segunda-feira, 12 de agosto de 2013

VIDA DE GRANDES HOMENS


"As Ações do Justo São Fonte de Vida." Provérbios 11:30

A HISTÓRIA sagrada apresenta muitas ilustrações dos resultados da verdadeira educação. Apresenta muitos nobres exemplos de homens cujo caráter foi formado sob direção divina; homens cuja vida foi uma bênção a seus semelhantes, e que estiveram no mundo como representantes de Deus. Entre estes se acham José, Daniel, Moisés, Elias e Paulo - respetivamente estadista, sapientíssimo legislador, reformador dentre os mais fiéis, e o mais ilustre instrutor que o mundo já conheceu, com exceção d'Aquele que falou como nenhum outro.


José, Íntegro Estadista
No princípio de sua vida, exatamente quando passavam da juventude para a varonilidade, José e Daniel foram separados de seus lares, e levados como cativos a países pagãos. José esteve sujeito especialmente às tentações que acompanham grandes mudanças na sorte. Na casa paterna, uma criança mimada; na casa de Potifar, escravo, depois confidente e companheiro; homem de negócios, educado pelo estudo, observação e contato com os homens; no calabouço de Faraó, prisioneiro do Estado, condenado injustamente, sem esperança de reivindicação ou perspetiva de libertamento. Chamado numa grande crise para dirigir a nação - o que o habilitou a preservar a sua integridade?
Ninguém pode ficar numa altura proeminente sem correr perigo. Assim como a tempestade deixa intacta a flor do vale e desarraiga a árvore no topo das montanhas, as terríveis tentações que deixam ilesos os humildes da vida, assaltam os que se acham nos altos postos de êxito e honras. José, porém, suportou a prova da adversidade, e da prosperidade, de modo semelhante. A mesma fidelidade que manifestou nos palácios de Faraó, manifestou na cela do prisioneiro.
Na sua meninice, havia sido ensinado a José o amor e temor de Deus. Muitas vezes, na tenda do seu pai, sob as estrelas da Síria, contava-se-lhe a história da visão noturna de Betel, da escada do Céu à Terra e dos anjos que por ela desciam e subiam, e d'Aquele que do trono, no alto, Se revelou a Jacó. Fora-lhe contada a história do conflito ao lado do rio Jaboque, quando renunciando a pecados acariciados, Jacó se tornou conquistador e recebeu o título de Príncipe com Deus.

A vida pura e simples de José, como um pastorzinho guiando os rebanhos do seu pai, favorecera o desenvolvimento não só da capacidade física mas também da mental. Em comunhão com Deus por meio da Natureza e do estudo das grandes verdades transmitidas como um sagrado legado de pai a filho, adquiriu ele vigor mental e firmeza de princípios.
No momento crítico da sua vida, quando fazia aquela terrível viagem do lar da sua infância em Canaã, para o cativeiro que o esperava no Egito, olhando pela última vez as colinas que ocultavam as tendas da sua parentela, José lembrou-se do Deus de seu pai. Recordou-se das lições da infância e a sua alma estremeceu com a resolução de mostrar-se verdadeiro - agindo sempre como convém a um súbdito do Rei celestial.
Na amargurada vida de estrangeiro e escravo, entre as cenas e os ruídos do vício e das seduções do culto pagão, culto este cercado de todas as atrações de riquezas, cultura e pompas da realeza, José permaneceu firme. Tinha aprendido a lição da obediência ao dever. A fidelidade em todas as situações, desde as mais humildes até às mais exaltadas, adestrou toda a sua capacidade para o mais elevado serviço.
Na ocasião em que ele fora chamado à corte de Faraó, o Egito era a maior das nações. Em civilização, arte, saber, era inigualado. Através de um período de máxima dificuldade e perigo, José administrou os negócios do reino; e isto fez de maneira a captar a confiança do rei e do povo. Faraó fez dele "senhor da sua casa, e governador de toda a sua fazenda, para a seu gosto sujeitar os seus príncipes, e instruir os seus anciãos." (Salmo 105:21, 22).
A Bíblia apresenta-nos o segredo da vida de José. Jacó, na bênção pronunciada sobre os seus filhos, assim falou, em palavras de divino poder e beleza, daquele dentre eles que mais amava:

"José é um ramo frutífero, ramo frutífero junto à fonte;
seus galhos se estendem sobre o muro.
Os frecheiros lhe dão amargura, atiram contra ele e o aborrecem.
O seu arco, porém, permanece firme,
e os seus braços são feitos ativos pelas mãos do Poderoso de Jacó,
sim, pelo Pastor e pela Pedra de Israel,
pelo Deus de teu pai, o qual te ajudará, e pelo Todo-poderoso,
o qual te abençoará, com bênçãos dos altos céus,
com bênçãos das profundezas, com bênçãos dos seios e da madre.
As bênçãos de teu pai excederão as bênçãos de meus pais
até ao cimo dos montes eternos;
estejam elas sobre a cabeça de José, e sobre o alto da cabeça
do que foi distinguido entre seus irmãos."


(Génesis 49:22-26, Bíblia Vida Nova)

Lealdade para com Deus, fé no invisível - foram a âncora de José. Nisto se encontrava o segredo do seu poder: "E os seus braços são feitos ativos pelas mãos do Poderoso de Jacó."


Daniel, um Embaixador do Céu
Daniel e os seus companheiros, em Babilónia, foram aparentemente mais favorecidos da sorte, na sua juventude, do que o foi José, nos primeiros anos da sua vida no Egito; não obstante, estiveram sujeitos a provas de caráter quase tão severas como as suas. Vindos do seu lar judeu, de relativa simplicidade, estes jovens da linhagem real foram transportados à mais magnificente das cidades, para a corte do seu maior monarca, e separados a fim de ser instruídos para o serviço especial do rei. Fortes eram as tentações que os cercavam naquela corte corrupta e luxuosa. O fato de que eles, os admiradores de Jeová, eram cativos em Babilónia; de que os vasos da casa de Deus tinham sido postos no templo dos deuses de Babilónia; de que o próprio rei de Israel era um prisioneiro nas mãos dos babilónios, era jactanciosamente citado pelos vitoriosos como evidência de que a sua religião e costumes eram superiores aos dos hebreus. Sob tais circunstâncias, e por meio das próprias humilhações ocasionadas pelo afastamento de Israel dos mandamentos de Deus, Ele apresentou a Babilónia evidências da Sua supremacia, da santidade dos Seus mandamentos, e do resultado certo da obediência. E este testemunho Ele deu - como unicamente poderia ter dado - por meio daqueles que ainda mantinham firme a sua fidelidade.
A Daniel e seus companheiros, logo ao princípio da sua carreira, sobreveio uma prova decisiva. A ordem de que o seu alimento deveria ser suprido da mesa do rei foi uma expressão do favor real, bem como da sua solicitude pelo bem-estar deles. Mas, sendo uma parte oferecida aos ídolos, o alimento da mesa real era consagrado à idolatria; e, participando da munificência do rei, estes jovens seriam considerados como se estivessem unindo a sua homenagem aos falsos deuses. A sua fidelidade para com Jeová proibia-lhes participar de tal homenagem. Tampouco ousavam eles arriscar-se aos efeitos enervantes do luxo e dissipação sobre o desenvolvimento físico, intelectual e espiritual.

Daniel e os seus companheiros tinham sido fielmente instruídos nos princípios da palavra de Deus. Haviam aprendido a sacrificar o terrestre pelo espiritual, a buscar o mais alto bem. Os seus hábitos de temperança e o seu senso de responsabilidade como representantes de Deus, reclamavam o mais nobre desenvolvimento das faculdades do corpo, da mente e da alma. Ao terminar o seu preparo, sendo examinados com outros candidatos às honras do reino "não foram achados outros tais como Daniel, Hananias, Misael, e Azarias." (Daniel 1:19).
Na corte de Babilónia estavam reunidos representantes de todos os países, homens dos melhores talentos, dos mais abundantemente favorecidos com dons naturais e possuidores da mais alta cultura que o mundo poderia conferir; no entanto, entre todos eles, os cativos hebreus não tinham igual. Na força física e na beleza, no vigor mental e preparo literário, não tinham rival. "E em toda a matéria de sabedoria, e de inteligência, sobre que o rei lhes fez perguntas, os achou 10 vezes mais doutos do que todos os magos ou astrólogos que havia em todo o reino." (Daniel 1:20).
Inabalável na sua aliança com Deus, intransigente no domínio de si próprio, a nobre dignidade e delicada deferência de Daniel ganharam para ele na sua mocidade o "favor e terno amor" do oficial gentio a cargo do qual ele se achava. As mesmas características assinalaram a sua vida. Rapidamente ele galgou a posição de 1º ministro do reino. Durante o império de sucessivos monarcas, a queda da nação e o estabelecimento de um reino rival, tal era a sua sabedoria e qualidades de estadista, tão perfeitos o seu tato, cortesia e genuína bondade de coração, combinada com a fidelidade aos princípios, que mesmo os seus inimigos eram obrigados a confessar que "não podiam achar ocasião ou culpa alguma, porque ele era fiel." (Daniel 6:4).

Apegando-se Daniel a Deus com inabalável confiança, o espírito do poder profético veio sobre ele. Sendo honrado pelos homens com as responsabilidades da corte e os segredos do reino, honrado foi por Deus como Seu embaixador, bem como instruído a ler os mistérios dos séculos vindouros. Monarcas pagãos, mediante a associação com o representante do Céu, foram constrangidos a reconhecer o Deus de Daniel. "Certamente," declarou Nabucodonosor, "o vosso Deus é Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador dos segredos." E Dario na sua proclamação "a todos os povos, nações e gente de diferentes línguas, que moram em toda a Terra," exaltou o "Deus de Daniel" como "o Deus vivo e para sempre permanente, e o Seu reino não se pode destruir;" que "livra e salva, e opera sinais e maravilhas no céu e na Terra." (Daniel 2:47; 6:25-27).

Homens Fiéis e Honestos

Pela sua sabedoria e justiça, pela pureza e benevolência da sua vida diária, pela sua dedicação aos interesses do povo - e este era idólatra - José e Daniel mostraram-se fiéis aos princípios da sua primeira educação, fiéis para com Aquele de quem eram os representantes. A tais homens, tanto no Egito como em Babilónia, a nação toda honrou; e neles, um povo pagão, assim como todas as nações com quem entretiveram relações, contemplaram uma ilustração da bondade e beneficência de Deus, uma imagem do amor de Cristo.
Que considerável obra foi a que executaram estes nobres hebreus durante a sua vida! Quão pouco sonhariam eles com seu alto destino, ao se despedirem do lar de sua meninice! Fiéis e firmes, entregaram-se à direção divina, de maneira que por intermédio deles Deus pôde cumprir o Seu propósito.
As mesmas grandiosas verdades que foram reveladas por estes homens, Deus deseja revelar por meio dos jovens e crianças de hoje.
A história de José e Daniel é uma ilustração daquilo que Ele fará pelos que se entregam a Ele, e que de todo o coração procuram cumprir o Seu propósito.

A maior necessidade do mundo é a de homens - homens que não se comprem nem se vendam; homens que no íntimo da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar o pecado pelo seu nome exato; homens, cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao polo; homens que permaneçam firmes pelo que é reto, ainda que caiam os céus.
Mas um caráter tal não é obra do acaso; nem se deve a favores e concessões especiais da Providência. Um caráter nobre é o resultado da disciplina própria, da sujeição da natureza inferior pela superior - a renúncia do eu para o serviço de amor a Deus e ao homem.
Os jovens precisam de ser impressionados com a verdade de que os seus dotes não são deles próprios. Força, tempo, intelecto - não são senão tesouros emprestados. Pertencem a Deus; e deve ser a decisão de todo o jovem pô-los no mais elevado uso. O jovem é um ramo do qual Deus espera fruto; um mordomo cujo capital deve crescer; uma luz para iluminar as trevas do mundo. Cada jovem, cada criança, tem uma obra a fazer para honra de Deus e erguimento da humanidade.



Eliseu, Fiel em Coisas Pequenas
Os primeiros anos da vida do profeta Eliseu passaram-se na quietude da vida campesina, sob o ensino de Deus e da Natureza, e na disciplina do trabalho útil. Num tempo de quase universal apostasia, a casa do seu pai estava entre o número dos que não tinham dobrado os joelhos a Baal. Na sua casa Deus era honrado, e a fidelidade ao dever era regra da vida diária.
Filho de um abastado fazendeiro, Eliseu havia assumido o trabalho que mais perto estava. Conquanto possuísse capacidade para ser um dirigente entre os homens, recebeu ensino nos deveres usuais da vida. A fim de dirigir sabiamente, ele devia aprender a obedecer. Pela fidelidade nas coisas pequenas, preparou-se para os encargos maiores.
Dotado de espírito meigo e gentil, possuía Eliseu também energia e firmeza. Acariciava o amor e temor de Deus, e na humilde rotina do trabalho diário adquiria força de propósitos e nobreza de caráter, crescendo na graça e no conhecimento divinos. Enquanto cooperava com o seu pai nos deveres domésticos, aprendia a cooperar com Deus.
O chamado profético veio a Eliseu, quando com os servos do seu pai arava o campo. Quando Elias, divinamente guiado na procura de um sucessor, lançou a sua capa sobre os ombros de Eliseu, reconheceu este moço aquele chamado e lhe obedeceu. Ele "seguiu a Elias, e o servia." (I Reis 19:21). Não era uma grande obra a que se requeria a princípio de Eliseu; deveres usuais ainda constituíam a sua disciplina. Fala-se dele como o que despejava água às mãos de Elias, seu senhor. Como ajudante pessoal do profeta, continuou a mostrar-se fiel nas coisas pequenas, enquanto com um propósito cada dia mais firme se dedicava à missão a ele designada por Deus.
Ao ser chamado, a sua resolução foi provada. Ao volver-se para acompanhar a Elias, recebeu ordem do profeta para voltar para casa. Ele devia avaliar por si as dificuldades - decidir-se a aceitar ou rejeitar o chamado. Eliseu, porém, compreendeu o valor da sua oportunidade. Por nenhuma vantagem mundana desprezaria ele a oportunidade de se tornar mensageiro de Deus, ou sacrificar o privilégio da associação com o Seu servo.

À medida que passava o tempo, e Elias se preparava para a trasladação, Eliseu se aprontava para se tornar seu sucessor. E de novo a sua fé e resolução foram provadas. Acompanhando a Elias no seu trabalho do costume, e sabendo a mudança que logo ocorreria, era em cada lugar convidado pelo profeta para voltar. "Fica-te aqui, porque o Senhor me enviou a Betel", disse Elias. Mas, nos seus primeiros trabalhos de guiar o arado, Eliseu tinha aprendido a não fracassar nem desanimar; e agora que ele havia posto a mão ao arado para os deveres de outra natureza, não se desviaria do seu propósito. Tantas vezes quantas lhe era feito o convite para voltar, a sua resposta era: "Vive o Senhor, e vive a tua alma, que te não deixarei." (II Reis 2:2).
"E assim ambos foram juntos... E ambos pararam junto ao Jordão. Então Elias tomou a sua capa, e a dobrou, e feriu as águas, as quais se dividiram para as duas bandas: e passaram ambos em seco. Sucedeu pois que, havendo eles passado, Elias disse a Eliseu: Pede-me o que queres que te faça, antes que seja tomado de ti. E disse Eliseu: Peço-te que haja porção dobrada do teu espírito sobre mim. E disse: Coisa dura pediste; se me vires quando for tomado de ti, assim se te fará; porém, se não, não se fará. E sucedeu que indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho.
"O que vendo Eliseu, clamou: Meu pai, meu pai, carros de Israel, e seus cavaleiros! E nunca mais o viu; e, tomando os seus vestidos, os rasgou em duas partes. Também levantou a capa de Elias, que lhe caíra; e voltou-se e parou à borda do Jordão. E tomou a capa de Elias, que lhe caíra, e feriu as águas e disse: Onde está o Senhor, Deus de Elias? Então feriu as águas, e se dividiram elas para uma e outra banda; e Eliseu passou. Vendo-o pois os filhos dos profetas que estavam defronte em Jericó, disseram: O espírito de Elias repousa sobre Eliseu. E vieram-lhe ao encontro, e se prostraram diante dele em terra". (II Reis 2:6-15). Desde então Eliseu ficou em lugar de Elias. E aquele que fora fiel no mínimo, mostrou-se também fiel no muito.

Elias, homem dotado de poder, tinha sido o instrumento de Deus na subversão de males gigantescos. Fora derribada a idolatria que, mantida por Acabe e pela gentílica Jezabel, havia seduzido a nação. Os profetas de Baal tinham sido mortos. Todo o povo de Israel tinha sido profundamente abalado, e muitos estavam voltando ao culto a Deus. Como sucessor de Elias era necessário alguém que por meio de instrução cuidadosa e paciente pudesse guiar Israel nos caminhos seguros. Para tal trabalho o primitivo ensino de Eliseu, sob a direção de Deus, o havia preparado.
A lição é para todos. Ninguém pode saber qual seja o propósito de Deus em Sua disciplina; mas todos podem estar certos de que a fidelidade nas pequenas coisas é a evidência do preparo para as maiores responsabilidades.
Cada ato da vida é uma revelação do caráter, e somente aquele que nos menores deveres se mostre "obreiro que não tem de que se envergonhar" (II Timóteo 2:15), será honrado por Deus com encargos de mais responsabilidade.


Moisés, Poderoso Pela Fé
Mais jovem do que José ou Daniel era Moisés quando foi removido do amparador cuidado do lar da sua infância; não obstante, as mesmas influências que haviam moldado a vida daqueles, tinham já modelado a sua. Apenas doze anos passara ele com os parentes hebreus; mas durante estes anos lançou-se o fundamento da sua grandeza; lançara-o a mão de alguém que não deixou nome memorável.
Joquebede era mulher e escrava. A sua porção na vida era humilde e os seus encargos pesados. Mas, com exceção de Maria de Nazaré, por intermédio de nenhuma outra mulher recebeu o mundo maior bênção. Sabendo que o seu filho logo deveria sair de sob os seus cuidados, para passar aos daqueles que não conheciam a Deus, da maneira mais fervorosa se esforçou ela por unir a sua alma ao Céu. Procurou implantar no seu coração amor e lealdade para com Deus. E fielmente cumpriu este trabalho. Aqueles princípios da verdade que eram a preocupação do ensino de sua mãe e a lição da sua vida, nenhuma influência posterior poderia induzir Moisés a renunciar.
Do humilde lar em Gósen, o filho de Joquebede passou ao palácio dos Faraós, à princesa egípcia, e por meio desta veio a ser bem recebido como filho amado e acariciado. Nas escolas do Egito, Moisés recebeu o mais alto preparo civil e militar. De grande atração pessoal, distinto na aparência e estatura, de espírito culto e porte principesco, e de fama como chefe militar, tornou-se o orgulho da nação. O rei do Egito também era membro do sacerdócio; e Moisés, apesar de se recusar a participar do culto pagão, era iniciado em todos os mistérios da religião egípcia. Sendo ainda nessa época o Egito a mais poderosa e mais altamente civilizada das nações, Moisés como seu provável soberano era herdeiro das mais altas honras que este mundo podia conferir. A sua escolha, porém, foi mais nobre. Por amor da honra de Deus e livramento do Seu povo oprimido, Moisés sacrificou as honras do Egito. Então, de maneira especial, Deus empreendeu a sua educação.

Moisés ainda não estava preparado para a obra da sua vida. Tinha ainda de aprender a lição de confiança no poder divino. Ele havia compreendido mal o propósito de Deus. Era sua esperança libertar Israel pela força das armas. Para isto arriscou tudo e fracassou. Derrotado e dececionado, tornou-se fugitivo e exilado em terra estranha.
Nos desertos de Midiã, Moisés passou quarenta anos como pastor de ovelhas. Aparentemente afastado para sempre da missão da sua vida, estava recebendo a disciplina essencial para o seu cumprimento. A sabedoria para governar uma multidão ignorante e indisciplinada deveria ser ganha pelo domínio de si próprio. No cuidado das ovelhas e dos tenros cordeiros deveria obter a experiência que faria dele fiel e longânimo pastor para Israel. Para que pudesse tornar-se um representante de Deus, deveria d'Ele aprender.
As influências que o haviam cercado no Egito, a afeição da sua mãe adotiva, a sua própria posição como neto do rei, o luxo e o vício que o seduziam de dez mil maneiras; o apuro, subtileza e misticismo de uma religião falsa, tinham produzido certa impressão no seu espírito e caráter. Na rude simplicidade do deserto tudo isto desapareceu.
Na solene majestade da solidão das montanhas, Moisés estava a sós com Deus. Em toda a parte estava escrito o nome do Criador. Moisés parecia achar-se na Sua presença, e protegido pelo Seu poder. Ali a sua presunção foi afugentada. Na presença do Ser infinito ele se compenetrou de quão fraco, quão ineficiente e quão curto de vista é o homem.

Ali Moisés adquiriu aquilo que o acompanhou durante os anos da sua vida trabalhosa e sobrecarregada de cuidados - a intuição da presença pessoal do Ser divino. Não olhava meramente através dos séculos para Cristo a manifestar-Se em carne; via a Cristo acompanhando o exército de Israel em todas as suas viagens. Quando era mal compreendido, ou difamadas as suas ações, ou quando tinha de suportar a ignomínia e o insulto, e enfrentar o perigo e a morte, estava ele habilitado a resistir "como vendo o Invisível." (Hebreus 11:27).
Moisés não pensava simplesmente acerca de Deus; ele via a Deus. Deus era a constante visão diante dele. Nunca perdeu de vista a Sua face.
Para Moisés, a fé não era uma conjetura, era a realidade. Ele cria que Deus dirigia a sua vida em particular, e em todos os seus detalhes ele O reconhecia. Para obter a força a fim de resistir a todas as tentações, confiava n'Ele.
A grande obra que lhe era confiada, desejava fazê-la com o maior êxito possível, e pôs a sua confiança toda no poder divino. Sentiu sua necessidade de auxílio, pediu-o, adquiriu-o pela fé, e saiu na certeza de manter a força.
Tal foi a experiência que Moisés alcançou com os quarenta anos de preparo no deserto. Para comunicar tal experiência, a Sabedoria Infinita não considerou demasiado longo o período nem excessivamente grande o preço.
Os resultados daquele preparo, e das lições então ensinadas, ligam-se intimamente, não só à história de Israel, mas a tudo que desde aquele tempo até hoje tem contribuído para o progresso do mundo. O mais elevado testemunho da grandeza de Moisés, ou seja, o juízo feito da sua vida pela Inspiração, é: "Nunca mais se levantou em Israel profeta algum como Moisés, a quem o Senhor conhecera cara a cara". (Deuteronómio 34:10).


Paulo, Alegre no Serviço
Com a fé e experiência dos discípulos galileus que haviam feito companhia a Jesus, encontraram-se reunidos na obra do evangelho o indómito vigor e o poder intelectual de um rabi de Jerusalém. Cidadão romano, nascido numa cidade gentílica, e judeu não somente por descendência mas por ensinos recebidos em toda a sua vida, por patriotismo e religião; educado em Jerusalém pelo mais eminente dos rabis, e instruído em todas as leis e tradições dos pais, Saulo de Tarso participava no maior grau do orgulho e dos preconceitos da sua nação. Ainda jovem, tornou-se honrado membro do sinédrio. Era considerado homem promissor, zeloso defensor da antiga fé.
Nas escolas teológicas da Judeia, a Palavra de Deus tinha sido preterida pelas especulações humanas; tinha sido privada do seu poder pelas interpretações e tradições dos rabis. Exaltação própria, amor ao domínio, cioso exclusivismo, fanatismo e orgulho desdenhoso, eram os princípios e motivos que regiam estes ensinadores.
Os rabis gloriavam-se na sua superioridade não somente sobre o povo de outras nações, mas também sobre a multidão do seu próprio país. Com ódio feroz aos seus opressores romanos, acariciavam a resolução de recuperar pela força das armas a sua supremacia nacional. Aos seguidores de Jesus, cuja mensagem de paz era tão contrária aos seus ambiciosos planos, odiaram e mataram. Nesta perseguição, Saulo era um dos atores mais atrozes e implacáveis.
Nas escolas militares do Egito, foi ensinada a Moisés a lei da força, e tão fortemente se apegou este ensino ao seu caráter que foram precisos quarenta anos de quietação e comunhão com Deus e a Natureza para habilitá-lo à chefia de Israel pela lei do amor. A mesma lição Paulo teve de aprender.

Às portas de Damasco a visão do Crucificado mudou todo o curso da sua vida. O perseguidor tornou-se discípulo; o mestre, aluno. Os dias de trevas passados em solidão em Damasco foram como anos em sua experiência. As Escrituras do Velho Testamento, entesouradas, na sua memória, foram o seu estudo, e Cristo o seu mestre. Para ele também a solidão da Natureza se tornou uma escola. Para o deserto da Arábia foi ele, a fim de estudar ali as Escrituras e aprender acerca de Deus. Esvaziou a alma dos preconceitos e tradições que lhe haviam moldado a vida e recebeu instruções da Fonte da verdade.
Sua vida posterior foi inspirada unicamente pelo princípio do sacrifício de si mesmo - o ministério do amor. "Eu sou devedor," disse ele, "tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes". "O amor de Cristo nos constrange". (Romanos 1:14; II Coríntios 5:14).
Como o maior dos ensinadores humanos, Paulo aceitava os mais humildes deveres assim como os mais elevados. Reconhecia a necessidade do trabalho tanto para as mãos como para a mente, e trabalhava num ofício para a manutenção própria. Prosseguia com o seu ofício de fazer tendas ao mesmo tempo que diariamente pregava o evangelho nos grandes centros da civilização.
"Estas mãos me serviram", disse ele, ao despedir-se dos anciãos de Éfeso, "para o que me era necessário, a mim e aos que estão comigo." Atos 20:34.
Conquanto possuísse altos dotes intelectuais, a vida de Paulo revelava o poder de uma sabedoria mais rara. Princípios do mais profundo alcance, princípios a respeito dos quais os maiores espíritos do seu tempo eram ignorantes, desdobravam-se em seus ensinos e exemplificavam-se em sua vida. Ele possuía a maior de todas as sabedorias - a que proporciona prontidão para discernir e simpatia de coração, e que põe o homem em contato com os homens, e o habilita a suscitar sua melhor natureza e inspirá-los a uma vida mais elevada.

- Escute-lhe as palavras diante dos pagãos de Listra, quando ele os dirige a Deus, revelado na Natureza, fonte de todo o bem, "dando-vos chuvas e tempos frutíferos, enchendo de mantimento e de alegria o vosso coração". Atos 14:17.
- Veja-o na masmorra em Filipos, onde apesar de ter o corpo dolorido pelas torturas, o seu cântico de louvor quebrava o silêncio da meia-noite. Depois que o terremoto abre as portas da prisão, a sua voz é de novo ouvida em palavras de ânimo ao carcereiro pagão: "Não te faças nenhum mal, que todos aqui estamos" (Atos 16:28) - cada um em seu lugar, constrangido pela presença de um companheiro de prisão. E o carcereiro, convicto da realidade daquela fé que sustinha a Paulo, inquire acerca do caminho da salvação, e com toda a sua casa se une ao grupo perseguido dos discípulos de Cristo.
- Veja Paulo em Atenas perante o conselho do Areópago, defrontando ciência com ciência, lógica com lógica, filosofia com filosofia. Notai como, com aquele tato oriundo do amor divino, aponta a Jeová como o "Deus desconhecido" (Atos 17:23), ao qual os seus ouvintes têm ignorantemente adorado; e com palavras citadas de um poeta deles mesmos, descreve-O como um Pai de quem eles próprios são filhos.
- Ouvi-o, naquela época de diferenças sociais em que os direitos do homem, como tal, não eram absolutamente reconhecidos, a apresentar a grande verdade da fraternidade humana, declarando que Deus "de um só fez toda a geração dos homens para habitar sobre toda a face da Terra". Atos 17:26. Então mostra como, à maneira de um fio de ouro, se desenrola o propósito divino da graça e misericórdia através de todo o trato de Deus com o homem. Ele determinou "os tempos já dantes ordenados e os limites da sua habitação, para que buscassem ao Senhor, se, porventura, tateando, O pudessem achar, ainda que não está longe de cada um de nós". Atos 17:26 e 27.
- Ouça-o na corte de Festo, quando o rei Agripa, convencido da verdade do evangelho, exclama: "Por pouco me queres persuadir a que me faça cristão!" Atos 26:28. Com que gentil cortesia, apontando para a sua cadeia, Paulo responde: "Prouvera a Deus que, ou por pouco ou por muito, não somente tu, mas também todos quantos hoje me estão ouvindo se tornassem tais qual eu sou, exceto estas cadeias." Atos 26:29.

Assim passou a vida, como a descreve em suas próprias palavras - "em viagens, muitas vezes; em perigos de rios, em perigos de ladrões, em perigos dos da minha nação, em perigos dos gentios, em perigos na cidade, em perigos no deserto, em perigos no mar, em perigos entre os falsos irmãos; em trabalhos e fadiga, em vigílias, muitas vezes, em fome e sede, em jejum, muitas vezes, em frio e nudez". II Coríntios 11:26 e 27.
"Somos injuriados", disse ele, "e bendizemos; somos perseguidos e sofremos; somos blasfemados e rogamos" (I Coríntios 4:12 e 13); "como contristados, mas sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo e possuindo tudo." II Coríntios 6:10.
Encontrava ele a alegria no servir; e ao terminar a vida de trabalho, olhando para trás às lutas e triunfos, podia dizer: "Combati o bom combate." II Timóteo 4:7.

Estas histórias são de interesse vital. A ninguém são elas de maior importância do que aos jovens. Moisés renunciou a um reino em perspetiva; Paulo, às vantagens da riqueza e honra entre o seu povo, para levar uma vida de pesados encargos no serviço de Deus. A muitas pessoas a vida destes homens parece ser de renúncia e sacrifício. Foi realmente assim? Moisés considerava a injúria de Cristo maiores riquezas do que os tesouros do Egito. Ele assim considerava porque assim era. Paulo declarou: "O que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo. E, na verdade, tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo Qual sofri a perda de todas estas coisas e as considero como esterco, para que possa ganhar a Cristo." Filipenses 3:7 e 8. Ele estava satisfeito com a sua escolha.
A Moisés era oferecido o palácio dos Faraós e o trono do rei; mas os prazeres pecaminosos que fazem com que os homens se esqueçam de Deus, prevaleciam naquelas cortes senhoris, e em lugar deles escolheu "riquezas duráveis e justiça". Provérbios 8:18. Em vez de se ligar às grandezas do Egito, preferiu unir a vida ao propósito divino. Em vez de dar leis ao Egito, por direção divina deu-as ao mundo.
Tornou-se o instrumento de Deus em transmitir ao homem aqueles princípios (Os Dez Mandamentos) que são a salvaguarda tanto do Lar como da Sociedade, e que são a pedra fundamental da prosperidade das nações - princípios hoje reconhecidos pelos maiores homens do mundo como o fundamento de tudo o que é melhor nos governos humanos. A grandeza do Egito jaz no pó. Passaram-se seu poderio e civilização. Mas a obra de Moisés jamais poderá perecer. Os grandes princípios de justiça, os quais ele viveu, são eternos.



A vida de Moisés, de trabalhos e de cuidados que pesavam sobre o coração, foi iluminada com a presença d'Aquele que "traz a bandeira entre dez mil", e é "totalmente desejável". (Cantares de Salomão 5:10 e 16.) Com Cristo na peregrinação do deserto, com Cristo no monte da transfiguração, com Cristo nas cortes celestiais, foi a sua vida abençoada na Terra e honrada no Céu.
Paulo também era em seus múltiplos trabalhos protegido pelo poder mantenedor da Sua presença. "Posso todas as coisas", disse ele, "n'Aquele que me fortalece." Filipenses 4:13. "Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada?" Romanos 8:35. "Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por Aquele que nos amou. Porque estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor!" Romanos 8:37-39.
Havia, contudo, uma alegria futura para a qual Paulo olhava como a recompensa de seus trabalhos - a mesma alegria por causa da qual Cristo suportou a cruz e desdenhou a ignomínia - a alegria de ver o fruto do Seu trabalho. "Qual é a nossa esperança, ou gozo, ou coroa de glória?" escreveu ele aos conversos de Tessalónica. "Porventura, não o sois vós também diante de nosso Senhor Jesus Cristo em Sua vinda? Na verdade, vós sois a nossa glória e gozo." I Tessalonicenses 2:19 e 20.

Quem poderá calcular os resultados dos trabalhos de Paulo, para o mundo? De todas estas benéficas influências que aliviam o sofrimento, que confortam a tristeza, que restringem o mal, que erguem a vida de sua condição egoísta e sensual, e a glorificam com a esperança da imortalidade, quanto se deve aos trabalhos de Paulo e de seus cooperadores, quando, com o evangelho do Filho de Deus, fizeram sua silenciosa viagem da Ásia às praias da Europa?
Qual o valor de uma vida que serviu de instrumento de Deus para colocar em ação tais influências abençoadoras? O que não valerá na eternidade testemunhar os resultados de um tal trabalho?

Ellen G. White in Educação, Casa Publicadora Brasileira.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

DIA INTERNACIONAL DA EDUCAÇÃO

COMO Podem as ESCOLAS FORTALECER a Vida FAMILIAR



O olhar de Carmen López passava de aluno a aluno. Um a um os rostos tomavam o seu devido ênfase:
Ali estava o Pedro, de cabelo ruivo e enormes olhos castanhos, a quem dava vontade de abraçar. A mãe tinha-o abandonado há quase 6 meses. Tinha ido embora porque, segundo ela, "queria pensar, pelo menos uma vez na vida, em si mesma". Carmen perguntava-se se poderia esquecer alguma vez a imagem da dor, daquela manhã, quando o Pedro lhe contava o que tinha acontecido. "A mamã abandonou-nos e foi-se embora para viver na capital", disse, enquanto olhava através da janela. "Já não nos quer mais!"
E a Marta, pobre Marta! Felizmente, dizia Carmen, tinha-a conhecido quando ainda era uma menina a quem se podia dar amor, porque ultimamente isto tornava-se muito difícil. Os efeitos da puberdade faziam-se sentir numa idade muito precoce e Marta demonstrava os efeitos dessa fase. De vez em quando assomava a doçura da infância, mas a maior parte das vezes expressava confusão, e essa rebeldia estranha da adolescência que se manifesta na maquilhagem e na roupa a chamarem a atenção, na linguagem grosseira e num desinteresse desrespeitoso pelos direitos dos outros.
De repente, chamou a atenção de Carmen um pedaço de papel que passou com algum descuido entre os alunos. Cansada, pegou nele e leu-o: "Quando a professora sair", dizia o papel, "eu começarei. Em seguida vocês todos se unirão a mim e juntos exclamaremos: 'O Ricardo é o menino mimado da professora!'; 'O Ricardo é o menino mimado da professora!' Avisem o resto da turma." Assinado: "Tomás". Carmen fixou o seu olhar de criança em criança. Tinha imaginado que a situação mudaria para melhor se ela falasse com as crianças acerca do perdão, mas Tomás tinha informado os que o rodeavam que o seu pai lhe tinha dito que o perdão é só da 1ª vez, depois há que actuar. "Avisa-se a pessoa do que lhe sucederá da próxima vez que incomodar e actua-se logo", disse o Tomás.
A cadeira mais distante do corredor estava vazia. O que fazer com a Anita? O seu pai tinha abandonado a casa há mais tempo do que Anita se podia recordar. Agora a sua mãe tinha outro marido, que também tinha os seus próprios filhos. Se pelo menos... As emoções de Carmen eram tão intensas que, tão sobrecarregada, estava a ponto de exclamar em voz alta: "Se ao menos pudesse pôr de lado as minhas suspeitas de abuso paterno..., ou mesmo ganhar a confiança de sua mãe e ultrapassar essa barreira impenetrável para descobrir a realidade e ajudar a Anita!

Alguém levantou as mãos, interrompendo as suas meditações. Ao princípio parecia muito fácil ser professora. Mas a realidade exige de uma pessoa mais do que métodos atractivos para servir de aliciante aos alunos na leitura e na explicação da matemática.
Como poderia ela ajudá-los a suportar as cargas emocionais que transportavam? Como poderia servir-lhes de alívio, restituir-lhes o que fazia parte dessa idade juvenil, livre de preocupações? De que maneira, por meio do ensino, poderia influenciar positivamente a vida familiar dos seus alunos? Era apenas um sonho ingénuo supor que essas mesas não seriam mais ocupadas por crianças sofredoras?


É um facto que quando as crianças vêm para a Escola trazem consigo, de certo modo, as suas famílias. Quer dizer, as experiências do Lar deixam-lhes cicatrizes que durante toda a vida os seguirão afectando profundamente.
O número crescente de crianças sem supervisão nos seus lares, somado à grande pressão económica que sofrem os pais, faz com que estas prioridades deixem pouco tempo e energia para fomentar boas relações familiares.

O divórcio e a separação dos cônjuges têm criado uma das maiores crises que as crianças e os jovens têm de enfrentar nos dias de hoje. Para a maioria, se não a totalidade, esta experiência resulta num desvio emocional e psicológico de si próprios. Inclusivamente, o que aparenta ser o melhor arranjo para o cuidado das crianças acaba por ser um jugo pesado que esses mesmos filhos carregam. Quando ocorre um novo casamento e se introduzem padrastos, aumenta-se as tensões, pois agora são duas famílias distintas, que possivelmente terão experimentado dor e perda, que têm de fazer um novo arranjo.

Como um espelho que distorce as imagens, os meios de comunicação têm deformado, nas crianças e jovens, o conceito do que significa a Família, limitando as suas próprias experiências, eliminando as barreiras que os protegiam da dura realidade da vida adulta e inculcando-lhes uma mensagem superficial de que todos os problemas se resolvem facilmente com um produto ou um comprimido. O aumento de sentimentos de frustração, ira, ressentimento e pena, trouxe como resultado uma violência familiar de proporções gigantescas.
Os adolescentes respondem com indiferença perante os valores paternais e voltam-se para os seus companheiros da mesma idade. Sentindo-se incapazes de enfrentar os seus problemas, muitos deles simplesmente se tornam passivos, fugindo de casa, abandonando os estudos, voltando-se para as drogas, para a delinquência e até o suicídio.

UM CÍRCULO VICIOSO

É sabido que as famílias disfuncionais continuam a produzir mais famílias disfuncionais. Que podemos fazer para minorar esta descida vertiginosa? Não há dúvida de que as crises que os alunos enfrentam nas suas casas hoje em dia são de tal magnitude que requerem a ajuda por parte da Escola, como de outra entidade possível, para capacitá-los a funcionar melhor.
No passado considerava-se que a base académica - ler, escrever e fazer contas - era da total responsabilidade da Escola e esperava-se que o resto da preparação estivesse a cargo do Lar, da Igreja e de toda a Sociedade. Mas, na realidade, a vida se tornou mais complexa. Enquanto o conhecimento vai aumentando - e na verdade temos uma ampla informação disponível que nos ajuda a compreender as nossas relações interpessoais e familiares - a influência, tanto do Lar como da Igreja parecem estar diminuindo. Como consequência, é inevitável que se espere mais da Escola, que tem de oferecer a sua ajuda tanto aos alunos como aos seus pais a viver melhor.

OS PROBLEMAS DE RELAÇÃO IMPEDEM UMA DOCÊNCIA EFICAZ

Ao observar-se que o comportamento conflituoso, juntamente com os problemas relacionais, dificultam o ensino eficaz, concluiu-se que a Escola deve intervir de algum modo. Os docentes e directores deram-se conta de que se não pusessem um plano de acção não poderiam ensinar nem o básico. Mas, embora a necessidade de pôr em prática, por meio da Escola algum programa de Relações Familiares Positivas, seja um fato que vai aumentando, todavia existem interrogações na mente dos educadores e dos pais.
Como devem as escolas tratar as situações que vivem os alunos nas suas casas? Deverão considerar estes assuntos do lar como um tema de educação? Se é assim, de que modo se devem ensinar?

Ellen White elevou a visão dos Educadores Adventistas dando ênfase de que a Verdadeira Educação "abrange todo o ser".1 Talvez mais do que nunca, precisamos de compreender a importância que tem a Família na formação integral dos jovens. Uma ampla gama de necessidades humanas, psicológicas, emocionais e sociais, mentais e espirituais, se nutrem e satisfazem, ou se negam e ignoram, no seio da Família. O destaque compreensivo da Educação ajuda os alunos a entender as diferentes maneiras de viver com mais satisfação no seio da Família e a prepará-los para se relacionarem harmoniosamente com as suas futuras famílias.

UM MINISTÉRIO ESPIRITUAL

A Educação Adventista é uma extensão vital do ministério espiritual da Igreja. A família está baseada como tal, num ambiente espiritual que é descrito amplamente nas Sagradas Escrituras. Por ele, a Escola tem não só o privilégio, mas também a responsabilidade de revelar ao aluno a dinâmica espiritual que se obtém no ambiente familiar, incluindo para além disso, todo o tipo de relações interpessoais. A Educação significa mais do que uma preparação para a vida atual,2 escreveu a educadora Ellen White, com a intenção de que compreendamos os factores envolvidos. Sim, muito mais, na verdade! Mas, pelo menos, busca já uma preparação para esta vida, na qual a Família assume uma grande e importante porção.


AS ESCOLAS PODEM TER UM EFEITO POSITIVO SOBRE AS FAMÍLIAS DE HOJE E DO FUTURO

Claro está que a Escola não pode tomar sobre si todas as responsabilidades do Lar que são próprias da Família, nem é sua responsabilidade básica resolver problemas de relacionamentos que algum estudante está experimentando na sua casa. Mas as Escolas podem ter um efeito positivo sobre as famílias de hoje e do futuro.

UMA INFLUÊNCIA ESTABILIZADORA

Os lares podem desequilibrar-se periodicamente quando as crianças e os adultos atravessam momentos de tensão nas suas vidas. Em troca, a Escola, no geral, mantém-se mais equilibrada e não se rege pelas emoções quando se envolve nos problemas familiares. Portanto, provê uma atmosfera mais estável, que serve como um ponto de referência para a criança, na qual deverá encontrar consideração, amor, afirmação e respeito por parte do Professor cristão, e mais ainda quando estes elementos não se manifestam no seu Lar.

UMA INFLUÊNCIA MODELADORA

O pessoal docente e outros colaboradores podem servir como modelo das maneiras certas de relacionamento de uns para com os outros. O seu amor, seu carinho, a sua disposição a escutar, ser francos com os seus alunos, a sua maneira de responder e de tomar decisões, todos estes factores têm influência poderosa, e por longo tempo, nos jovens. Os mestres cristãos que amam os seus alunos têm o privilégio de modelar papéis exemplares de conduta, e desse modo ajudar os jovens a tomar decisões positivas em relação à forma como eles agirão quando adultos. Às vezes o Professor chega a ser uma influência maior do que mesmo os pais.

O PROGRAMA DE VIDA FAMILIAR

A Educação Familiar tem que estar incluída no programa escolar. Pela sua influência sobre a juventude, a Escola tem de ser uma parte dinâmica na interpretação das mudanças sociais que estão afectando a Família, compartilhando o que se conhece acerca do desenvolvimento e comportamentos na família, educando-a quanto às relações interpessoais, apresentando aos seus membros experiências práticas para ajudá-los a funcionar melhor no ambiente familiar e que sirva para o resto das suas vidas.
Um programa bem projectado deve oferecer cursos desde o Jardim de Infância até finalizar o Ensino Secundário. O que se apresenta actualmente como orientação sexual é um princípio; porém, embora a anatomia e a fisiologia da sexualidade tenham muita importância, elas deverão ser apenas uma parte de um todo mais abrangente. A sexualidade, para ser compreendida a fundo, tem de ser considerada também do ponto de vista do plano e propósitos divinos, dos valores morais, da sua função na personalidade e do seu lugar nas relações interpessoais. O uso da frase ‘vida familiar’ não deverá ser um eufemismo para encobrir a sexualidade no programa que se oferece na Escola. A Sexualidade abrange muito mais do que a Reprodução.

Uma Apresentação Total Da Educação Para A Vida Familiar Inclui Temas Como Os Seguintes:

- Como desenvolver uma Auto-Estima Positiva de nós mesmos e dos Outros
- Domínio das Emoções
- O Processo das Crises e Tensões
- A Comunicação
- A Solução dos Conflitos
- Tomar Decisões
- Valores e Metas da Família
- As Finanças Pessoais e da Família
- O Propósito do Lar
- Abuso e Violência no Lar
- Aspectos Físicos da Maturidade Sexual
- Papéis Sexuais
- O Aborto
- A Agressão Sexual
- Suicídio entre os Adolescentes
- Preparação para o Papel de Adulto
- Namoro
- Como Escolher o Companheiro para a Vida
- Preparação para o Casamento
- Decisões acerca da Formação de uma Família
- O Amor no Casamento e na Família
- O Desenvolvimento Pessoal durante a Vida


Cada uma destas áreas abrange temas morais e emocionais de grande importância e podem ser divididos em tópicos mais detalhados. Embora alguns dos temas tenham maior importância em épocas definidas da vida, a maioria são de interesse para todos os graus do ensino básico e secundário. Alguns destes pontos já têm sido apresentados nas nossas instituições educativas, mas deve prestar-se uma maior atenção ao desenvolvimento e à implementação de um Curso Familiar específico, mais abrangente.
Ao pensar-se acerca de um tal programa, seria útil seleccionar-se vários temas mais amplos, como por exemplo: a auto-estima, as relações interpessoais, a sexualidade e as preocupações sociais que têm impacto sobre a família.
Estes temas podem repetir-se cada ano em todos os graus, tendo em conta obviamente a idade e maturidade dos estudantes, para facilitar assim uma compreensão mais profunda dos conceitos apresentados.

(...)
Na implementação deste tipo de cursos, os educadores adventistas não devem ter que lutar pela inclusão de valores morais, o que em tantas outras escolas gera controvérsias. Assim como esperamos que os nossos docentes mantenham bem alto os princípios cristãos no seu ensino de Religião, Ciência, Saúde ou Literatura, também esperamos que o façam com o Programa sobre Família.

NECESSITA-SE DE UMA CONTRIBUIÇÃO COORDENADA

O desenvolvimento de um curso de Vida Familiar requer a colaboração da Escola, do Lar e da Igreja. Com este esforço, teremos a oportunidade perfeita para unir as três Instituições mais importantes que afectam a vida dos jovens. Uma vez estabelecido, o programa terá de ser comunicado periodicamente, para que os pais possam estar informados do que as crianças estão a aprender nesse curso.
Também a Associação de Pais e Professores ou a Escola e a Igreja poderiam patrocinar seminários de desenvolvimento para os Pais, a fim de lhes ensinar os conceitos e as técnicas que os seus filhos estão a aprender.
O ideal seria também a realização de um Seminário ou uma actividade de enriquecimento onde Pais e Filhos pudessem experimentar o desenvolvimento juntos.

Sabemos que o programa básico das Escolas Adventistas é considerado como Bom, e o que lhe deu esta nota distintiva foi o factor das relacionamentos, tanto com Deus como com aqueles com quem compartilhamos a vida.


O Pedro, a Marta, o Tomás e a Anita vêm à Escola a fim de aprender as matérias básicas: ler, escrever e fazer contas. Contudo, a Verdadeira Educação tem que lhes oferecer mais do que a compreensão de dados e números. Se nos esforçarmos para ajudá-los a ter uma boa relação com as suas famílias no presente, poderemos assegurar-lhes também a promessa de ser possível formarem-se famílias mais estáveis no futuro.
Notas:
1. Ellen White, La Educación, pág 11.
2. Idem.

Ron e Karen Flowers, directores associados dos Ministérios do Lar e da Família, Departamento dos Ministérios da Família da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, Silver Spring, Maryland, EUA, in La Revista de Educacion Adventista, Número Especial, 1992.

"A verdadeira educação significa mais do que avançar num certo curso de estudos. É muito mais do que a preparação para a vida presente. Visa o ser todo, e todo o período da existência possível ao homem. É o desenvolvimento harmónico das faculdades físicas, intelectuais e espirituais. Prepara o estudante para a satisfação do serviço neste mundo, e para aquela alegria mais elevada por um mais dilatado serviço no mundo vindouro." Educação, pág. 13.

"Ensina ao menino o caminho que deve seguir, e assim, mesmo quando for velho, não se afastará dele." "A insensatez faz parte da mentalidade infantil; mas uma Educação rigorosa fá-la desaparecer." Provérbios 22:6, 15 (Tradução Interconfessional em Português Corrente).

O SENHOR É A MINHA LUZ
Salmo 27

O Senhor é a minha luz e a minha salvação, O Senhor é a fortaleza da minha vida,
Quem eu temerei? Quem eu temerei?

Quando homens avançam contra mim, E todos os meus inimigos me rodeiam,
Eles vão tropeçar e cair, Tropeçar e cair.
Apesar de todo o mundo me cercar, E a guerra cair contra mim,
Estou seguro no Senhor, Seguro no Senhor.

E no dia da aflição, Estou seguro dentro da Sua morada,
Ele vai me esconder, sim, Ele vai me esconder.
Minha cabeça será exaltada, Acima dos meus inimigos,
Eu vou cantar ao Senhor, Cantar ao Senhor.

Há uma coisa que peço ao Senhor, Para os dias da minha vida:
Que eu possa morar na casa do Senhor, Todos os dias da minha vida,
Para contemplar a Sua beleza, Buscá-l'O no Seu templo.



quinta-feira, 11 de julho de 2013

R/A/C/I/S/M/O   VERSUS   CRISTIANISMO
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Pessoas  Fantásticas...



O racismo é quase tão velho quanto a raça humana. Ele aparece em muitas formas, tanto explícita como camufladamente. Racismo existe quando permitimos que cor, casta, língua, nacionalidade, tribo, etnia ou cultura, possam de alguma maneira erigir uma parede entre pessoas, individual ou coletivamente, de maneira a fazer que alguém expresse desprezo, preconceito ou domínio sobre outrem.
A ideia de que algumas pessoas são inerentemente superiores ou inferiores pode ser derivada da religião (sistema de casta na Índia ou purificação étnica na Bósnia), da superioridade económica (colonialismo), do chauvinismo (nazismo, apartheid, tribalismo) ou de uma premissa genética falsa (Ku Klux Klan). Qualquer que seja o fator, o racismo afirma que os seres humanos não possuem os mesmos valores intrínsecos e idêntica dignidade.1
Mas seria o racismo realmente uma religião, como sugere o título deste artigo? Porque, e de que maneira, seria o racismo incompatível com o cristianismo? Na qualidade de cristãos, que podemos fazer para promover normas bíblicas nas relações humanas?

RACISMO - UMA RELIGIÃO

A antropóloga Ruth Benedict salienta que o racismo é uma religião estabelecida numa mundivisão naturalista. Racismo, afirma ela, é "o dogma que postula estar um grupo étnico condenado pela natureza a uma inferioridade hereditária, enquanto outro grupo está destinado a uma superioridade hereditária. Segundo este dogma a esperança da civilização depende da eliminação de algumas raças enquanto outras são preservadas puras".2
Aqueles que acreditam ou praticam a superioridade ou inferioridade inerente de um grupo de indivíduos sobre outro, podem não admitir, todavia, que eles estão de fato aderindo a uma religião que lhes é própria. No entanto, o racismo partilha de todas as caraterísticas essenciais de uma religião, seja secular ou sobrenatural.3
- Como Religião, o Racismo Oferece um Sentimento de Poder. Os racistas fazem da raça superior o valor central ou o objeto de devoção. Consequentemente, nessa religião, os membros encontram o "poder de ser" através da adesão e identificação com a 'raça superior'. O poder do racismo toma duas formas distintas: o racismo legal pelo qual políticas discriminatórias são codificadas nas leis do país (o apartheid, o nazismo, a escravatura); e o racismo institucional em que práticas raciais, mesmo sem o apoio legal, são impercetivelmente construídas em diversas estruturas sociais.
- Na Qualidade de Religião, o Racismo Possui as Estruturas Comuns à Religião. Ele possui a sua própria ideologia (arianismo, supremacia branca, poder da raça negra, triunfalismo tribal), realidades tangíveis (suástica), um semideus (Hitler), credos, crenças, mitos, rituais e práticas (cerimónias de purificação, cultos místicos), simbolismos, cultos comunitários (asserções periódicas do grupo) e até mesmo valores morais (como os conceitos do "certo ou errado" definidos segundo as perceções e prioridades do grupo).
- Na Qualidade de Religião, o Racismo Compete com Outras Religiões. As religiões tradicionais apelam para o sobrenatural, para figuras e valores extraterrenos, enquanto que o racismo é mais terrestre e secular. Ele pode competir com outras religiões e explorá-las para seus próprios fins. Por exemplo, considere como o nazismo tentou destruir o cristianismo autêntico enquanto cooperava com as igrejas subjugadas.
A religião apela para um líder supremo, condena os males da sociedade, procura prover respostas aos problemas sociais, exalta elevados ideais de justiça, equidade e irmandade, requer absoluta obediência e sacrifício próprio e possui o seu próprio livro de código. Tal acontece com o racismo, embora restrito ao seu próprio grupo composto de seres humanos superiores.

RACISMO E CRISTIANISMO: A INCOMPATIBILIDADE
O racismo é totalmente incompatível com o cristianismo. Os cristãos precisam entender isso pela simples razão de que o racismo, ao usar a capa da religião, torna-se tão facilmente domesticado que até mesmo os cristãos sinceros são incapazes de reconhecer os seus perigos, tornando-se vítimas da sua insistência na superioridade étnica. O cristianismo autêntico dissocia-se e condena qualquer forma ou prática de racismo.

Enumeraremos 7 Áreas Importantes nas Quais o Evangelho da Graça de Deus Rejeita a Loucura do Racismo:4


- Epistemologia. A Bíblia ensina que o conhecimento da verdade e da realidade vem "do alto": proveniente de uma revelação de Deus em Jesus e na Palavra escrita (João 17:3; II Timóteo 3:15-17). O racismo, por outro lado, apela para as "fontes de baixo", que pressupõem a existência de uma alegada raça superior, contendo várias versões de orgulho étnico. Por exemplo, os brancos racistas no século 19 encontraram uma epistemologia confortável na teoria de Darwin sobre a sobrevivência do mais forte. Através dessa teoria, os europeus encontraram confirmação de que "eles eram os mais fortes de todos".5 Herbert Spencer, argumentando em favor do darwinismo social, afirma que algumas raças são "por natureza incapazes" por serem biologicamente e inerentemente inferiores. Tais argumentos fornecem a "permissão suprema para regras sociais de dominação" e "outorga credenciais espúrias ao racismo".6
Outra fonte de conhecimento para o racista é a compreensão subjetiva e depreciativa da outra raça, que é solidificada por crenças exageradas, mitos, estereótipos e piadas. Para se obter um entendimento cabal daquilo que se passa num determinado contexto social, é necessário pertencer a uma raça particular e adotar as suas interpretações da realidade.
A versão racista da verdade ignora ou rejeita assim a asserção bíblica de que todos os seres humanos, criados à imagem de Deus, têm a capacidade de compreender, ter empatia, apreciar e comunicar entre si, a despeito do contexto racial. Ao rejeitar a revelação bíblica, o racista busca na sociologia, antropologia, história e ciência, a maneira de explicar e encarar os problemas raciais. O racismo pode às vezes consultar a Bíblia, mas somente para encontrar apoio para as suas posições.7
- Criação. A doutrina bíblica da Criação estabelece a unidade e igualdade biológica da raça humana. A declaração de S. Paulo de que Deus "de um só fez a geração dos homens" (Atos 17:26) enfatiza a singularidade de Deus e a singularidade da humanidade. A pressuposição racista da inferioridade de algumas raças não somente nega esse princípio bíblico, como afronta o caráter de Deus, ao sugerir que Ele é responsável pelos supostos defeitos em algumas das espécies humanas.
Além disso, uma teologia racista implica que algumas pessoas não fazem parte da família humana a quem Deus confiou o domínio sobre a ordem criada (Génesis 1:26), e que tais podem ser subjugados e explorados por uma raça superior. T. F. Torrence argumenta corretamente que o "racismo é uma invasão da própria ordem da Criação", e funciona em "oposição direta ao propósito divino da graça, sobre o qual toda a criação depende".8
- A Natureza dos Seres Humanos. O ensino bíblico de que os seres humanos são criados à imagem de Deus implica que, como agentes morais livres, eles fazem escolhas das quais terão que prestar contas a Deus e a eles mesmos na comunidade.
O racismo rejeita a doutrina bíblica da humanidade e apela para o determinismo genético ou biológico a fim de sustentar as suas reivindicações racistas. Quando o racismo ensina, por exemplo, que algumas raças são, por natureza, fisicamente fracas, intelectualmente limitadas ou moralmente inferiores, tal determinismo limita o potencial e a atuação humana, negando a responsabilidade humana perante Deus - algo básico na mundivisão bíblica (ver Atos 17:31; Apocalipse 14:6).


- O Pecado e a Depravação Humana. A Bíblia ensina que todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus" (Romanos 3:23; 5:12; I Coríntios 15:22). O pecado original e a consequente degradação e morte que vierem a todos os seres humanos são resultados do pecado de Adão (Romanos 5:12-21). Mas o argumento racista de uma raça superior/inferior não vê problemas, tais como a Queda e o Pecado. O argumento racista é de uma hierarquia em depravação: quanto maior a suposta inferioridade da raça, maior a depravação.
Mesmo que a teologia racista admita que a raça superior também caiu, ela reinterpreta a natureza da Queda. O racismo vê nas chamadas raças inferiores uma dupla queda: a primeira por causa da queda de Adão, e a segunda, uma queda "racial" particular. Consequentemente, para o racista, a mistura racial resulta na perda da pureza da raça. Assim é que Hitler no seu Mein Kampf sustentou a tese de que a raça superior experimenta uma queda cada vez que ela permite que o seu sangue se misture com o da raça inferior.
Como poderá tal crença ser compatível com a reivindicação bíblica de que a raça humana, na sua totalidade, tem uma origem e um problema comum?
- O Grande Conflito. A Bíblia apresenta um conflito cósmico entre Cristo e Satanás (Efésios 6:10 e seguintes). O assunto central desse conflito é o caráter amoroso de Deus e a Sua atuação e exigência da ordem criada. Como religião, o racismo também reconhece a existência de um conflito entre forças superiores, mas os seus participantes estão divididos em linhas raciais: Deus e os Seus anjos são forjados à imagem da raça superior, enquanto que Satanás e os seus anjos formam a essência da raça inferior. Esse dualismo ajuda o racismo a criar a dicotomia "nós-contra-vós".
Essa plataforma cósmica também ajuda o racismo a falar de um golfo intransponível entre raças.9 A única maneira de se obter harmonia racial é fazer com que cada raça descubra o seu lugar na sociedade. Para evitar conflitos, os dois mundos devem ser mantidos à parte, separados e segregados.10
Mas a visão bíblica do Grande Conflito antecipa uma reunião final de toda a família de Deus com "uma única palpitação de harmonioso júbilo ... por toda a vasta criação". 11 Quando o evangelho de Jesus exige a prática da unidade na Terra, como pode o racismo com o seu ódio e segregação ser compatível com o cristianismo?
- Redenção. O racismo contradiz a doutrina cristã da redenção. A expiação substitutiva em favor do pecado realizada na cruz, redime todos os seres humanos que escolhem aceitar a Jesus, sem tomar em consideração qualquer diferença entre eles (João 3:16; Romanos 1:16; Gálatas 3:26-28). A cruz também assegura uma consumação escatológica da redenção na Nova Terra (João 14:1-13; I Tessalonicenses 4:14-17; II Pedro 3; Apocalipse 21). Na teologia racista, todavia, os seres humanos (a raça superior) procuram efetuar a sua própria redenção: "A essência da redenção é a renovação racial, o reavivamento da raça superior através de técnicas de purificação."12 Através de técnicas tais como eugenia, esterilização, guerra, limpeza étnica, etc., a escatologia racista almeja proteger os genes superiores contra a debilitação da raça inferior. Isso implica que a raça superior deve procriar enquanto a inferior deve ser eliminada.13
- Ética. A ética cristã opõe-se totalmente à ética racista. A primeira baseia-se na "santidade da vida humana", brotada da doutrina da Criação. A Bíblia apresenta os Dez Mandamentos como a mais explícita norma de conduta humana, e Jesus como o exemplo supremo para a humanidade.
O racismo, todavia, eleva a doutrina da "qualidade-da-vida-humana", que sugere ser a personificação do ser humano determinada pelas suas caraterísticas biológicas, tendo algumas pessoas apenas um valor relativo. Segundo a ética da "qualidade-da-vida-humana",14 alguns seres humanos não são realmente "pessoas" e consequentemente, podem ser exploradas. Assim é que em 1857, no infame caso do Dred Scott, o juiz Roger Taney da corte suprema dos Estados Unidos pôde argumentar: "'Sendo que os pretos são de uma ordem inferior, o preto deve ser legalmente e justamente reduzido à escravidão para o seu próprio benefício.' Ele foi comprado, vendido e tratado como um artigo ordinário de mercadoria e tráfico, desde que certo lucro pudesse ser obtido através disto".15
- Filosofia da História. A Bíblia vê a história como se desenrolando sob a soberania de Deus. Deus trouxe a criação à existência para que se tornasse a "arena da história"; Ele criou o tempo para medir o "movimento da história"; e formou os seres humanos para serem uma "entidade habitando a história".16
Segundo a religião racista, todavia, a raça superior é o centro da história humana. O racista crê que somente "uma raça (a raça superior) trouxe progresso à história humana, e ela é a única que pode assegurar o progresso futuro".17 Assim o racista não somente ignora, diminui e distorce a história das outras raças, mas também recusa ouvi-las ou delas aprender. Afinal, existe apenas uma história: a história da raça superior tal como ela a interpreta.18
Embora não se possa culpar o racismo pela falha humana em reconhecer a contribuição e os potenciais de outros povos, é intrigante constatar como o racismo, de maneira subtil, influenciou a procrastinação da igreja em conceder a todos os cristãos igual oportunidade na sua vida e missão.


O RACISMO E OS ADVENTISTAS: O DESAFIO

Os Adventistas do Sétimo Dia têm uma oportunidade única de lidar com o assunto do racismo tanto na igreja como na sociedade. Consideremos três vantagens que temos.

. Ser o Remanescente. Quando nos identificamos como o remanescente, reivindicamos ser o povo de Deus do tempo do fim, que guarda os mandamentos de Deus e tem o testemunho de Jesus (Apocalipse 14:12). Tal reivindicação deve levar-nos a reconhecer, tanto na proclamação como na prática, que o direito de pertencer ao povo remanescente não depende do nascimento natural, mas espiritual (João 3:3-21); não do sangue étnico mas do sangue redentor de Cristo (Hebreus 9: 14-15); não de uma raça superior mas da raça santa (I Pedro 2:9).

. Ter uma Missão Global. Com a nossa fé, a nossa missão e a nossa estrutura empenhada em criar uma família escatológica global, devemos combater tudo o que crie separação entre um povo e outro. O racismo prejudica o corpo de Cristo e destrói a sua missão global. Fomos chamados para louvar e proclamar Aquele que com o Seu sangue resgatou "para Deus homens de toda a tribo e língua, e povo e nação" (Apocalipse 5:9; 14:6).

. Adotando um Nome. O nosso nome exige uma rejeição do racismo e uma demonstração de harmonia.19 Quando reivindicamos o sábado do sétimo dia, afirmamos também ser Deus o Criador e Pai de toda a raça humana, e, consequentemente, sustentamos a ideia de que todos os povos são irmãos. Reivindicar o componente "adventista" no nosso nome, implica vislumbrar um 'tempo' e 'lugar' em que pessoas "de toda a nação, tribo, povo e língua" viverão juntas em perfeita paz. Que tal grupo humano, proveniente de cada nacionalidade, raça e língua possa realmente existir, será uma maravilha a ser contemplada. Entretanto, a igreja deve ser "um tipo de modelo preliminar, numa escala reduzida e imperfeita, daquilo que será o estado final da humanidade no desígnio de Deus".20


Notas e Referências:
1. Stephen Jay Gould, "The Geometer of Race", Discover (November 1994): 65-69.br> 2. Ruth Benedict, Race: Science and Politics (New York: Viking Press, 1959), pág. 98.
3. Para uma discussão construtiva sobre a natureza, caraterísticas e tipos de religião, veja Elizabeth K. Nottingham, Religion and Society (New York: Random House, 1954), págs. 1-11.
4. Uma discussão detalhada pode ser encontrada no meu artigo "Saved by Grace and Living by Race: The Religion Called Racism", Journal of the Adventist Theological Society 5:2 (Autumn 1994): 37-78.
5. Alan Burhs, Colour Prejudice (London: George Allen and Unwin Ltd., 1948), pág. 23; citado em T. B. Maston, The Bible and Race (Nashville, Tenn.: Broadman Press, 1959), pág. 64.
6. Ver Stephen T. Asma, "The New Social Darwinism: Deserving Your Destitution", The Humanist 53 (September-October 1993) 5:12.
7. Ver Matson, págs. 105-117; Cain Hope Felder, "Race, Racism and the Biblical Narratives", em Stony the Road We Trod, Cain Hope Felder, ed. (Minneapolis: Fortress Press, 1991), págs. 127-145.
8. T. F. Torrance, Calvin's Doctrine of Man (London: Lutherworth Press, 1949), pág. 24.
9. Lewis C. Copeland, "The Negro as a Contrast Conception", em Edgar T. Thompson, ed., Race Relations and the Race Problem (New York: Greenwood Press, 1968), pág. 168.
10. Ver George D. Kelsey, Racism and Christian Understanding of Man (New York: Scribner's, 1965), pág. 98.
11. Ellen G. White, O Grande Conflito (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1988), pág. 678.
12. Kelsey, pág. 162.
13. Ver Jacques Barzun, Race: A Study in Superstition (New York: Harper & Row, 1965), págs. 47-48.
14. Ver Joseph Fletcher, Humanhood: Essays in Biomedical Ethics (Buffalo, NY: Prometheus, 1979), págs. 12-18.
15. Dred Scott v. Standord, 60 U.S. 393 em 404. Ver também Curt Young, The Least of These (Chicago, III.: Moody Press, 1984), págs. 1-20.
16. Ver Gerhard Maier, Biblical Hermeneutics, Robert W. Yarbrough, trad. (Wheaton, III.: Crossway, 1994), pág. 23.
17. Benedict, pág. 98.
18. Ver Robert Hughes, Culture of Complaint: The Fraying of America (New York: Oxford University Press, 1993), págs. 102-147.
19. Ver Sakae Kubo, The God of Relationships (Hagerstown, Md.: Review and Herald Publ. Assn., 1993), págs. 33-49. Este 1ivro foi revisado em Diálogo 6:2 (1994), pág. 30.
20. C. H. Dodd, Christ and the New Humanity(Philadelphia: Fortress, 1965), pág. 2.

NÓS  PODEMOS  E  DEVEMOS  PROMOVER  A  HARMONIA  RACIAL

                 

"As mesmas influências que separavam os homens de Cristo ... acham-se hoje em dia em operação. O espírito que ergueu a parede separatória entre judeus e gentios, está ainda em atividade. O orgulho e o preconceito têm construído fortes muros de separação entre as diferentes classes de homens." *

1 - Reconhecer Preconceitos Racistas. Como Pedro (Atos 10), a harmonia racial e a cura não podem começar a existir a menos que tomemos este primeiro passo. Afirma David A. Rausch: "A atitude mais perigosa que possamos tomar é a de pensar que não temos preconceitos. O perigo seguinte é de crer que tal preconceito não será capaz de tornar-nos frios e indiferentes e de que ele não possa prejudicar a nossa sociedade nem afetar a nossa vida espiritual." **
2 - Confessar o Pecado do Racismo. A afirmação de Pedro - "Reconheço por verdade que Deus não faz aceção de pessoas" (Atos 10:34) - é um ato de confissão. Necessitamos de confessar os nossos pecados raciais, cometidos por atos ou por omissão: preconceitos, paternalismo, discriminação, ódio, intolerância, avareza, omissão em falar ou tomar posição e outros atos que traem uma posição racista. Tanto o culpado como a vítima do racismo encontrarão na confissão um caminho para o perdão e a harmonia.
3. Procurar Soluções Bíblicas. O racismo não tem as suas raízes na condição económica ou política, mas no orgulho. Trata-se de um problema do coração que pode ser resolvido somente através do novo nascimento. Reconciliação - e não uma integração forçada - é a chave. A integração como uma tentativa política pode tornar o racismo ilegal, e neste sentido será útil em reduzir os efeitos do racismo. Todavia, uma solução duradoura só poderá ser encontrada na reconciliação através do poder transformador de Cristo (II Coríntios 5:16-21).
4 - Desenvolver Relacionamentos Inter-Raciais. A perceção de Pedro de que Deus não faz aceção de pessoas começou com uma oração e movimentou-se em direção do relacionamento (Atos 10:23-29, 48). Pedro arriscou sua vida, sua carreira e sua posição a fim de estabelecer esse relacionamento entre ele (um judeu) e Cornélio (um gentio). Quando se estabelecem relacionamentos positivos e intencionais em lares, vizinhanças, escolas e igrejas, etc., consegue-se uma melhor harmonia racial.
5 - Tomar Posição. Seja sensível a toda a forma de injustiça em qualquer forma e lugar onde ela se manifesta. A responsabilidade para tal jaz primeiramente sobre aqueles que estão em posição privilegiada, tal como João, que quisera que fogo do céu consumisse a aldeia samaritana, embora mais tarde tenha ido para Samaria numa missão de amor (Lucas 9:52-54; Atos 8:14-25).

Tomar posição inclui ir uma segunda milha equipando e habilitando os não-privilegiados para alcançarem o seu potencial máximo.

Notas e Referências:
* - Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações, (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1990), pág. 403.
** - David A. Rausch, Legacy of Hatred: Why Christians Must Not Forget the Holocaust (Grand Rapids, Mich.: Baker Books, 1991), pág. 1.
Nascido em Ghana, Samuel Koranteng-Pipim é um candidato doutoral na área de Teologia Sistemática no Seminário Teológico da Universidade Andrews, em Berrien Springs, Michigan, Estados Unidos. Revista Diálogo Universitário 7:1 - 1995


COMO AGRADECER

Como agradecer a Jesus o que fez por mim? Sem eu merecer
vem provar o Seu amor sem fim.
As vozes de um milhão de anjos não poderiam expressar
a gratidão que vibra em meu ser, pois tudo devo a Ti.

A Deus seja a glória, a Deus seja a glória,
A Deus seja a glória, pelo que fez por mim!
Com Seu sangue lavou-me, Seu poder transformou-me,
A Deus seja a glória pelo que fez por mim!

Quero entregar, Senhor, a minha vida em Tuas mãos
E quero dar meu louvor pela Tua eterna Salvação.
Com Seu sangue lavou-me, Seu poder transformou-me,
A Deus seja a glória pelo que fez por mim!


Por Wintley Phipps - (letra da versão portuguesa, Hinário Adventista nº 249)



"E vi outro anjo voar pelo meio do céu, e tinha o evangelho eterno, para o proclamar aos que habitam sobre a terra, e a toda a Nação, e Tribo, e Língua, e Povo." Apocalipse 14:6.

O texto de hoje mostra o cuidado e o interesse de Deus pelas pessoas de todas as nações, por cada grupo linguístico, cada tipo étnico e por cada linhagem familiar. Não interessa quanto eles se oponham a Ele, não interessa quão perverso pareça o seu comportamento, Jesus morreu por eles (Apocalipse 5:9; II Coríntios 5:14). Ele avalia-os nos termos do custo infinito da cruz. Deus mostra uma falta de preconceito que nos espanta. O multiculturalismo não é apenas uma moda politicamente correta - é fundamental na atitude de Deus para com as pessoas em todas as suas infinitas variedades. Ao não revelar parcialidade, Ele interessa-Se por todos os povos.

Eu cresci em Nova Iorque e acho que isso me deu uma vantagem na apreciação da grande variedade de Deus. A escola secundária que frequentei era 1/3 branca, 1/3 negra e 1/3 hispânica. Os meus melhores amigos eram hispânicos. A certa altura, fui capitão de uma equipa de basquetebol negra e não tive consciência disso até que alguém o mencionou a meio da época. O preconceito, pensava eu, era um problema distante na minha vida.
Comecei a faculdade mesmo na altura em que o movimento Black Power (Poder Negro) teve início e também testemunhei a primeira Black History Week (Semana da História Negra). Depois do assassinato de Martin Luther King, ouvi toda a raiva dirigida a mim que eu não pensava merecer, dado o meu comportamento anterior na escola secundária. Porque é que estas pessoas estão zangadas? Perguntava-me eu. Estamos na América. Todos temos direitos iguais e oportunidades iguais.

Então conheci o Greg. Enérgica, mas pacientemente, deu-me a conhecer o mundo dos Afro-Americanos. Ajudou-me a ver o mundo através dos seus olhos, contando-me como era ser olhado com suspeita onde quer que se fosse. Ser mandado parar, regularmente, pela polícia, simplesmente por ser negro e estar a conduzir um bom carro. Ser ignorado nas lojas de roupas, enquanto outros recebiam muita atenção. Não ser promovido no trabalho por algumas posições serem apenas "para as pessoas certas". E até não ser bem recebido em algumas igrejas simplesmente pela cor da pele ou por outras diferenças.

Apercebi-me de que o mundo não era tão simples como aquele que eu pensava conhecer. E, no processo, também acabei por compreender que eu estava a ver, não apenas através dos olhos do Greg, mas também através dos olhos de Deus. Aquele que decidiu criar seres humanos em toda a sua variedade, mora dentro de pessoas de todas as nações, tribos e línguas. Ele é Jesus, que morreu por todos. O modo como eles se sentem e como vivem, interessa-Lhe.

Senhor, abre os meus olhos para a dor que existe na vida dos outros. Ajuda-me a olhar para além das diferenças e a ver a alma por quem Jesus morreu. Capacita-me a permanecer corajosamente contra a injustiça onde quer que a encontre.

Jon Paulien in Apocalipse, O Evangelho de Patmos, 3 de Setembro de 2013.