesus deseja ser seu amigo, não importa o que você seja, o que faça, onde viva, ou qual a cor da sua pele.

Durante toda a Sua vida terrena, Jesus foi um Amigo leal para todos aqueles que O aceitaram.

Foi um amigo para o rico e influente Nicodemos. Passou com ele longas horas respondendo às suas perguntas (S. João 3:1-16).

Foi um amigo para os endemoninhados de Gadara, a quem os vizinhos tinham acorrentado junto aos sepulcros (S. Mateus 8:3 a 9:1; S. Marcos 5:1-20).

Foi um amigo para a mulher surpreendida em adultério, cujos acusadores queriam apedrejar (S. João 8:2-11).

Falou em defesa de Maria Madalena, a prostituta, quando os próprios discípulos a censuravam (S. João 12:2-8).

Compreendeu as cargas que os pais levam e recebeu carinhosamente os seus filhos, esquecendo-Se do próprio cansaço (S. Marcos 10:13-16).

Amou os estrangeiros. Dedicou uma hora em pleno meio-dia aconselhando uma samaritana divorciada, dando-lhe uma nova perspectiva da vida (S. João 4:4-42).

Caminhou mais de 150 quilómetros até à remota região marítima de Tiro e Sidom, a fim de aliviar a angústia de uma mãe pagã ansiosa pela saúde da filha (S. Mateus 15:21-28).

Foi à casa do arrecador de impostos que usara o cargo para extorquir os seus compatriotas. Enquanto comiam, Jesus mostrou a Zaqueu como devolver os fundos que tinha juntado ilegalmente e de que modo poderia novamente ter paz de coração ( S. João 19:1-10).

Que extraordinário Amigo foi Jesus! Que Amigo maravilhoso continua a ser ainda hoje!

Ele disse na Sua Palavra: «Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a Minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com ele e ele Comigo». (Apocalipse 3:20).

Cear com Jesus! Esta noite! Junto d`Ele a solidão e o desânimo desaparecerão.

«Jesus é o mesmo ontem, e hoje, e eternamente» (Hebreus 13:8). Eternamente!

Ele logo voltará à Terra para viver entre «os homens». «Ele estará com eles, e será o seu Deus e eles serão o Seu povo». (Apocalipse 21:3).

Glorioso, maravilhoso Jesus! Verdadeiramente o Melhor Amigo que podemos ter como seres humanos!


PORQUE NÃO FAZER D`ELE O NOSSO AMIGO PESSOAL, AGORA, HOJE E SEMPRE?» L. M.

sábado, 1 de maio de 2010

O MUNDO COLORIDO PELA ADRA















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domingo, 25 de abril de 2010

LIBERTE-SE!




SENHOR, MUDA A MINHA FORMA DE PENSAR

«Porque os Meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os Meus caminhos, diz o Senhor.» Isaías 55:8.

O funcionamento da nossa mente é verdadeiramente surpreendente. Assim como a repetição de certos gestos leva à criação de hábitos, a repetição de determinados pensamentos leva a que se defina e determine o padrão de pensamento de cada um de nós. A predominância desse modelo leva a que seja evidente a forma como existimos e como edificamos a nossa mente.
No livro de Números descreve-se, duma forma rica e detalhada, uma sequência de acontecimentos ligados com a saída do Egipto e a peregrinação para a Terra Prometida. Foi uma epopeia que justifica a nossa atenção. Foram diversas as dificuldades que se lhes depararam, umas duma forma, outras de outra. Só havia duas coisas que foram constantes: a primeira, o cuidado de Deus pelo Seu povo; e a segunda, o padrão de pensamento daquela nação. Cada vez que eram desafiados pelas dificuldades, reagiam sempre com queixas e murmurações. Quando olhavam para uma situação menos positiva, a culpa era de alguém, menos deles. Eram avaros em manifestar alegria, satisfação e gratidão, e muito prontos em manifestar as suas queixas e as suas acusações contra fosse quem fosse, inclusive contra Deus.
Mesmo quando às portas da Terra que lhes tinha sido prometida, e quando os espias regressaram da sua missão (Números 13), apenas conseguiram ver os aspectos negativos da situação, chegando ao ponto de olharem para o Egipto como um paraíso, e verem a Terra Prometida como nada atraente, apesar das amostras dos frutos que os espias lhes trouxeram.
Tanto se habituaram a olhar para a sua incapacidade de construírem soluções adequadas, que foram capazes de não valorizar a presença permanente de Deus com eles. Por isso não estavam capacitados para entrar em Canaã e tiveram de jornadear por muitos mais anos pelo deserto.
No nosso viver, muitas vezes reproduzimos a atitude dos israelitas. Criamos os nossos padrões de pensamento, de forma que cegamos para o que é evidente (o cuidado da Deus por nós) e sobrevalorizamos as nossas angústias e dificuldades. Em vez de crescermos com os desafios, deprimimo-nos a ponto de distorcermos a realidade da nossa existência.

Apenas precisamos de pensar de outra forma. Precisamos de Lhe pedir que mude a nossa forma de pensar. Seremos os primeiros e maiores beneficiados.


SENHOR, MUDA A MINHA FORMA DE SENTIR

«Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito estável.» Salmo 51:10.

Falar de sentimentos nem sempre foi uma prioridade. Para alguns, o importante era tudo o que tinha que ver com o conhecimento. Vivia-se, então, sob uma predominância do cognitivo em desfavor do afectivo.
Mas hoje, após esse deslumbramento inicial, é perfeitamente evidente que não somos, nem nunca seremos "nós próprios", se não considerarmos os nossos sentimentos como uma das mais ricas e específicas formas de nos revelarmos na nossa essência. Os sentimentos são o resultado da interpretação primária que fazemos dos estímulos e informações que colhemos no nosso viver. São sobretudo mentais, com pouca ou nenhuma expressão corporal, mas que podem levar a uma emoção, essa sim, com uma forte componente corporal que se tornará difícil de camuflar.
Havendo uma interpretação dos estímulos, poderemos afirmar que os sentimentos são uma opção, uma decisão que assumimos e que assenta no padrão do nosso pensamento. Assim, os sentimentos podem e devem sofrer alterações se ansiamos e promovemos mudanças na nossa forma de pensar. Não são uma fatalidade da qual não nos podemos libertar, mas são, muito mais, um padrão de funcionamento da nossa mente que pode e deve ser trabalhado.
É interessante que correntes da psicologia (Abraham Maslow) estão de acordo com os princípios básicos do cristianismo no que diz respeito ao facto de termos nascido com a capacidade de distinguirmos entre o bem e o mal (sentimentos positivos e sentimentos negativos). Quando "fomos criados à imagem e semelhança" de Deus, isso pressupunha que, originalmente, nos foi outorgada a capacidade de fazer as nossas escolhas básicas. Mas tudo isso está dependente, para o futuro, das influências que se façam sentir (negativas devido ao pecado, positivas devido à acção continuada de Deus sobre nós) em cada um e dos condicionalismos que se criarem.
Mas, e isto deve-nos merecer enorme alegria, tudo pode ser trabalhado, mudado, melhorado. Deus criou-nos com a capacidade de contrariarmos a aparente fatalidade, e sermos actores fundamentais na construção do nosso padrão sentimental. Mas para isso é preciso tomar decisões inéditas, talvez, na nossa vida.

A salvação não será um prémio apenas para o que "sabemos", mas envolverá também o que sentimos. Por isso, talvez seja o momento de orarmos pedindo que "tenhamos aquele sentimento que houve também em Cristo Jesus." (Filipenses 2:5).


SENHOR, MUDA A MINHA FORMA DE AGIR

«Porque todo aquele que faz o mal aborrece a luz, ... mas quem pratica a verdade vem para a luz, a fim de que seja manifesto que as obras são feitas em Deus.» João 3:20, 21.

Quando pretendemos conhecer alguém devemos tomar em consideração todos os parâmetros que nos sejam acessíveis. O seu aspecto é importante para a composição da imagem que dele fazemos e que pode distinguir uma pessoa de outra. Mas a aparência exterior é reconhecidamente limitada para nos permitir conhecer a respectiva pessoa. Precisamos de conhecer o seu interior, os seus pensamentos, os seus sentimentos e obrigatoriamente as suas acções. Por essa razão, a frase "pelos seus frutos os conhecereis" (Mateus 7:16) ganha tanto impacto em cada um de nós.
Um pilar fundamental da nossa mente, para além da forma como pensamos e da maneira como sentimos, é tudo o que se relaciona com o exercício da nossa vontade. As nossas acções são o resultado do exercício da nossa vontade, que, por repetição, devem levar ao padrão das nossas reacções.
A visita ao Grand Canyon é uma oportunidade excelente para vermos como um rio foi cavando o terreno à sua volta, de forma que hoje pode ser verificado um desnível maior que 1 500 metros em alguns lugares. Com a nossa vida mental, cada pensamento cava o leito para um novo pensamento, cada sentimento nos fará sentir de determinada forma no futuro e cada acção nos condicionará a agir de acordo com o mesmo padrão futuramente. Assim como com a passagem das águas do rio, os materiais arrancados pela erosão não poderão jamais voltar a ser depositados no seu lugar de origem, as nossas acções vincam traços da nossa personalidade cujo apagamento nos pode parecer impossível.
Mas o que Deus nos propõe é que cresçamos até "à medida da estatura da plenitude de Cristo" (Efésios 4:13). Será isto natural? Será fácil? Não poderemos dar uma resposta afirmativa a estas duas questões. Será possível? Assim como uma barragem consegue domar as águas de um rio, também poderemos dizer que a resposta a esta última questão é positiva. Com Deus é possível mudar o padrão das nossas acções e progressivamente mudar também o registo das nossas reacções.

Porque não pedir-Lhe, hoje, que seja Ele o nosso principal aliado neste processo?


SENHOR, MUDA O MEU CARÁCTER

«E, por isso mesmo, vós, empregando toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência o domínio próprio, e ao domínio próprio a perseverança, e à perseverança a piedade, e à piedade a fraternidade, e à fraternidade o amor.» II Pedro:1:5-7.

Todos os crentes desejam ter um lugar na eternidade. Como resultado do sacrifício de Cristo, a eternidade pode tornar-se efectiva em cada um de nós. Usando uma imagem vulgar dos nossos dias, poderemos dizer que o passaporte que permite "essa viagem" tem que estar devidamente autenticado. É aqui que o carácter individual surge com uma importância incontornável. É ele que determina se reunimos as condições básicas para sermos contemplados com a graça da salvação.
Ellen White escreveu em 1881 o seguinte: «Cada acto da vida, por menos importante que seja, tem a sua influência na formação do carácter. Um bom carácter é mais precioso do que posses mundanas, e a obra de formá-lo é a mais nobre na qual se possam empenhar os homens.»
Não é de todo um desafio fácil, talvez seja até considerado impossível por alguns. «Cristo não nos deu garantia alguma de que é fácil alcançar a perfeição do carácter. Não se herda um carácter perfeito e nobre. Não o recebemos por acaso. O carácter nobre é ganho por esforço individual mediante os méritos e a graça de Cristo. É formado por combates árduos e renhidos com o próprio eu. As tendências herdadas devem ser banidas por um conflito após outro.» Idem.
Ninguém está fora desta luta. «Ninguém diga: "Não posso remediar os meus defeitos de carácter." Se chegarmos a esta decisão, certamente deixaremos de alcançar a vida eterna. A impossibilidade está na nossa própria vontade. Se não quisermos, não venceremos. A dificuldade real vem da corrupção de um coração não santificado, e da involuntariedade de se submeter à direcção de Deus." Ibidem.
Ser cristão é estar activamente envolvido na luta permanente por um carácter diferente do original, "é estar em busca da estatura de Cristo". Por isso, é muito séria a questão que colocamos em que é que hoje o meu carácter já é diferente do que era no passado?

Em oração fervorosa, vamos pedir que Deus nos dê a coragem e as oportunidades de aperfeiçoarmos o nosso carácter.

Daniel Esteves

terça-feira, 20 de abril de 2010

AS DUAS PEÇAS DE OURO



Quando os meus quinze contei, um tio velho que eu tinha,
Qu´inda choro e chorarei toda inteira a vida minha,
Disse-me um dia:— «Olhe cá! Está quase um homem já!
Para que por tal o tomem, quero fazer-lhe um presente,
Com que um homem...
Com que um homem se apresente.»

Julguei, n'esta oração toda, que o tal quase sobejava,
E sondei o beiço em roda a ver se o buço apontava.
Estranhara o tratamento! E o programa, que um portento
No tom me estava a indicar, fez-me, logo à introdução,
Palpitar...
Palpitar o coração!

Fiquei-me desvanecido, e aprumando-me vaidoso,
Ouvi, meio distraído, entre ufano e curioso,
O longo fim do sermão. O bom do meu tio então,
Acções juntando a promessas, deu-me, para meu tesouro,
Duas peças...
Duas peças novas de ouro.

Esquecendo a gravidade, e o valor que este incidente
Outorgara à minha idade, dei dois pulos de contente.
As peças mirei de perto; e não trocava de certo,
Desdenhando régias sinas, o meu erário infantil
Pelas minas...
Pelas minas do Brasil!

A cismar no que faria de tão grosso cabedal
Passei o resto do dia, e de noite dormi mal.
No meu sono, a cada instante, via um grupo fulgurante
De efígies tais, que não sei quem as tivera inventado.
E sonhei...
E sonhei que era morgado.

Apenas rompeu a aurora, posto a pé antes do sol,
Quis tomar, por ali fora, os meus desejos a rol.
Ai, que diversos e quantos! Eram tantos, tantos, tantos,
Que lhes não achava o fim. O mundo tinha um defeito:
Para mim...
Para mim era inda estreito.

Meditava seriamente se faria a aquisição
D'um relógio com corrente, ou d'um cavalo rabão.
Como escolhesse o cavalo, entrei logo a ajaezá-lo.
Mas... mas o relógio... Aqui, pensando com mais estudo,
Resolvi...
Resolvi-me a comprar tudo.




Era no campo. Ao sol posto (já fresca outoniça aragem
D'um dia depois de Agosto ciciava entre a folhagem),
Fui ao moinho do outeiro, onde o Domingos moleiro,
Porque às vezes me deixara trotar do seu macho em cima,
Conquistara...
Conquistara a minha estima.

De o deslumbrar d´aparatos a pia intenção levava;
Mas fui achá-lo nos tratos d'uma terçã que o prostrava.
Cessara o motim festivo: solitário e semi-vivo,
Jazia o triste no chão, com as faces amarelas
N'um montão...
N'um montão de rotas velas!

Chamei-o: nem respondia; busquei: tudo lhe faltava.
Quando eu aflito saía, a pobre moleira entrava.
Vinha de lidar chorando, negro pão de dois penando.
Em tal desanimo e dor, tirando a peça primeira,
Fui-lh'a pôr...
Fui-lh'a pôr à cabeceira.

Que nunca ninguém se esqueça da alheia tribulação!
Tinha saudades da peça, mas tinha orgulho da acção.
Ficara aos sonhos metade entre os braços da piedade.
Vago e ufano como um rei, bem que no caso a cismar,
Caminhei...
Caminhei para o Lugar.

Um pardieiro, entre rosas, havia do Povo à entrada,
Junto às ruínas musgosas d'uma ermida derrocada.
Vivia n'esta casinha a ti´Ana — uma velhinha
Que sabia muita história, e m'as contava ao serão,
Co'a memória...
Co'a memória da afeição.

Em versos, um tanto baldos, modulava-me ela ainda
As trovas de Dom Reinaldos e o romance de Florinda.
Fugia a noite apressada, ao sabor d'essa toada,
Em tão suspenso escutar, que o meu sentido primeiro
Foi chegar...
Foi chegar a cavaleiro.

Uma vaquinha leiteira
Alvas malhas, pêlo nédio,
Era a sua companheira e também o seu remédio.
Conhecia-lhe a canção e vinha comer-lhe à mão,
Quando não pascia à porta. Chego, e a fala me abandona!...
Vejo-a morta...
Vejo-a morta aos pés da dona!

Dera-lhe o mal de repente; para morrer ali fora.
Meigo o olhar inteligente inda carinhos implora!
A pobre velha, coitada, sem voz, trémula e parada,
Olhava, olhava também, como quem na dor que encerra
Mais não tem...
Mais não tem quem ver na terra.

Nada disse. Que diria? Há desgraças tão completas,
Que da própria simpatia são as vozes indiscretas.
A velha não se moveu... E chorava!... E chorei eu!...
Que havia determinar, em miséria tão expressa,
Senão dar...
Senão dar-lhe a outra peça?

Puz-lh'a, mudo, no regaço; e volvi a passos lentos,
Apagando, n'um só traço, desejos com sentimentos!
Senti o fausto perdido: mas não foi de arrependido!...
Dissipada já deixava a fantástica opulência,
Mas levava...
Mas levava a consciência!


Mendes Leal



quinta-feira, 8 de abril de 2010

SÓ DEUS É REI


- Viva o rei para sempre!
Eram estas as primeiras palavras que todos os homens do país haoussa deviam dizer, sem se enganar, segundo os costumes sagrados, sempre que comparecessem na presença do seu soberano.

Ora, à sombra da árvore de vasta folhagem onde esse senhor do reino recebia todas as manhãs o seu povo apareceu um dia um homem alto e de aspecto calmo que ousou saudá-lo com estas palavras:
- Só Deus é rei.
No mesmo instante ergueu-se um murmúrio escandalizado entre os cortesãos de vestes levemente esvoaçadas pela brisa. O rei não se atreveu a irritar-se. Sorriu, levantou a mão para impor silêncio e pediu ao audacioso que repetisse o cumprimento, estendendo o ouvido e torcendo o nariz, como se tivesse escutado mal.
- Só Deus é rei - repetiu o homem, impassível e firme.
Então o rei sentiu-se cruelmente ferido no seu orgulho, mas não deixou que tal transparecesse. Respondeu:
- Homem, a tua insolência é de louco ou de herói. Quem és tu?
- Um camponês do teu país. Cultivo a minha terra na orla da cidade e apenas ambiciono alimentar convenientemente a minha mulher e os meus filhos durante o tempo que me for concedido para viver.
- Mereces a minha consideração e a minha confiança - disse o monarca.
Tirou do dedo um anel de ouro cinzelado, estendeu-lho e acrescentou:
- Confio-te este sinal da minha realeza, que os meus inimigos tanto cobiçam. Guarda-o preciosamente, porque, se o perderes, deverás pagá-lo com a tua vida. Que seja assim honrado aquele que não tem outro rei senão Deus.

O homem saudou-o e voltou para casa com o anel no seu punho cerrado.
Uma semana mais tarde o senhor do reino mandou-o chamar. Tiveram dificuldade em arranjar-lhe lugar diante do trono.
- Tenho uma missão a confiar-te - disse-lhe. - Preciso de pedreiros e artífices habilidosos para construir a nova muralha da minha cidade. Visita todas as aldeias do país, mesmo as mais distantes, e traz-me os homens de que careço.
Aquele que era agora conhecido pelo povo por SÓ-DEUS-É-REI voltou nesse instante para casa, escondeu num chifre de carneiro o anel real que lhe fora confiado e disse à mulher:
- Tenho de partir em viagem. Na minha ausência, toma conta deste objecto. Que te seja tão querido como a minha própria vida.
Beijou-a, apertou os filhos nos braços, depois montou no burro e partiu.

Mal saíra da cidade, o rei enviou, em segredo, um mensageiro a casa da mulher de SÓ-DEUS-É-REI. Esse homem, de olhar resplandecente, ofereceu à esposa receosa mil conchas pelo chifre de carneiro onde estava o anel. Com as mãos trémulas e o coração palpitante ela empurrou-o. Então ele abriu diante dela três cofres cheios de roupas magnificamente tingidas e tecidas a fio de ouro. Ela levou-as ao rosto, inspirou o seu perfume, vestiu-as, contemplou o seu esplendor num espelho de cobre, fechou os olhos e apontou a viga da casa, em cujo vão estava escondido o chifre. O mensageiro levou-o apressadamente ao seu amo. Logo que o rei teve na mão o anel, deu uma gargalhada e resmungou maliciosamente:
- Façam-me um anel novo e deitem este no lago mais profundo do país.
Dois servidores partiram imediatamente a correr e fizeram o que lhes fora ordenado.

No caminho de regresso Só-Deus-É-Rei e a sua equipa de pedreiros pararam uma noite numa aldeia de pescadores onde lhes ofereceram tantos frutos e bebidas fortes, tantos cantos e risos, que decidiram ficar por alguns dias entre essa gente de bem antes de enfrentarem a savana rude que os separava da cidade real. No dia seguinte acompanharam os homens à pesca, donde voltaram ao crepúsculo com as redes pesadas e escorrendo água.
Quando alinharam os peixes sobre o grande leito de folhas verdes no centro da praça, um ainda se mexia. Tinha um tamanho que se impunha e era cintilante como as águas de um lago sob as chamas do sol-poente. Uma criança agarrou-o, pegou na faca do pai, baixou-se e abriu o ventre do animal, como via os outros fazerem. Então de entre as entranhas apareceu uma anel brilhante. Na ponta da faca, a criança, espantada, estendeu-o a Só-DEUS-É-REI, que se encontrava próximo. Este examinou-o e, com os olhos inflamados e a boca aberta, reconheceu o anel que o rei lhe havia confiado. Tinha sido lançado naquele lago. Um peixe engolira-o. A criança segurava-o agora na mão. SÓ-DEUS-É-REI deu uma gargalhada. Nessa noite festejou com a alegria desabrida de um miraculado.

Alguns dias mais tarde os viajantes chegaram à cidade real. SÓ-DEUS-É-REI, regressado a casa, beijou a esposa e perguntou-lhe pelo chifre de carneiro. Ela respondeu-lhe que um rato o havia roído, e engolido, sem dúvida, o anel. Franziu o sobrolho, com as mãos nas ancas. Mal ela se escapou para a rua, temendo a cólera do esposo, apareceram quatro guerreiros da guarda do palácio. Conduziram o homem junto do monarca, que saudaram em voz alta logo que entraram na sala do trono:
- Viva o rei para sempre!
- Viva o rei para sempre! - repetiram, em coro, os cortesãos reunidos.
O rei mandou-os calar com um gesto impaciente, fez sinal para que avançasse aquele que tinha ferido o seu orgulho e pediu-lhe o anel de ouro. Este enterrou a mão no grande bolso do seu traje e estendeu-lho, dizendo:
- Na verdade, só Deus é rei.
O monarca soltou um murmúrio de admiração, suspirou e respondeu, abanando a cabeça:
- Homem, tens toda a razão. Só Deus é Rei.

Dividiu então o reino em duas partes iguais e ofereceu uma delas a SÓ-DEUS-É-REI, cujo nome se tornou tão caro ao coração dos Haoussas que ainda hoje se divertem a escrevê-lo nas traseiras dos camiões, autocarros e barcos de pesca para que seja espalhada aos quatro ventos esta história estranha e verdadeira, sem a qual a vida não seria digna de confiança.

Henri Gougard
A ÁRVORE DOS TESOUROS - lendas do mundo inteiro.

sábado, 27 de março de 2010

ENCONTRO SOB O PÓRTICO


A tensão estava a tornar-se insuportável. Havia tentado ganhar tempo, mas era preciso acabar de uma vez. O problema não era averiguar quem tinha razão. Isso ele sabia. Tratava-se de tomar uma decisão prudente. Que o condenado à morte era inocente, estava claro. Não obstante, do modo como as coisas se apresentavam, absolvê- l`O tornava-se perigoso. Estava em jogo a sua reputação ou até mesmo o seu posto. Por outro lado, repugnava-lhe ceder à pressão daquela gentalha. Sabia que estavam a mentir. Adivinhava-lhes as intenções e incomodava-o ver-se encurralado por eles. No entanto, tinha esgotados os seus recursos. Ou se pronunciava a favor do acusado ou O abandonava definitivamente à mercê da chusma.1 Não podia continuar a demorar a sua decisão. Tinha de tomar posição diante de Jesus. E isto podia ser-lhe fatal.2
Exasperado pela insistência dos acusadores e pela sua própria impotência para resolver um caso que lhe parecera de pouca monta, Pilatos já não sabe o que perguntar àquele homem estranho, cuja linguagem não chega a entender. Pensando que poderá tratar-se de um desequilibrado,3 tenta falar-Lhe com brandura sobre as suas manias:
- Então és Tu o rei dos judeus...?
Mas o réu responde:
- Dizes isso por iniciativa própria, ou porque te estão a pressionar?
O homem mostra que está em seu perfeito juízo. Pilatos irrita-se pela sua falta de perspicácia. Humilhado por ter-se deixado apanhar numa querela de fanáticos, explode:
- A Tua gente, os sacerdotes que Te entregaram a mim, dizem que Tu pensas que és rei. Não ouves o que testemunham contra Ti?4

O alto clero local havia pronunciado uma sentença de morte sem ter poder para executá-la. Precisavam de obter da autoridade competente a sua legalização, e por isso forçaram o procurador romano a entrar em cena.5
No entanto, apesar do seu alto cargo, este será apenas um actor secundário, obrigado a fazer de juiz naquele simulacro de julgamento.
Os denunciantes eram membros do Sinédrio, ou seja, os representantes oficiais da religião de maior influência no país. Por razões que o procurador não tardará a descobrir, aqueles religiosos estavam a incitar a multidão a pedir a crucificação de um homem cujo delito tinha sido abrir os olhos do povo para a falsidade dos seus directores espirituais e pregar uma vivência da fé mais fraterna e autêntica.6
Condenavam-n`O à morte porque Ele lhes havia condenado a vida.7
Muitos dos presentes poderiam citar de memória as suas revolucionárias palavras:
- Amai os vossos inimigos. Fazei bem aos que vos odeiam. Bendizei os que vos maldizem. Orai pelos que vos maltratam e vos perseguem...8

- Então, Tu pretendes ser rei ou não?
Jesus fixa-o nos olhos e diz:
- É verdade que quero reinar, mas de outra maneira. Se o Meu reino fosse como os outros, teria arranjado soldados para Me defender. O Meu empenhamento é fazer avançar a causa da Verdade em todo o mundo. Por isso os que são a favor da Verdade Me escutam....9

A verdade? Como podia um homem naquela situação defender a verdade? Pilatos não pôde evitar de olhar para as mãos de Jesus, intumescidas, atadas pelos pulsos com uma grossa corda. Porque não procura antes defender-Se dos Seus acusadores para salvar a pele? A quem importa a verdade? Dispara então a sua famosa pergunta:
- Que é a Verdade?...10

Pergunta importante que todo o ser humano faz a si mesmo alguma vez na sua vida, com maior seriedade do que Pilatos. Porque, aparentemente, nessa pergunta que atira com soberba indiferença, sem esperar a resposta, manifesta toda a presunçosa leviandade do homem maduro, ao mesmo tempo que a sabedoria de curto alcance do homem de estado que só acredita na supremacia da força e da astúcia.
A sua reacção não é a do céptico que se ufana de não crer em nada, e que afirma que a verdade não existe ou que é impossível conhecê-la. Daquele que só professa a fé que deve fingir professar para o seu cargo: a fé no culto ao Império e ao imperador.11
Fixando condescendentemente o enigmático réu, na qualidade de alto funcionário e europeu liberal, propõe-lhe um acordo. Uma pequena mentira útil para acabar com o litígio.
- Diz-me que a acusação que Te fazem é falsa e eu solto-Te. É verdade que Te consideras rei?12
O contraste entre o representante do Império Romano e o do Reino da Verdade é manifesto:
Por um lado, o procurador encarna a autoridade que abusa do seu poder. O interesse e, se for preciso, a violência decidirão o caso. A razão da força acima da força da razão.
Por outro lado, Jesus encarna o destino dos mártires, vítimas da sua autenticidade, desde Abel até hoje. Que outro destino pode esperar um acusado indefeso face a um poder absoluto e a uma multidão manipulada que exige a Sua morte, quando apenas tem do Seu lado a verdade?

Que é a verdade? Pilatos desinteressa-se desse assunto. No seu interrogatório, apenas pretendeu averiguar a pericolosidade do réu. Constatando que este não aspira ao poder, já não se preocupa com o que Ele possa dizer. Jesus também Se cala. Se Pilatos tivesse sido um pescador, uma meretriz ou um cobrador de impostos, teria levado a Sua análise um pouco mais longe, como o fizera na noite anterior, e teria dito:
- Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida.13

Mas o procurador não teria compreendido o significado dessas palavras. Considerava-se demasiado culto para crer que poderia aprender alguma coisa de um prisioneiro. Além disso, como político, interessava-lhe mais a opinião pública do que a de um só indivíduo. E assim cometeu o erro da sua vida: não escutar o pensador mais profundo e influente de todos os que o Império tinha ou alguma vez viria a ter.
Estranho paradoxo do destino, o nome de Pôncio Pilatos só viria a ser recordado na posteridade14 precisamente por ter menosprezado naquela manhã de Primavera do princípio dos anos trinta o misterioso detido que, sem figurar sequer nos anais oficiais, chegaria a ser o centro da História.
Embora o governador fosse, sem dúvida, um profissional competente, capaz de ser justo, na sua paródia de julgamento não chegou a esclarecer a verdade do seu interrogado, simplesmente por não prestar atenção às Suas respostas. Se em dado momento optou por defendê-l´O contra os Seus acusadores, foi mais por ódio a estes do que por respeito ao primeiro.
O medo de cometer um erro táctico e de que os seus inimigos o denunciassem a César vai fazê-lo ceder perante a pressão. Os seus próprios estratagemas, demoras, hesitações e meias medidas vão arrastá-lo de concessão em concessão pela rampa da injustiça, sem possibilidade de se deter.

Agora restam-lhe apenas duas alternativas: ou ceder vergonhosamente depois de tanta resistência, ou assumir o risco de enfrentar a classe dominante do país. Em qualquer dos casos quer desembaraçar-se do réu seja como for. Se possível, obtendo a Sua absolvição,15 ainda que tenha de recorrer à tortura física. Ordena então que levem Jesus para O flagelar.16 Fazendo-o, põe em marcha a complexa engrenagem da violência que o arrastará inexoravelmente até um desenlace cruel.17
É que os sacerdotes não se contentarão com tão pouco. Essa solução não bastará para afastar Jesus do seu horizonte.Mesmo depois de desfigurado, a Sua serena presença continuará a interpelá-lo, como exigindo-lhe que vá até ao fim da sua honradez ou da sua cobardia. E é isso que vai fazer, libertando Barrabás, o criminoso, e castigando o inocente que o incomoda.


- Aqui está o homem!18
Também não atinge o alcance desta proclamação. Não se dá conta de que acaba de enunciar a Verdade em cuja existência não acredita. Convida assim todo o mundo a ver em Jesus o representante da humanidade sofredora e humilhada.
O homem. Abandonado por quem diz estar do Seu lado, atraiçoado pelos Seus, flagelado pelos poderosos e manipulado pelos que pretendem ser os representantes de Deus, Jesus é certamente o Homem de dores anunciado pelos profetas,19 que veio para assumir a condição humana até ao máximo e tentar salvar a humanidade da sua desumanização. Mas ali, aos olhos de todos, nada mais existe do que um condenado à morte, diante do qual uns se enfurecem e os restantes se retraem.

- Se soltares este homem não és amigo de César!20
Por fim, alguém encontrou o ponto vulnerável daquele funcionário encurralado. O seu destino como magistrado romano dependia do favor de César. Uma acusação de infidelidade política, habilmente apresentada por advogados experientes, podia levá-lo à perdição.21 Aturdido pela pressão dos acusadores e pela confusão dos seus próprios sentimentos, não sabe o que fazer, e pergunta em voz alta, fingindo toscamente essa cumplicidade dos demagogos mal esclarecidos que se julgam óptimos políticos:

- Que faço finalmente com Jesus, o suposto Messias?22
Que irá fazer Pilatos? O que fizeram no seu caso os Pilatos de todos os tempos: o que no momento lhe parece mais útil. Agir por considerações conjunturais e tentar conservar o posto. Para isso terá de sacrificar a justiça, a cuja defesa o obrigam as suas funções, e ceder à vontade daqueles a quem mais detesta. Se bem que não consinta em pronunciar uma condenação legal, ver-se-á obrigado a contradizer-se publicamente, executando alguém a quem declarara inocente.

Viver é escolher. Mas, lamentavelmente, as nossas escolhas nem sempre são o resultado das nossas convicções, mas das nossas circunstâncias, da nossa coragem ou da nossa fraqueza. Frequentemente, nem sequer temos clara consciência dos verdadeiros motivos pelos quais finalmente agimos ou deixamos de agir.
Se Pilatos tivesse agido com integriadde e cumprido o seu dever, teria absolvido Jesus. Mas, prostituindo a sua autoridade, incluiu-se na infame lista dos verdugos da história, oportunistas do poder, gananciosos ou irresponsáveis, a quem os profetas bíblicos qualificam de monstros. Aquelas bestas terríveis descritas nas visões de Daniel e do Apocalipse, representam todos os poderes abusivos, todos os governantes e membros de sinédrios a quem, por se oporem à justiça, Deus considera Seus inimigos, sobretudo quando têm a ousadia de pretender agir em Seu nome.

A última pergunta do procurador revela já o fundo da sua abdicação:
- Devo então crucificar o vosso rei?
A hierarquia sacerdotal conseguiu o seu objectivo e põe ponto final ao assunto com uma adulação abjecta:
- Não temos outro rei senão César!23
A história encarregar-se-á de transformar essa mentira táctica em dolorosa verdade.24

- Crucifica-o! Crucifica-O! Crucifica-O!25

Perante o clamor da multidão, Pilatos rende-se. Tentou desfazer-se de Jesus afirmando a Sua inocência, remetendo-O ao tribunal de Herodes, negociando a Sua liberdade em troca de Barrabás, flagelando-O para saciar a sede de sangue dos Seus acusadores e para lhes despertar a compaixão. Tudo fracassou.
A única coisa que o governador não faz é arriscar-se, por causa d´Esse pregador inquietante, a ser caluniado diante dos seus chefes. Sucumbindo à tirania do «que dirão», Pilatos encerrará o caso com o gesto teatral de lavar as mãos.26
Mas a água não absolve ninguém de nenhum crime, e as mãos de Pilatos continuarão tão manchadas como antes. O silêncio do réu pesará sobre ele como uma condenaçao mais atroz do que a morte. E, ainda que tente apagá-l´O da memória, o rosto admiravelmente sereno d`Aquele moribundo continuará a dizer-lhe quem é o vencedor e quem são os vencidos naquele processo.

A inscrição que manda pôr sobre a cruz soa quase como uma confissão reparadora: «Jesus, Nazareno, rei dos Judeus»27... Com ela assinala a página mais paradoxal da história: Um homem acusado falsamente pelos sumos pontífices da Sua religião é executado por defender a Verdade depois de ter sido declarado inocente pelo representante máximo do direito romano. O maior apóstolo dos direitos humanos é enviado para a tortura.

Que teria acontecido se Pilatos se tivesse mantido fiel às suas convicções e tivesse tomado uma decisão corajosa? Provavelmente não teria acontecido nada do que temia. O tempo teria demonstrado que as acusações levantadas contra Jesus e contra ele eram falsas... Talvez, no máximo, Tibério o tivesse deposto, mas Pilatos teria levado consigo o consolo de uma consciência em paz.
Resistir à verdade acarreta, às vezes, consequências trágicas. Pilatos descobrirá muito em breve a inutilidade das suas concessões. Pouco depois será na mesma acusado pelos próprios que o forçaram a entregar Jesus, deposto pelo prefeito da Síria e finalmente exilado nas Gálias pelo imperador Calígula.28
Pilatos virou as costas à verdade para não complicar a sua vida. Mas ninguém fica a ganhar quando sacrifica os seus valores éticos. Segundo a tradição, a sombra de uma cruz perseguirá a sua memória, e até à morte o torturará a incurável obsessão de lavar das mãos umas indeléveis manchas de sangue.29
A esposa do procurador foi mais fiel a si mesma do que o marido. As informações que tinha e um estranho sonho que a havia atormentado na noite anterior ao processo tinham-na levado à convicção de que Jesus estava inocente. Em vão o advertiria, receosa:
- Não te envolvas na morte d´Esse justo.30
Uma lenda antiga diz que, no seu sonho, Prócula tinha ouvido como, século após século, em todas as línguas se repetia que Jesus «padeceu sob Pôncio Pilatos».31

Por desprezar a verdade, a memória do seu gesto perpetua-se através dos tempos numa das orações mais repetidas da humanidade: o Credo. Deste modo paradoxal, o nome de Pilatos testifica que, com Jesus, Deus entrou efectivamente no tempo e no espaço, irrompendo na vida dos seres humanos tão de carne e osso como nós. E que a Verdade nos interpela a cada um como um dia interpelou aquele comandante militar.
Infelizmente, a verdade espiritual capaz de transformar a sua vida foi tratada por ele como por tantos outros antes e depois: desprezada, ridicularizada, calada, negociada, eliminada e sepultada.

Não seria preciso esperar muito tempo, no entanto, para descobrir o desenlace daquele conflito desigual. Nem para revelar o alcance inimaginável daquela morte sobre tantas vidas.32
Ninguém podia saber que Deus estava levando a cabo os seus desígnios acima de toda a corrupção do direito, de toda a impostura do clero e de todos os erros de Pilatos. A cruz revelava que, apesar das aparências, não estamos sós neste mundo injusto. Que Deus, para atrair à Vida, era capaz de compartilhar a nossa precária existência até ao ponto de afrontar a morte. Sem deixar de respeitar a liberdade humana, o Seu plano de salvação começava a triunfar, ainda que, aparentemente, fosse conculcado pelos seus destinatários. Porque, de um modo misterioso, que só a graça divina pode entender, o amor d´Aquele que derramava o Seu sangue podia com todo o ódio do mundo.
Só pelo facto de suscitar a sede de justiça, Jesus, sobre a cruz, estava já a começar a conquistar os corações, inclusive dos Seus algozes, fazendo-os desejar a possiblilidade de uma reparação das suas faltas e de uma vida melhor.33 O tempo demonstrará até que ponto tinha razão quando disse que tinha vindo para fazer prevalecer a Verdade.

Por isso, a pergunta de Pilatos - «Que é a Verdade?» - pode-se considerar céptica, sofisticada, mas não inoportuna. Não é uma pergunta original, como tão pouco o era o procurador. Desde há muitos séculos, sábios e santos não tinham parado de a fazer. Também não é uma pergunta definitiva, já que os homens e mulheres inquietos de todas as épocas - cientistas, pensadores, religiosos, artistas, poetas - têm continuado a fazê-la até agora. Mas é vital. É a eterna pergunta do ser humano que quer ter certezas, que necessita de um ponto de referência para construir a sua escala de valores e de uma luz que o guie no meio das trevas.

Neste mundo tão complexo em que vivemos, onde cada um apregoa a sua verdade, onde é tão fácil enganar e ser enganado, como encontrar esse farol seguro, essa plataforma firme na qual nos possamos apoiar e sobre a qual construir, confiantemente, um projecto de vida?


* Para dizer a verdade - essa «realidade que não se pode negar racionalmente»34 - é preciso desejá-la e procurá-la, sinceramente. A verdade, como qualquer pedra preciosa, tem várias facetas. Não que seja necessariamente complicada ou difícil. Não obstante, para apreendê-la, precisamos de a contemplar na sua totalidade. Uma parte da verdade não é a verdade. E metade de uma verdade é uma simples mentira. As meias verdades são frequentemente odiosas, mas tornam-se particularmente detestáveis no âmbito espiritual, quer dizer, na dimensão da experiência humana que atinge a parte mais profunda do ser. Todos conhecemos o velho conto oriental dos cegos e do elefante,35 que sublinha a tendência comum de confundir a verdade com o que é apenas um aspecto dela.

* Para o investigador sincero, a boa fé não basta; tem de ser acompanhada de uma boa informação. Porque verdade não é sinónimo de sinceridade: a sinceridade é subjectiva - por conseguinte, muito difícil de julgar. A verdade é objectiva - portanto, susceptível de ser julgada. E sempre será preferível a sinceridade na verdade, do que a sinceridade no erro.

* Confundir verdade e opinião não seria grave se nos mostrássemos dispostos a reconhecer que a nossa posição pode não ser a melhor. O problema está em que da defesa da opinião à obstinação vai apenas um passo. Tem-se dito que nada é mais querido do que as nossas próprias opiniões, e não há nada mais difícil de abandonar.36 O sábio Salomão já dizia que «maior esperança há no tolo do que» num «sábio a seus próprios olhos.»37

* O direito que cada um tem, do ponto de vista da inalienável liberdade de consciência, de crer no que quiser ou de não crer em nada, é indiscutível. Todos temos direito à compreensão e à tolerância. A procurar a verdade e a desinteressarmo-nos dela. A cada um assiste o direito de agir de acordo com a sua consciência e o seu sentimento de responsabilidade. Mas isso não quer dizer que todas as atitudes sejam igualmente sensatas. Sobre um determinado ponto pode haver muitos pareceres.

* Verdade transcendente, embora não sejamos capazes de a apreender plenamente, só uma. Por isso, quando a nossa opinião deixa de ter qualquer regra ou critério além de nós mesmos, parecemo-nos lamentavelmente com aqueles cegos da fábula, empenhados em confundir um elefante com uma árvore ou uma corda. Ser autenticamente sincero é procurar a verdade nas suas fontes, por todos os meios ao nosso alcance. Essa é a única sinceridade capaz de nos levar da convicção à certeza.

* Quando procuramos defender a nossa posição mais do que a verdade, fazemos como Pilatos. Deixa de haver sinceridade na nossa atitude e a nossa obstinação transforma-se numa camuflagem para as nossas desculpas.
É fácil encontrar pretextos. Até os textos sagrados podem ser manipulados e utilizados para defender critérios pessoais ou de grupo, com resultados que vão desde as mais pitorescas heresias até às guerras santas mais sangrentas. Qualquer pessoa que a isso se proponha, será capaz de obter subterfúgios para confundir tanto as passagens difíceis como as claras e simples.»38 (É até frequente aqueles que mais se opõem às Sagradas Escrituras terem um conhecimento superficial dos seus ensinos, como se diante do receio de encontrar alguma coisa que não desejam, a rejeição lhes desse um certo sentimento de segurança.)
Por isso, paradoxalmente, embora sendo a religião um lugar privilegiado de encontro do homem com a Verdade Suprema (leia-se Deus e a Sua Revelação), existem nessa esfera tantas «verdades» e tantos credos diferentes.

* A obstinação e a falta de sinceridade cegam. O erro escraviza. Os erros pessoais ou históricos - a que chamamos «nossas verdades» -, transformados em preconceitos, tradições ou dogmas, amarram os seres humanos a posições que lhes restringem a liberdade e, o que é pior, também a alienam. Porque é muito mais difícil ser amigo da verdade até ao martírio do que tornar-se seu apóstolo até à intolerância.39

* Contudo, a verdade é libertadora por natureza. Jesus disse: «Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará.»40 Daí que a fidelidade à verdade só possa comparar-se à fidelidade da bússula ao pólo. Fixar a agulha, para si ou para os outros, é perigoso. Por fidelidade ao seu compromisso, a agulha tem de ser sempre livre. Isto pode parecer muito simples. Mas o facto de algumas verdades serem muito elementares não lhes tira a mínima parcela de valor.

* Se Deus não existisse, a verdade (referimo-nos sempre ao âmbito religioso e moral) seria relativa. Mas se existe, Ele é a nossa referência absoluta. Os nossos esforços, separados d`Ele, levam necessariamente a verdades humanas, todas relativas. Por isso necessitamos de dar ouvidos, não apenas à natureza e à consciência, mas também à revelação que Jesus veio difundir, essa «luz verdadeira que alumia a todo o homem que vem ao mundo.»41 A Luz que permite descobrir e enfrentar a realidade, de um modo mais realista.

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* Ao contrário da verdade eterna da razão procurada pelos filósofos, esta verdade não é um conhecimento teórico mas sim existencial, que compromete o ser na sua totalidade. É uma vivência prática, experimental, que nos liberta dos nossos temores e permite a nossa realização plena. Além de nos convencer, transforma-nos. Por isso não basta conhecê-la: é preciso vivê-la. Todos os que a seguem, à medida que a sua vida se põe em harmonia com ela, passam, da procura para possuir a verdade, ao desejo imperioso de que a Verdade os possua.


Desde aquele encontro sob o pórtico, o processo de Jesus continua, assim como o Seu testemunho a favor da Verdade. E ainda que muitos não cheguem a tomar consciência disso, todos nós perguntamos alguma vez na vida, como Pilatos: «Que farei de Jesus, chamado o Cristo?»

Cada vez que O condenamos sem O ter escutado, ou não vamos até ao fundo das nossas convicções porque temos medo, ou porque nos é mais cómodo ser práticos do que coerentes; cada vez que, apesar das nossoas boas intenções, não ousamos pronunciar-nos pela verdade quando isso comporta algum risco, e tendemos a adiar a nossa decisão, ou a procurar escapatórias; cada vez que abafamos a consciência, dizendo a nós mesmos que para evitar conflitos é preciso saber esperar e fazer concessões; cada vez que chamamos prudência à fraqueza e paciência à cobardia, estamos a agir como Pilatos.

Hoje, como naquela época, quem não se quer comprometer continua a preferir o apoio do poder e da maioria. Por ser arriscada, a verdade que bebe nas fontes, é sempre minoritária e, portanto, só ousam defendê-la os valentes. Como é independente do número dos seus adeptos, como não se decide por votaçao, nem se deixa impor por decreto-lei, nem se adopta por aclamação popular, não costumam tê-la as massas nem os seus dirigentes. Continua a possuí-la Cristo. E como Ele, os Seus seguidores são muitas vezes tratados como loucos, às vezes como heróis e inclusivamente como mártires, mas sempre como dissidentes.


NOTAS DO AUTOR:

  1. O Evangelho de João situa este encontro num lugar chamado em grego Lithostrotos e em hebraico Gabata, que quer dizer, «o lajedo» (19:13), que foi localizado no pátio principal da Torre Antonia. Os mais de dois mil metros quadrados descobertos compreendem 1 700 lajes de cerca de dois metros de comprimento por um metro de largura. (P. Benoit, «L´Antonia d`Herode le Grand et le Forum oriental d`Aelia Capitolina», Harvard Theological Review, 64, 1971). O magistrado romano devia fazer a justiça no praetorium, constituído pelo «tribunal» (estrado de forma semicircular fácil de transportar) e pela cadeira curul, que se colocava sobre o estrado e na qual se sentava o pretor para ditar a sua sentença. O procedimento seguido por Pilatos é o habitual neste género de assuntos (cf. Cícero Pro Cluentio 58).
  2. Os textos de Mateus 27:1-31; Marcos 15:1-21; Lucas 23:1-25 e João 18:28 a 19:16 dão-nos a descrição do processo de Jesus diante de Pilatos.
  3. João 18:33. Sem dúvida Pilatos teria soltado Jesus se O tivesse considerado um simples louco. No ano 62, o procurador em exercício recusou-se a condenar um outro judeu, filho de Ananias, acusado também de profetizar a destruição do templo (Josefo, Guerra 6:300-309; cf. Marcos 14:55-59).
  4. João 18:34-35 (cf. Mateus 27:11-14).
  5. Os Romanos haviam reconhecido oficialmente ao Sinédrio o poder de instruir os processos penais e de pronunciar sentenças segundo a legislação judaica. Mas Augusto tinha limitado as suas atribuições. Cada condenação à morte devia obrigatoriamente ser ratificada pela autoridade romana. Por consequência, o jus gladii pertencia exclusivamente ao preconsul. Portanto, se o Sinédrio vinha procurar o representante de Roma (João 18:31), não era para aplicar uma multa, uma excomunhão ou as trinta e nove chicotadas regulamentares para certos castigos (II Coríntios 11:24). Porque podia fazê-lo sem a autorização do procurador. O que pretendia era a autorização de proceder à execução capital.
  6. Lucas 22:24-30.
  7. Ver sobretudo Mateus 23:1-36. As implicações políticas de acção de Jesus explicam em parte a hospitalidade dos dirigentes do país (cf. João 11:45-53).
  8. Mateus 5:21-26, 38-48.
  9. João 18:36,37.
10. João 18:38.
11. Giovanni Papini, Vida de Jesus, pág. 344.
12. João 18:37.
13. João 14:6.
14. De Pôncio Pilatos, além do seu encontro com Jesus, a história apenas regista que foi um cavaleiro romano e exerceu o cargo de prefeito da Judeia sob Tibério, entre os anos 26 e 36, antes de ser destituído pela sua infeliz actuação política. O único testemunho - fora a Bíblia e o texto de Josefo - provando que Pilatos governou a Palestina é uma inscrição fragmentária em pedra, encontrada em Cesareia por uma expedição dirigida por A. Frova em 1961, (Siegfried H. Horn, L`Archéologie biblique en 30 ans, 1948-1978, Editions Luminar, 1980, págs 49, 50.
15. É sem dúvida a razão que levou Pilatos, quando soube que Jesus vinha da Galileia, a enviá-lo a Herodes, o tetrarca daquela região, que então se encontrava em Jerusalém para as festas da Páscoa (Lucas 23:5-12). No direito romano, era a situação geográfica que determinava de que tribunal se dependia, ou pelo lugar da detenção (forum aprehensionis)ou pelo lugar onde tinha sido cometido o delito (forum originis). Herodes, por conseguinte, não podia exercer jurisdição naquele assunto porque Jesus tinha sido preso na Judeia por um delito de «agitação pública» que afectava todo o país e não exclusivamente a Galileia. Pilatos utiliza a presença de Herodes para tentar livrar-se de pronunciar uma sentença. Sobre as anomalias jurídicas do processo de Jesus, ver Paul Winter, Le procès de Jésus, Muchnick Editeurs, 1983.
16. João 19:1-4.
17. Fílon de Alexandria, seu contemporâneo, descreve Pilatos como um homem «arrogante, obstinado e cruel»(Embaixada a Gaio, pág. 38). 18. João 19:5. Cf. E. G. White, O Desejado de todas as Nações (Publicadora Atlântico, 1992), pág. 785.
19. Isaías 52:13 a 53:12.
20. João 19:12.
21. Os numerosos agravos que Pilatos fizera ao povo tinham-no tornado muito impopular. Um dos seus primeiros erros foi transferir os quartéis de Cesareia para Jerusalém. A presença, nas proximidades do templo, de estandartes militares, considerados símbolos de idolatria pelos judeus conservadores, provocou uma entrada tumultuosa na residência do procurador para exigir a retirada imediata dos ofensivos símbolos. Irritado por esta contrariedade, Pilatos ordenou aos soldados que cercassem os manifestantes e abatessem todos aqueles que não se dispersassem imediatamente. Constatando que estes preferiam morrer a permitir a profanação da cidade santa, teve de ceder. A história do seu governo é abundante em actos cruéis, como o massacre dos peregrinos galileus, citada em Lucas 13:1-3, (cf Josefo, Guerra, 2:169). A maneira como ele trata Jesus condiz bem com o seu humor instável e incoerente.
22. Mateus 27:22.
23. João 19:15.
24. Josefo conta em pormenor as circunstâncias que explicam a revolta de Israel contra os Romanos nos anos 66 a 70 (Guerra, 2:284 a 7:20). Esta guerra determinou a perda da pouca autonomia que o país ainda conservava. A cidade de Jerusalém e o templo foram tomados por Tito e arrasados em 70-71. De todos os edifícios da cidade não restaram mais de três torres e uma parte da muralha acidental. Em 135, o imperador Adriano estabeleceu ali uma colónia romana, com a intenção de fazer desaparecer todos os vestígios de judaísmo. Substituiu o nome da cidade pelo de Aelia Capitolina e dedicou o local do templo ao deus Júpiter (Eusébio, História IV, 6:1-4). Os Judeus foram desterrados, sob pena de morte, e Israel deixou de existir como entidade política sobre o território da Palestina até ao século XX (1948).
25. Mateus 27:22; Marcos 15:14; Lucas 23:20-23: João 19:6, 14-16. No primeiro século, os Romanos praticavam comummente o suplício da crucificação. Cícero chama-lhe a «tortura mais cruel e mais vergonhosa»: «Prender um cidadão romano é um abuso, bater-lhe é um delito, matá-lo é quase um parricídio. Que dizer, então, se é pendurado numa cruz? Não há qualificação para uma coisa tão infame.» (De finibus 5:92). Fílon qualifica-o de «a maneira mais baixa e vil de terminar uma vida marcada pelo mal.» (De providentia 2:24-25). Josefo descreve inúmeras crucificações, algumas colectivas, durante os conflitos de Israel com Roma (Guerra 5:44a-51;2:75; Ant 17:295; 2:241; 20:119; Guerra 2:253, 306, 308; 3:321; 5:289, etc.) Normalmente, infligia-se apenas aos escravos sediciosos ou nos casos de alta traição. Expunha-se o supliciado à entrada da cidade ou à beira de uma estrada, para servir de exemplo. Uma inscrição indicando o motivo do castigo era pendurada ao pescoço do condenado. Apesar de haver cruzes de formas diversas, os Romanos cravavam geralmente os supliciados sobre um madeiro transversal chamado patibulum, que era fixado no alto de um poste (crux commisa) ou mais abaixo, numa entalha (crux immisa). O condenado era pregado (ou amarrado com cordas) pelas mãos e pelos pés e exposto nu (as roupas que usara pertenciam por direito aos carrascos) ao suplício da tortura e da vergonha (para os Judeus, além disso, a crucificação era uma prova de maldição divina: Deuteronómio 21:22,23; Gálatas 3:13). A morte, que podia ser muito lenta, sobrevinha geralmente por asfixia, esgotamento e dificuldades respiratórias e circulatórias. Podia ser abreviada partindo as pernas do crucificado, impedindo-o assim de poder elevar-se para respirar. (Ver Martin Hengel, Crucifixion, Filadélfia: Fortress Press, 1977).
Em 1968, num cemitério a norte de Jerusalém, encontraram-se no nicho Nº 9, os ossos de um jovem de cerca de 25 anos chamado «João filho de Haggôl», crucificado em meados do primeiro século. Os ossos do calcanhar estavam atravessados por um grande cravo de 18 cm que os mantinha unidos. As tíbias estavam partidas por pancadas e as mãos tinham sido pregadas pelos punhos. É o testemunho arqueológico mais semelhante à crucificação descrita pelos Evangelhos (J. Briend, Bible et Terre Sainte, Julho/Agosto 1971, pág. 8).
27. Mateus 27:37; Marcos 15:26; Lucas 23:38; João 19:19.
28. Os dados históricos tardios e difíceis de verificar indicam que Pilatos foi exilado por Calígula para Vienne, cidade gaulesa do vale do Ródano, e que ele se suicidou ali. Uma lenda diz que os seus remorsos e o suicídio estão relacionados com o nome do Monte Pilatus, ao sul do lago de Lucerna, na Suiça.
29. Atribui-se a Pilatos um escrito apócrifo intitulado Carta de Pilatos a Cláudio, já conhecido de Tertuliano antes de 197, e uma Correspondência com Tibério que data da Idade Média.
30. Mateus 27:19.
31. Dorothy L. Sayers, The man born to be king, citado por Karl Barth, Esquisse d´une dogmatique, (Foi Vivante, 80), Delachaux & Niestlé, 1968, págs. 173-181.
32. Todos os relatos das testemunhas oculares da crucificação e do sepultamento de Jesus atingem o seu ponto culminante com a proclamação da Sua Ressurreição: Mateus 28:1-5; Marcos 16;1-18; Lucas 24:1-49; João 20:1-29; 21:1-19.
33. As consequências redentoras do sacrifício do calvário constituem o que a Bíblia chama «O mistério da piedade». (I Timóteo 3:16), explicado em particular nas epístolas (ver Efésios 2:1-22; Romanos 3:21-26, 5:1-11; II Coríntios 5:11 a 6:2; etc.) A importância e a complexidade do tema não permitem abordá-lo aqui.
34. Platão, Leis, 663.
35. A fábula conta que chegou um dia, a uma cidade longínqua, um viajante montado num elefante. Ouvindo a notícia, uns cegos que mendigavam à beira do caminho pediram-lhe que os deixasse tocar no animal, nem que fosse só por um momento, para ficarem com uma ideia do seu aspecto. Puseram-se então a apalpá-lo. Quando, um pouco mais tarde, o viajante já tinha retomado o seu caminho, os cegos desataram a discutir por não conseguirem pôr-se de acordo sobre aquilo que tinham examinado com as suas próprias mãos. Aquele que só tinha conseguido tocar na barriga do animal, definia o elefante como uma imensa bola rugosa; o que só tinha apalpado uma pata descrevia-o como um tronco de árvore; o que lhe tinha acariciado a tromba comparava-o com uma grande cobra; e o que lhe tinha agarrado a cauda identificava-o como uma pequena corda.
36. «O pecado que mais se aproxima de ser desesperadamente incurável é o orgulho da opinião própria.» (E. G. white, Testemunhos Selectos (Casa Publicadora Brasileira, 1954), Vol. III, págs. 183, 184.
37. Provérbios 26:12; Provérbios 12:15. Cf. Romanos 12:16.
38. E. G. white, O Grande Conflito (Publicadora Atlântico, 1986), págs 480-482; Mensagens Escolhidas (Casa Publicadora Brasileira, 1966), Livro I, págs. 169-170.
39. Voltaire, Lettre à D`Alembert, Fevereiro de 1776.
40. João 8:32.
41. João 1:9.

Roberto Badenas in ENCONTROS (Publicadora SerVir)

sexta-feira, 19 de março de 2010

LEONARDO DA VINCI


Estudar a vida de Leonardo da Vinci significa descobrir um homem além do seu próprio tempo. Embora seja mais conhecido pelas suas obras de arte, ele foi também um brilhante arquitecto, engenheiro, matemático, geólogo, biólogo, físico e filósofo. E, acima de tudo isso, foi também um genuíno cristão, que amava a Bíblia e cria no Deus que ela revelava. Segundo a opinião de muitos, da Vinci pode ser considerado o fundador da ciência moderna.

Ele nasceu a 15 de Abril de 1452, no período a que os historiadores vulgarmente chamam de Renascença. Não se tem muita certeza sobre o local exacto do seu nascimento, mas foi numa fazenda em Anchiano que Leonardo ou Lionardo (conforme uma antiga grafia) foi criado. Este lugar ficava a 3 km da cidadezinha de Vinci – Itália, o que justifica o sobrenome com o qual ficou mundialmente conhecido, Leonardo da Vinci.
Porém, a história desse génio não se inicia com uma origem nobre. A sua mãe, que se chamava Catarina, era uma moça humilde e do interior, que não possuía praticamente nenhuma cultura académica. O seu pai, no entanto, era um nobre muito culto, chamado Ser Piero. Quando da Vinci nasceu, o seu pai tinha 25 anos e não quis reconhecer a paternidade da criança. Ele abandonou a mãe de Leonardo e casou-se com outra mulher que era mais rica e inteligente. Da Vinci, portanto, foi considerado um filho ilegítimo e sofreu por muitos anos sendo chamado de “bastardo”, pois o seu pai jamais o registou no seu próprio nome.

MUDANÇA DE ENDEREÇO

Até aos 5 anos de idade, Leonardo viveu em Anchiano. Depois disso, ele foi viver na fazenda do seu avô em Vinci, ao pé do Monte Albano. Essa mudança deve ter ocorrido porque a mulher que se tinha casado com o seu pai não podia ter fihos e, possivelmente, foi só nessa época que os avós de da Vinci souberam da sua existência. Ele, então, passou a ser criado como um membro da família, mas nunca foi legitimado como filho de Ser Piero. Era tratado como um filho de criação ou até menos do que isso.
Numa declaração para o imposto feita pelo seu avô e citada nalgumas biografias, Leonardo é mencionado apenas como sendo uma “bocca”, isto é, alguém a mais que havia para ser alimentado. Não é chamado de neto, muito menos de filho. Os da família De Piero pareciam ter vergonha de Leonardo pela forma como ele foi gerado. Como se sabe, naquela época, uma moça que engravidava solteira era tremendamente desprezada pela sociedade em que vivia.

Em Vinci, Leonardo foi pela primeira vez à escola, onde aprendeu a ler, escrever e calcular. Ali também teve aulas de Geometria e Latim, embora nos seus futuros trabalhos preferisse sempre fazer as suas notas em italiano. Segundo algumas biografias, da Vinci era um aluno muito questionador, o que incomodava os professores e colegas. Ele simplesmente recusava-se a aceitar conceitos que não fossem muito bem demonstrados. Aliás, esse mesmo perfil racional o seguirá na sua fase adulta, quando se demonstra crítico dos artistas, que em vez de produzirem a sua própria arte e a sua própria técnica, limitam-se a imitar os que vieram antes.

Agora páre para imaginar como seria o jovem estudante Leonardo da Vinci. A sua genialidade muitas vezes foi interpretada como rebeldia e má criação. Parece que as pessoas nunca estão preparadas para os génios que nascem na História. A única coisa que fazem é rejeitá-los enquanto estão vivos e idolatrá-los depois que morrem. E não pense que é muito diferente nos nossos dias. Hoje, principalmente, a filosofia pós-moderna parece inventar ao máximo um distanciamento da sabedoria, especialmente quando se descobre que ela vem de Deus.

O DESPERTAMENTO DO ARTISTA E INVENTOR

Aos 14 anos, da Vinci deixa a fazenda do seu avô e vai morar em Florença, nos fundos da loja de um artista chamado Andrea del Verrocchio. É difícil saber que motivos levaram o seu pai a enviá-lo para lá. Alguns pensam que seria para lhe dar melhores estudos, mas há também a possibilidade de que, com a morte do seu avô, tenham aumentado as atitudes de rejeição familiar, e a transferência para a nova cidade acabou sendo uma espécie de exílio.

Você, certamente, já percebeu que este jovem tinha muitos motivos para ser um revoltado com a vida. Contudo, em vez de «chutar tudo para cima», a sua inteligência, guiada pelo Espírito Santo preferiu conduzi-lo a uma atitude de fazer bom uso das oportunidades. Ele aprendeu tudo o que podia com Verrochio e acabou tornando-se um artista mais refinado que o seu próprio professor, de quem sempre obteve o respeito e a consideração talvez nunca recebidos do seu próprio pai.

Daí por diante, a carreira de Leonardo foi tremendamente marcada pela genialidade artística, que impressionava a todos os italianos. Em 1472 ele foi alistado como membro permanente dos Pintores de Florença, o que equivalia a uma graduação na faculdade de artes. Então ele iniciou a sua colecção de pinturas gloriosas, de entre as quais destaca-se a famosa MonaLisa, o quadro mais valioso do mundo, que hoje pode ser visto no Museu do Louvre em Paris.
No campo científico, há espantosos esboços e notas de da Vinci, que demonstram excelentes análises de problemas em dinâmica, anatomia, física, aeronáutica, biologia e hidráulica. O seu raciocínio era bem avançado para o seu tempo. Só para ter uma ideia, saiba que da Vinci já tinha esboçado desenhos de pára-quedas, helicóptero, motores e até de bicicleta. Alguns supõem que com um pouco mais de tempo, ele teria chegado à descoberta dos processos químicos que resultam na captação impressa de luz, vulgarmente chamada fotografia.

Talvez você pergunte: porque da Vinci não construiu logo essas máquinas, preferindo deixá-las apenas em esboços? É provável que a falta de recursos da época, aliada à ameaça da Inquisição, tenha feito o nosso inventor silenciar-se nalguns pontos. Afinal, qualquer coisa que contrariasse os dogmas da Igreja poderia ser considerada bruxaria e o seu originador condenado às chamas. Seja como for, da Vinci já utilizava o processo de experimentação muito antes do moderno «método científico».
Leonardo foi mais um artista e inventor do que um filósofo ou teólogo. Contudo, é na arte que ele revela a sua fé em Deus, mesmo vivendo à sombra de um dogmatismo medieval que perverteu em muito a genuína visão do Céu. Os seus quadros sobre a vida de Jesus trazem à tona um profundo amor em relação ao Filho de Deus.

A SANTA CEIA DE CRISTO

Em Milão há um quadro, hoje restaurado, no qual da Vinci procurou com muito empenho retratar a última Ceia de Cristo e os seus discípulos. Ele foi pintado no refeitório do mosteiro dominicano de Santa Maria delle Grazie. Em 1923, foi publicada uma história em relação a essa pintura que é por muitos considerada como um genuíno relato.

Conta-se que da Vinci sempre usava pessoas reais como modelos para as suas pinturas. Assim, seriam os próprios vizinhos do convento que posariam para a composição dos apóstolos à mesa. Havia porém um problema inicial: como encontrar alguém tão perfeito para retratar o rosto de Cristo?
De acordo com essa versão, «centenas e centenas de jovens foram cuidadosamente avaliados pelo artista a fim de encontrar uma face e personalidade que exibissem uma inocente beleza, livre de qualquer cicatriz ou marca causada pelo pecado». Finalmente, ele encontrou um jovem de 19 anos e, durante seis meses, trabalhou retratando, com base naquele rapaz, o rosto do Filho de Deus.
Uma vez pintado o rosto de Cristo, da Vinci seguiu pintando os demais apóstolos a partir dos rostos de moradores da região que se apresentavam voluntariamente como modelos. Ele pintou Pedro, André, Tiago e João e todos os demais, com excepção de Judas. É que seria difícil encontrar alguém que se desse ao papel de emprestar o seu próprio rosto para retratar o traidor do Filho de Deus. Isso seria o mesmo que assinar um atestado de autodesprezo e sem amor próprio.
Tendo dificuldades em encontrar um Judas apropriado, da Vinci despendeu muito tempo procurando alguém entre os criminosos de um presídio local. O superior do mosteiro, aborrecido com a demora, começou a sugerir que o atraso do artista se devia na verdade à sua preguiça e não a qualquer dificuldade em encontrar o modelo adequado. A isto, Leonardo respondeu dizendo: “De facto eu tenho dificuldades em encontrar um Judas no meio dos homens, mas se for pressionado, saibam que o superior seria um excelente modelo!”

Depois de seis anos de intensa procura, da Vinci finalmente encontrou um homem que estava preso numa masmorra em Roma. Tratava-se de um trapo de gente. Constantemente bêbado, aquele sujeito tinha um cheiro horrível e nenhuma consideração por si mesmo. Era o modelo perfeito para Judas!
Por uma ordem especial do rei, o prisioneiro pôde partir com Leonardo para Milão, onde por vários meses o artista trabalhou fazendo daquele miserável o último personagem que completaria a pintura. Terminado o trabalho, o condenado deveria voltar para junto do seu carcereiro para continuar preso em Roma. Antes porém de sair, ele começou a chorar e, entre gritos e soluços, virou-se para da Vinci dizendo: “ Sr. Leonardo, olhe para mim mais uma vez! O senhor não me reconhece?”
Olhando de perto o rosto do homem, da Vinci respondeu: “Há algo de familiar nos seus olhos, mas não me recordo de tê-lo visto antes.” “Oh, senhor da Vinci, olhe de novo” – gritava fortemente o homem – “ eu sou o seu Cristo, ou melhor, fui, quando há sete anos eu era um jovem e o senhor escolheu-me para retratar o rosto do Mestre. Veja, porém, o que fiz com a minha vida. Hoje retrato Judas. Tornei-me um verme. Oh Deus, como pude cair tanto?”

Se da Vinci vivesse nos nossos dias e estivesse escolhendo pessoas para retratar a Santa Ceia, seria possível usar o seu semblante para retratar a beleza espiritual do filho de Deus? Pense nisso e não permita jamais que o seu rosto sirva para retratar um traidor. Deus Ama Você E Quer Torná-lo Cada Dia Mais Semelhante A Jesus E Mais Distante Da Aparência De Um Judas.

Em 1517, o rei da França, Francis I, ofereceu a da Vinci uma bela casa em Ambroise, onde o artista morou durante os últimos anos da sua vida, até morrer, em 1519, com a idade de 67 anos. Comentando a genialidade desse homem, Freud resumiu a sua vida descrevendo-o como uma pessoa «que acordou muito cedo, ainda no escuro, enquanto os outros dormiam». Da Vinci, era um homem firme que cria realmente em Deus!


Rodrigo P. Silva
ELES CRIAM EM DEUS
(Biografias de Cientistas e da sua Fé Criacionista)