sexta-feira, 12 de outubro de 2012

PAIS, PROFESSORES E ALUNOS


A ESCOLA DA ADVERSIDADE
(...) Meu avô nasceu nos primeiros anos do século XIX, quando os imperadores Manchu ainda reinavam na China. Depois que ele passou nos exames do governo para receber o alto grau de letras, foi nomeado governador da importante província de Kuang-tung, ao sul. Assim, deixou a esposa, seis filhos e uma filha em Hangchou e fez a longa viagem para o sul, a fim de assumir o mandato.
Mal havia chegado, apanhou grave enfermidade e morreu. Quando minha avó recebeu a notícia ficou aturdida. Permaneceu sentada, imóvel como uma estátua, por vários dias. Em vão, seus filhos procuravam movê-la, fazê-la falar, comer, dormir. Ela não se mexia, ficava apenas olhando para a frente.
Agora, sem qualquer meio de sustento, teria que criar seis filhos e uma filha. Ela, que estava a costumada a todo o conforto, precisaria trabalhar dia e noite. Precisaria despedir os empregados, vender a casa e toda a sua roupa fina. Sua família aprenderia a comer sopa de arroz e repolho.

Mas ela resolveu que, viesse o que viesse, todos os seus filhos seriam homens de letras, como era a tradição da família.

Meu pai era o segundo filho. Muitas vezes ele nos contou da pobreza de seus tempos de menino.
- Como pensam vocês que eu me eduquei? - Perguntava a meus irmãos, quando eles se queixavam de algum trabalho difícil.
- Nem tínhamos professor ou os livros de que precisávamos. Eu tinha de andar, com o vento tocando redemoinhos de neve em volta, por vários quilómetros, para tomar emprestado um livro, e ainda com a promessa de devolvê-lo em dia marcado. Então, nós, os rapazes, depois de um dia de trabalho árduo, nos sentávamos ao redor da mesa e copiávamos do livro emprestado. No centro, um pequena taça de óleo, com um pavio que boiava, dava uma luz fraca. Quando ficávamos com fome, comíamos um punhado de arroz frio da cesta de cozer arroz. Nos meses de inverno, nossas mãos ficavam tão frias que quase não podíamos segurar a caneta. Vocês não sabem o que é dureza!

Mas a família conseguiu sobreviver. Os rapazes, em grande parte, se educaram por si mesmos: os mais velhos ensinavam aos menores. Quando ficaram homens, se prepararam para fazer os exames de letras, que davam oportunidade para cargos nas cortes, como tinham feito o pai e o avô. À filha, naturalmente, não deixaram estudar. Era apenas uma menina, e tinha que aprender a fazer o serviço de casa.
Meu pai e seu irmão mais velho passaram nos exames de primeiro grau, em Hang-Tcheú e, mais tarde, foram a Nanquim, para os de segundo grau. No dia marcado, os irmãos apareceram na Casa de Exames. Estavam ambos trajados de vestes longas de algodão azul e casacos curtos, pretos. Traziam os cabelos em longas tranças, bem cuidadas, e usavam pequenos bonés. Cada um levava uma cesta contendo frutas, penas, tinta e uma tigela e pauzinhos.

À entrada, havia toldos de cores vivas. No portão, dois auxiliares deram uma busca enérgica nos rapazes, para ver se traziam algum livro ou papel escondidos. Entraram num pátio, onde se movimentavam muitos estudantes e auxiliares. Uma alta torre dominava as longas fileiras de cubículos de exames, que se estendiam para os quatro lados. Cada fileira tinha uns cem lugares, que davam para um estreito corredor, e os alunos ficavam expostos ao tempo, desse lado.
Os dois irmãos estavam muito nervosos, e ficaram juntos para infundir coragem um ao outro. Foram-lhes dados cubículos separadas, onde puseram suas cestas. Esses cubículos eram do tamanho de uma cabina telefónica, contendo uma estreita tábua como assento, um nicho na parede, para uma lamparina, um prego para pendurar a cesta, e mais uma tábua para servir de mesa.

Os examinadores chamaram logo todos para o pátio, fizeram a chamada e deram, a cada estudante, um rolo de papel. Esse rolo era o único papel que cada qual receberia; portanto, cada um guardou o seu, cuidadosamente, no bolso da túnica. Quase ao anoitecer, os examinadores foram ao portão da rua e o fecharam e lacraram com grande cerimónia. Isso era o sinal de que os exames iriam começar. Durante três dias e três noites, ninguém poderia entrar ou sair por motivo algum.

Lá em cima, na torre, surgiu um examinador, que fez soar um gongo para chamar os estudantes ao pátio. Olharam para cima e viram o examinador agitar uma bandeira. Declarou ele, em alta voz: "Ó vós, espíritos dos mortos! Contemplai a estes estudantes aqui congregados! Se algum vos tem ofendido por palavra ou ação, puni o ofensor e vingai a injustiça". Os estudantes, já nervosos, e que criam em espíritos maus, tremiam de medo, alguns quase desmaiando. O gongo soou mais uma vez, e os estudantes se retiraram, cada um para o seu cubículo.
Um auxiliar, levando uma lanterna acesa, com o tema da prova escrito aos lados, passou vagarosamente por cada corredor, dando aos estudantes tempo para verem claramente o tema do exame. Durante os três dias e três noites, os estudantes não podiam deitar-se para dormir, nem conversar com outra pessoa. Um auxiliar fazia a ronda pelos corredores, para que não se pudesse copiar.

À hora das refeições, ao soar do gongo, cada qual levava a sua tijela e pauzinhos para o pátio, onde havia um grande caldeirão de sopa de arroz bem quente. O estudante servia-se de quanto quisesse, comia avidamente e voltava ao seu cubículo. A luta para preparar-se, a preocupação e a concentração prolongada eram tão grandes que acontecia morrerem alguns estudantes sob a penosa prova, sendo os seus corpos retirados por uma portinhola secreta no muro.

Terminado o exame, cada qual assinava o seu nome na margem designada, dobrava a folha de papel, selava-a e entregava o trabalho ao examinador. Então, quando se abria o portão, todos saíam cansados demais para conversar, e só procuravam um lugar para deitar-se e dormir algumas horas. Os exames eram estritamente imparciais. Os assuntos sempre requeriam um conhecimento extenso das ciências políticas. A junta de examinadores lia cada exame e o julgava por seus méritos, antes de desvendar a assinatura do autor. Nomeavam-se aqueles que tinham as notas mais altas. Esse sistema funcionou na China, desde o ano 600 A.D.

Certo dia, um mensageiro entregou à minha avó uma carta oficial, na qual se dizia que meu pai havia passado nos exames. Minha avó não tinha dinheiro para pagar ao mensageiro, que trouxera as boas novas. Portanto, ela levou um casaco a um vizinho e o depositou, como garantia de um empréstimo. Ela e meu pai ficaram muito satisfeitos, mas meu tio ficou tão decepcionado que foi para o quarto e chorou. Logo, porém, chegou outro mensageiro com uma carta, que dizia haver passado também meu tio. Outro casaco foi levado ao vizinho sendo emprestado o dinheiro para pagar ao segundo mensageiro, e a família se assentou para festejar a grande ocasião, com menos agasalhos, mas muito orgulho.
Cada membro da família, a seu tempo, recebeu um cargo político importante. Meu tio mais velho tornou-se vice-governador da província de Ho-Pe indo morar em Tientsin. Meu pai veio a ser vice-governador de Kiang-Su, indo morar em Nanquim. Depois, tornou-se governador e ocupou muitos outros cargos importantes. Meu terceiro tio veio a ser alto funcionário (Taotai) em Pequim; o quarto, prefeito de Paotinfu; o quinto, prefeito de Yangcheú; e o sexto, prefeito de Siangyang, em Hu-Pe. Quanto à menininha desprezada, casou-se com um alto funcionário, assessor do Imperador. Assim, a adversidade trouxe as suas recompensas!

Muitos anos depois, meu pai tornou-se chefe da Casa de Exames, em Nanquim. Vestia ele seu traje de gala, seu chapéu com plumas de pavão e um botão vermelho no topo (que eram as insígnias de um alto funcionário), e partia no seu palanquim verde, transportado por oito homens. Cavaleiros aparatados o precediam e seguiam.
Meu pai sempre teve profundo carinho para com os pobres, e muito fazia em favor deles. Uma noite, durante os exames, decidiu ver pessoalmente o que se passava lá em baixo. Despiu as vestes oficiais, vestiu as roupas de um servente, e desceu as escadas. No escuro do pátio, ouviu alguém soluçando. Achou um estudante todo encolhido num degrau, chorando como se estivesse com o coração partido.
- Que foi? Quem é você? - perguntou meu pai.
- Meu nome é Hung, e sou de Wusih. Minha mãe é viúva e tão pobre que não podia mandar-me para aqui. Mas, alguns amigos emprestaram-me o dinheiro. Porém, meu exame caiu na fossa! Não tenho mais papel. Não posso voltar e dizer à minha mãe que perdi esta oportunidade. Ela morreria de desgosto. Só me resta matar-me.
Meu pai condoeu-se:
- Tenho um rolo de papel de que não preciso, disse ele. Irei buscá-lo, e você poderá escrever seu exame novamente. Espere aqui.
Quando meu pai voltou, o moço olhou-o de frente, reconheceu ser ele o Examinador Chefe, e fez-lhe uma reverência.
- Meu senhor - exclamou ele - lembrar-me-ei do senhor com gratidão por toda a minha vida. Salvou-me a mim e à minha mãe. (...)

Texto extraído do livro A Rainha do Quarto Escuro de Christiana Tsai, Editora Fiel Lda, São Paulo, Brasil, 1980.

HUMILDADE:  VIRTUDE DE MESTRE

       Figura indispensável na sociedade, o professor terá muito mais sucesso a longo prazo se ensinar com humildade. Mas isso nem sempre acontece.
       Faz pouco tempo, um senhor estendeu-me a mão e perguntou se eu era Pastor. "Sou Professor", respondi. Então de maneira delicada ele disse: "É sacerdote do mesmo jeito."
       O Novo Dicionário Aurélio define o termo "sacerdote", no sentido figurado, como "aquele que exerce profissão muito honrosa ou cumpre missão elevada".
       De certa maneira, o professor desempenha um papel assim. Ele é, também, uma pessoa "marcada", pois nele se concentra constante atenção. Suas atitudes, acções e opiniões são observadas pela sociedade que reclama a sua confiança. Portanto, o que ele faz em público e até em particular têm reflexo social. Há, nesse caso, alguma semelhança entre o sacerdote e o professor. Os dois são amplamente observados e criticados, porque deles se exige comportamento digno de exemplo.

       Estamos no Ano Internacional do Professor Adventista, e nada melhor do que refletir sobre uma das principais qualidades dos mestres, a humildade. É claro que aqui não há pretensão alguma em ditar o comportamento do professor. Longe disso. Nosso objetivo é despertar o interesse por essa virtude, a qual consideramos indispensável e urgentemente necessária.

       Vivemos num contexto deprimente no que diz respeito à educação mundial. A figura do professor anda desvalorizada e, devagar, vai-se apagando na sociedade. Quais seriam as causas relevantes de tal situação? Possivelmente, uns tantos movimentos de classe, reivindicando direitos trabalhistas e económicos. É lamentável, mas as questões salariais têm invadido as aulas. A reivindicação por melhores salários pode até ser justa, mas efectuada no lugar errado. Questões dessa natureza, levadas para as salas de aulas, acabam transformando a acção educativa numa paixão financeira que gera intranquilidade entre os alunos e insegurança quanto ao seu futuro. A falta de professores bem preparados, que ensinem e vivam a real educação, também pode ser outra causa da degradação do ensino nos nossos dias. Ou quem sabe o descrédito esteja sendo causado pelas tentativas de se vender ideologias político-partidárias camufladas nas matérias. Ou, simplesmente, o professor não mais é valorizado pelo facto de a profissão proporcionar pouco destaque social hoje em dia. Ou talvez...

       Bem, sejam quais forem as causas, o importante é ter consciência de que ainda temos um papel a desempenhar na formação de uma sociedade melhor e mais justa. E de que, para isso, precisamos muito da virtude da humildade.


       Lembro-me de uma história, contada por um escritor anónimo, sobre a atitude de dois professores. Ambos ensinavam na mesma escola, mas dentro de parâmetros opostos. Um, jactancioso, gritava e não parava um momento sequer de gesticular, e ameaçar os alunos indisciplinados. O outro falava de maneira calma, com voz mansa e serena. Qual obteve melhores resultados? Obviamente, o segundo. O seu jeito tranquilo e amigo transmitia paz e segurança aos educandos.

       Analisando as características comportamentais de um professor desse segundo tipo - o ideal -, Adelaide Lisboa de Oliveira chama-o de 'sugestivo' (inspirador, motivador). E eu não hesitaria em acrescentar que ele é sugestivo porque é humilde.
       Um professor assim é capaz de amar, e de ser amado por todos. Motivado por um alto ideal, o de se realizar através do sucesso dos seus alunos, ele não teme que o alcancem e o superem; o progresso dos seus discípulos constitui a sua felicidade. Fazendo do seu magistério um bem à causa da humanidade, oferece à apreciação dos alunos a sabedoria, a beleza, a bondade, a alegria e a humildade.

       George Herbert Betts fala da felicidade de um humilde professor que teve Grover Cleveland como aluno. Conta ele: "Um dia, Cleveland chegou à escola sem o seu compêndio, e o professor emprestou-lhe o seu. Mais tarde, Grover Cleveland tornou-se Presidente dos Estados Unidos. Certa ocasião, numa recepção pública o professor era uma das pessoas que esperavam para cumprimentar o Presidente.
       - Reconhece este livro, e lembra-se de mim?
       Chamando o professor pelo nome, Cleveland apertou-lhe a mão e segurou-a enquanto a multidão esperava. Tomando então o velho livro, autografou-o para o professor, lembrando os bons tempos da escola."

O Professor Humilde

       Além de ser um humilde professor, o mestre de Cleveland era também um professor humilde, com certeza. E, seguramente, Jesus aprova um comportamento assim. "Felizes os humildes, pois receberão o que Deus tem prometido", disse Ele aos Seus discípulos (A Bíblia na Linguagem de Hoje, Mateus 5:5).

       Mas o que é ser um professor humilde? É reconhecer que nunca somos totalmente sábios, que sempre temos algo a aprender com os outros. É não reter a sabedoria para si, mas oferecê-la aos alunos. Humildade é descer do pedestal e curar as feridas da ignorância dos educandos, acendendo a candeia da verdade, do optimismo, da ternura. Para isso, o professor precisa perdoar as injustiças e ter um viver perene e equilibrado; deve vestir o 'guarda-pó' branco surrado pelo tempo e orar diariamente: "Senhor, faze com que neste dia de aulas eu possa aprender 'alguma coisa de tudo e tudo sobre alguma coisa', pois sou um aluno permanente. Faze, Senhor, que eu 'estude como se fosse viver eternamente e viva como se fosse morrer amanhã'".


       Como construtor de caracteres e do pensamento humano, o professor tem a grande tarefa de apresentar aos alunos e ao mundo a luz da sabedoria divina. Isso porque, como alguém escreveu, o propósito da educação é mostrar Deus revelado; o objetivo imediato da educação é qualificar o homem para revelar a Deus; o objectivo último da educação é o reino de Deus porvir; e o centro da educação cristã é Cristo, que é a Auto-Revelação Pessoal de Deus.

       Quando sentimos que não somos nada para realizar esse propósito, a melhor coisa a fazer-se é recorrer ao ensino de John Falvel: "Quando Deus pretende encher uma alma, Ele primeiro a esvazia. Quando Deus deseja enriquecer uma alma, Ele primeiro a empobrece." Aí está: uma das formas práticas de se viver a religião, e de capacitar-se para o magistério, pode ser exactamente a humildade.

       Preocupada com a questão dos professores adventistas já na sua época, Ellen White disse: "Tenho ardente desejo de que aprendais cada dia do Grande Mestre. Se vos chegardes primeiro a Deus, e depois aos vossos discípulos, podereis realizar um trabalho deveras precioso. Se fordes diligentes e humildes, Deus vos dará dia a dia o conhecimento e a aptidão para ensinar." - Conselhos aos Professores, Pais e Estudantes, pág. 227.
O Olhar de Jesus

       De facto, o relacionamento com Deus é muito importante para o professor, porque isso vai fazer com que ele se relacione da forma mais correcta com os alunos. E o ser humano torna-se alguma coisa (ou não) dependendo da maneira como o educador se dirige ao aluno!
       Jesus Cristo sabia disso. No Seu julgamento, ensinou a Pedro a maior lição da sua vida, apenas com um olhar. "Se o olhar de Jesus, lançado sobre ele, tivesse expressado condenação em lugar de piedade; se ao predizer o pecado tivesse Ele deixado de falar em esperança, quão densas não teriam sido as trevas que cobririam a Pedro", comenta Ellen White, no livro Educação, pág. 90. No entanto, Jesus soube olhar para Pedro. O carácter do discípulo foi construído com o olhar da humildade divina.

       No primeiro século depois de Cristo, o latino Séneca, pensando na forma como os professores ensinavam, deixou a sua filosofia escrita: "Que tolice aprender o supérfluo quando o tempo nos é avarentamente medido! Não se deve aprender coisa alguma exclusivamente para a escola, mas para a vida, a fim de que os alunos não tenham de lançar ao vento nenhuma de suas aquisições ao sair da escola."
       Isso é ensinar com humildade, também. Quando se ensina com humildade, pouca coisa ou nada se deita fora - mesmo porque o exemplo faz o nosso ensino dar frutos.

Companheiro de trabalho: Se você é professor e espera que no futuro façam uma estátua em sua homenagem para ser colocada em praça pública, então que essa estátua se quebre antes de ser construída.
O maior mestre que passou pelo mundo, Jesus Cristo, viveu e ensinou a humildade. E por ser humilde, pregaram-n’O numa cruz. Porém, as Suas lições têm perdurado através dos séculos, transformando caracteres. Lembremo-nos disso.
Gideon Carvalho De Benedicto, Professor no Novo IAE, Brasil, Pós-graduado em Economia de Empresas e com Mestrado em Contabilidade, in Revista Adventista Brasileira, Agosto de 1989.

"A verdadeira educação significa mais do que avançar em certo curso de estudos. É muito mais do que a preparação para a vida presente. Visa o ser todo, e todo o período da existência possível ao homem. É o desenvolvimento harmónico das faculdades físicas, intelectuais e espirituais. Prepara o estudante para a satisfação do serviço neste mundo, e para aquela alegria mais elevada por um mais dilatado serviço no mundo vindouro." Ellen White in Educação, pág. 13.


domingo, 12 de agosto de 2012

"NO MEIO ESTÁ A VIRTUDE"...
UMA ANÁLISE. A MELHOR SOLUÇÃO.



MÉTODO, PRECISÃO E DISCIPLINA

Porto, fins dos anos 50. O Senhor Antunes era guarda-livros numa importante firma de import/export na Rua dos Clérigos.
Formado pela Escola Comercial Oliveira Martins, era homem de uma só palavra.
Método, precisão e disciplina sempre foram as bases que nortearam todo o seu comportamento. No decorrer dos anos foi granjeando admiração e simpatia na baixa comercial do velho burgo.
Em casa, os horários eram cumpridos à risca. Sua extremosa esposa, Dona Filomena, excelente dona de casa, mantinha uma ordem discreta e serena, capaz de criar um ambiente onde dava gosto viver.
O andar que habitavam, alugado, situava-se na Rua de Cedofeita, velha artéria de penetração, suficientemente longe e suficientemente perto do centro (como costumava dizer o Senhor Antunes). Sem luxos, tinha já no entanto aqueles electrodomésticos recém-aparecidos, entre os quais a televisão, que não deixavam, por vezes, de provocar certos comentários invejosos dos vizinhos com menos posses mas não menos ambições.
À noite, logo após o Telejornal das nove e meia, seguido com atenção e respeito - as palavras do venerando Chefe de Estado e os actos dos Ministros transmitiam aquela sensação de estabilidade e progresso tão desejados a uma noite sem insónias. António, 14 anos, filho do casal, despedia-se dos pais e dirigia-se para o seu quarto. ("Menino com educação esmerada e obediente!", comentava a televizinha daquela noite, perante o orgulho disfarçado de Dona Filomena.)

Mas, nessa noite, o inesperado acontece e a calma rotineira é alterada. O telefone toca. Era o Senhor Afonso Menezes Barbosa, patrão do Senhor Antunes. A sua voz transmitia exaltação. Não é que, ao passar ao princípio da noite pelo escritório, o Senhor Menezes Barbosa deparara com uma importante carta esquecida pelo João, o paquete da firma? Quando este saiu para os correios da Praça da Batalha, não incluíra esta carta no maço a despachar.
Sentindo-se responsável por tão grave esquecimento, o Senhor Antunes logo se prontificou a reparar o acto, comprometendo-se a usar os meios necessários para que a missiva chegasse no dia seguinte ao seu destino. Se o telefone transmitisse imagem, o Senhor Menezes Barbosa veria o seu leal empregado a empalidecer quando lhe disse a quem a carta era dirigida: ao agente da firma em Lisboa.
Logo se recompondo, o Senhor Antunes retorquiu: "Esteja o Senhor Barbosa tranquilo. Amanhã de manhã o meu filho irá no primeiro comboio entregar a carta em mão."

A excitação reinou pela primeira vez em anos naquela casa. O António nunca viajara sozinho. As recomendações foram mais do que muitas: "Chegado à estação de S. Bento compras um bilhete de segunda classe para Lisboa/Rossio. Pede do lado direito para não apanhares sol. Ao chegares a Lisboa, o escritório do agente encontra-se ainda encerrado para almoço; tens um café mesmo em frente da estação. Sentas-te, encomendas um bife e uma imperial. Ao terminares o almoço, está praticamente na hora de abertura. Atravessas a Praça do Rossio, passas pela Praça da Figueira, entras na Rua dos Fanqueiros e diriges-te ao nº 14 - 2º andar. Apresentas os meus cumprimentos ao Senhor Martins Ferreira, (etc., etc., etc.)." Toda esta catadupa de informações, e outra tanta que se torna fastidioso relatar em pormenor, foi cuidadosamente retida por este filho, habituado a uma obediência cega e respeitosa às palavras do seu progenitor.

Às 7:45 horas em ponto lá se encontrava o António em S. Bento a comprar uma segunda para Lisboa/Rossio, do lado da sombra para que o sol não lhe fizesse mal à cabeça. A viagem decorre com normalidade. Apeado no Rossio, atravessa a rua, senta-se no café e encomenda um bife e uma imperial. O empregado, delicado e solícito, informa: "Só temos cerveja em garrafa."
Serenamente, António levanta-se, sai do café, pergunta ao primeiro transeunte onde fica a estação dos correios mais próxima. Após informado dirige os seus passos para os Restauradores, entra na Estação dos Correios, pede um boletim de telegrama e redige com caligrafia segura e cuidada, como tão bem lhe é ensinado na Escola Comercial Oliveira Martins, onde é brilhante aluno:
"Pai - só servem cerveja em garrafa. Que devo fazer?" - João Miguel Cunha

(Repare: muito rigor e firmeza, mas não deixava de recomendar bebida alcoólica ao filho!... E. E.)


O TITANIC DO OCIDENTE

Nos anos 70, quando Ana Salazar lançou a sua linha de roupa preta para senhora, achei que iria ser um tremendo fiasco.
Quem é que, num país do Sul, quereria andar todo vestido de preto? Na altura eu acabara de concluir o curso de Arquitectura na Escola de Belas-Artes, ia com frequência a Paris, fascinava-me com os impressionistas – Renoir, Van Gogh, Cézanne, Monet, Modigliani, Gauguin – e não podia perceber como é que se renegava a cor no vestuário feminino. Não era mais bonito ver as mulheres, sobretudo as jovens, vestidas com roupa alegre de cores garridas do que enfiadas em trajes de luto?
Ontem, 40 anos depois do aparecimento de Ana Salazar, passava eu por uma loja de roupa, olhei distraidamente para dentro e o que vi? Manequins vestidos integralmente de negro. E numa loja de homem que havia em frente, o que dominava a montra? Fatos pretos.
Muito perto da sede deste jornal existe uma loja ‘gótica’. Assim, pelas redondezas, circulam constantemente jovens vestidos de negro – que além disso usam em geral piercings e tatuagens, e têm esotéricos cortes de cabelo, a imitar os índios apaches ou os cabeças-rapadas. Os piercings podem ser na língua, nos lábios, nas orelhas, no umbigo ou até no sexo. Os rapazes e raparigas assim ataviados parecem caricaturas saídas de tribos primitivas.

A nossa civilização atingiu uma tal sofisticação que começou a ser difícil avançar mais – e, aí, entrou-se no retrocesso ou no caminho do absurdo. Há quem compre roupa rota nas lojas de roupa nova. Roupa rota que custa mais caro do que a nova. Cansámo-nos do luxo – e o luxo máximo tornou-se a ‘negação do luxo’. Mas uma negação que tem de ser notória: os jovens não compram jeans usados, compram jeans novos a imitar os usados mas percebendo-se que são novos.
O vestuário negro e desengraçado é um dos sinais anunciadores da crise que atinge o Ocidente.
Rejeita-se a cor, que reflecte vitalidade e alegria. As únicas ‘cores’ que se aceitam não são cores: são o preto, o cinzento e o branco. As cores desapareceram. E na decoração sucede a mesma coisa: entra-se numa casa e é tudo branco. Ou é tudo preto e cinzento. O uso das cores vivas passou a ser ‘piroso’. Ao que chegámos!
Falo da cor porque é uma realidade muito visível de uma mudança inexorável que está em curso: a decadência da nossa civilização. Uma civilização que teve uma ascensão, um apogeu e entrou em declínio.

Um declínio que é patente em todas as áreas: a desagregação da família, a deterioração da autoridade, o aumento da indisciplina, os desvios sexuais, o crescimento do consumo de drogas, a proliferação de gangues suburbanos, a perda de valores e referências positivas, o abaixamento cultural, etc.

Comecemos por aqui, pela cultura. Já não falo da ‘cultura’ difundida pelas televisões – e que tem os seus exemplos mais acabados em programas tipo Big Brother ou Casa dos Segredos. São protótipos abjectos, que puxam a sociedade para baixo.
Mas a própria cultura ‘respeitada’ (ou mesmo venerada) pelos críticos atinge mínimos inconcebíveis. Depois da grande pintura clássica renascentista como conceber um quadro todo negro? E se ainda fosse só um… Mas em todos os museus de arte contemporânea se veem exemplares desses.
E, ao lado de uma escultura de Leonardo da Vinci ou mesmo de Rodin, o que dizer da ‘instalação’ de Cabrita Reis à porta dos Jerónimos constituída por pneus velhos pendurados numa armação de ferro?
E como classificar um filme sem imagens, como o de João César Monteiro, ao lado de uma obra de Orson Welles ou Visconti?
E alguém se ocupou a comparar uma sinfonia de Beethoven com os novos batuques que nos massacram os ouvidos na rádio?

Mas, repito: nada disto são casos isolados – são todos sintomas do mesmo mal e todos concorrem no mesmo sentido. Todos fazem parte do mesmo puzzle, que tem um nome: decadência.
O quadro de valores e de referências em que nos movemos mudou radicalmente.
A família, por exemplo, deixou de ser uma instituição a preservar. A percentagem de divórcios já iguala a de casamentos. Só que isto, aplaudido por alguns, é um drama tremendo para a esmagadora maioria.

A família é o primeiro veículo de integração de um indivíduo na sociedade. E o primeiro apoio de que um indivíduo dispõe em situações adversas, quer ao nível material quer no plano afectivo. A família é uma rede – que ampara o indivíduo quando cai, como ampara o trapezista quando falha o trapézio. A destruição da família entrega as pessoas a si próprias, ainda por cima num ambiente muito competitivo como é a selva urbana em que se tornaram as grandes cidades – e daí as depressões, as exclusões, os suicídios, que aumentam regularmente.

A família também é essencial para o crescimento equilibrado das crianças. É a família que lhes oferece um ambiente estável e lhes transmite segurança. Uma sociedade de famílias desestruturadas começa a produzir crianças problemáticas.
A legalização dos casamentos gay, com a aceitação explícita de casais estéreis, foi mais um sinal do esvaziamento da ideia de ‘família’ nos tempos que correm.
E os problemas das famílias prolongam-se nas escolas, sendo responsáveis por fenómenos como a indisciplina nos estabelecimentos de ensino, que se tornou uma praga. Assistimos a alunos a agredirem professores em plena sala de aula – o que não devia sequer poder passar pela cabeça dos alunos, quanto mais poder acontecer.

E a seguir vêm as drogas, o consumo crescente de drogas, com o seu rosário de problemas. Drogas que têm como objectivo explícito a alienação, a fuga à realidade, a marginalização do quotidiano. E depois temos as inscrições nas paredes, os gangues suburbanos, o aumento da criminalidade.
E assistimos ainda ao aumento dos desvios sexuais: multiplicam-se os travestis, os transexuais, as trocas de casais (o swing), para já não falar da pedofilia.
(...)
Todos os sinais aqui apontados, repito, são peças de um mesmo puzzle e são típicos das sociedades em crise. E não adianta fechar os olhos nem vale a pena lutar contra o inelutável.

Os economistas, os financeiros, os políticos esmifram-se a procurar ‘saídas para a crise’. Mas a crise não tem saída porque a questão não é económica e financeira: a crise económica e financeira em que estamos mergulhados é apenas um dos sintomas do descalabro geral.

Já percebemos que temos de nos habituar a viver com menos. Mas o grande problema não é esse. Antes fosse...
O grande drama é que o mundo onde cada um de nós julgava que iria viver sempre, entrou numa decomposição acelerada. O barco onde navegámos durante séculos chegou ao fim do prazo de validade e está a afundar-se.

E isso vê-se em tudo. Basta abrir os olhos. Vê-se no afundamento cultural – com a desqualificação da pintura, da escultura, da literatura e da música. Vê-se na desvalorização do casamento e na desagregação da família. Vê-se na deterioração da autoridade e da disciplina, particularmente nas escolas. Vê-se nos desvios sexuais, na proliferação das drogas, na perda de valores e de referências positivas.
(...)
José António Saraiva, Director do Semanário O SOL, 7 /11/ 2011
http://sol.sapo.pt/inicio/Opiniao/interior.aspx?content_id=33046&opiniao=Pol%EDtica%20a%20S%E9rio

Se Não Quer Afundar-se,
leia o precioso livro
O Grande Conflito
(numa edição maior ou menor)
nos Links 1R:

A GRANDE ESPERANÇA

"ABRIR OS OLHOS"

Fui grandemente abençoada por ter nascido numa família cristã, com pais amorosos que se preocuparam em investir nos três filhos. As prioridades deles a nosso respeito não incluíam roupas extravagantes nem alimento requintado. Em vez disso, eles nos ensinaram fé em Deus, promoveram boa formação do caráter e nos proporcionaram educação formal.
Lembro-me da minha mãe orando a Deus em voz alta em favor dos filhos. No culto diário, ela nos ensinava princípios cristãos. A minha lembrança infantil mais feliz é a de todos nós, sentados sobre a grande cama dos nossos pais, cantando, recitando versículos bíblicos de memória e ouvindo a mamã contar histórias de Jesus.
Quando tive a minha própria família, segui o exemplo dela. Anos mais tarde, fiquei muito satisfeita quando a minha filha me contou que as suas melhores lembranças da infância eram a hora do culto diário e os joguinhos de que participávamos sobre o tapete da sala.

Quando éramos adolescentes, mamã usava uma ilustração particular para nos ensinar a "abrir os olhos", como costumava dizer:
Para enganar os jovens de Deus, dizia ela, o inimigo cobre os pecados com um manto atraente, lustroso. Ele diz aos adolescentes que eles podem experimentar uma vez só, para ver como se sentem. Ele sugere que, afinal de contas, ninguém vai ver, ou mesmo saber a respeito. Quando os jovens se permitem ser iludidos por essa sedução e encantamento, o inimigo puxa e afasta o manto. Ele dá risadas ao ver o amargo desapontamento que eles têm consigo mesmos, e a sua grande aflição por terem caído na armadilha. Pior ainda, eles começam a pensar que Deus não lhes perdoará nem os aceitará de volta.

Para evitar cair na abominável cilada do inimigo, devemos fixar os olhos em Jesus.
Devemos constantemente pedir-Lhe que feche as janelas do nosso coração para o mal e as abra amplamente na direcção do Céu.

As sábias palavras e orações da minha mãe proporcionaram sólida orientação para a minha vida. Dou graças a Deus por ter dado aos meus pais a sabedoria de reconhecer as verdadeiras prioridades na vida e de agir com base nelas. A minha oração é que Deus nos conserve sempre fiéis à Sua Palavra. - Vasti S. Viana

VOLTA  PARA  CASA,  MEU  FILHO

Um certo homem tinha dois filhos. o mais novo pediu ao pai: "Pai, dá-me a parte da herança que me pertence." E o pai repartiu os bens pelos dois filhos. Poucos dias depois, o mais novo vendeu o que era dele e partiu para uma terra muito distante, onde gastou todo o dinheiro numa vida desregrada. Quando já não tinha dinheiro, e como houve muita fome naquela região, começou a ter necessidade. Foi pedir trabalho a um homem da região e ele mandou-o para os seus campos guardar porcos. Desejava encher o estômago mesmo com as bolotas. Foi então que ele caiu em si e pensou: "Tantos trabalhadores do meu pai têm quanta comida querem, e eu estou para aqui a morrer de fome! Vou mas é ter com o meu pai e digo-lhe: "Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já nem mereço ser teu filho, mas aceita-me como um dos teus trabalhadores." Levantou-se e voltou para o pai. Mas ainda ele vinha longe de casa e já o pai o tinha visto. Cheio de ternura, correu para ele, apertou-o nos braços e cobriu-o de beijos. Lucas 15:11-20

FILHOS ou ESCRAVOS?

"Um certo homem tinha dois filhos..." Lucas 15:11

Estava muito calor naquele sábado de tarde, enquanto subíamos a encosta do cemitério. Os meus irmãos e eu avançávamos em silêncio para visitar o túmulo do nosso pai. A última vez que o vira, ele estava muito doente, mas não havia lágrimas nos seus olhos como das outras despedidas. O brilho da esperança iluminava o seu velho rosto marcado pela dor e pelos anos. Alguma coisa dentro de mim dizia, naquele dia, que estava a ver o meu pai pela última vez neste mundo; mesmo assim, voltei para casa. Um mês depois, um envelope branco e preto, trouxe-me a notícia fatal: "O pai morreu".
"É ali" - a voz do meu irmão tirou-me dos meus pensamentos. Levantei os olhos e vi o pequeno túmulo branco. Uma estranha mistura de sentimentos tomou conta do meu ser. Tristeza? Saudade? Esperança? Talvez tudo junto. Talvez apenas a saudade alimentando a esperança. Quem sabe se a esperança apagando a tristeza e suavizando a saudade.
Fechei os olhos, como querendo arrancar lembranças da escuridão. Tentei dizer algo, mas achei que seria inútil. Para quê? Ele não me ouviria. Os seus restos estavam ali insensíveis, inertes, aguardando o dia glorioso da ressurreição. Engoli as minhas palavras, lembranças e saudades. Deixei apenas aflorar no olhar a esperança do reencontro com aquele homem simples que se foi gastando como uma vela para ver os seus filhos realizados na vida.

O Senhor Jesus contou um dia uma parábola usando esta figura eloquente do relacionamento pai-filho, para exprimir o tipo de relacionamento que quer ter com o ser humano. "Um homem tinha dois filhos", disse. Aqui está descrito o segredo de uma vida vitoriosa e feliz. Cristianismo não é apenas relacionamento com uma doutrina ou com uma igreja. Cristianismo é, acima de tudo, relacionamento com a pessoa de Jesus.
Sabes qual é a tragédia da religião? Nós, seres humanos, substituímos a vida interior por exterioridades. Estamos mais preocupados com as coisas que se veem, com as formalidades, com a parte externa da religião. Vivemos a vida tentando ser bons. Lutamos uma vez e outra e nunca conseguimos. Então ficamos frustrados e pensamos que o cristianismo não resulta. "Não é para mim" - dizemos, e abandonamos tudo. Porquê? Porque medimos o cristianismo pelas coisas boas que fazemos ou pelas coisas erradas que não fazemos.
Deus, porém, mede o cristianismo pelo tipo de relacionamento que temos com Ele. Para Deus, cristianismo é sinónimo de relacionamento. A boa conduta será sempre uma consequência natural do relacionamento com Cristo.
Na parábola do filho pródigo, o Senhor Jesus está a tentar dizer-nos que Deus nos olha como filhos e não apenas como 'criaturas que têm o dever de obedecer'. Ele não olha para nós apenas como computadores sem alma, sem coração, sem vida, fabricados com o dever de fazer tudo bem. O apóstolo João exclama: "Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, ... de sermos chamados filhos de Deus" (I João 3:1). Deus mesmo diz: "Quando Israel era menino, Eu o amei; e do Egipto chamei o Meu filho" (Oseias 11:1). Encontramos aqui o sentido íntimo do relacionamento que envolve o cristianismo. Nós amamo-l'O porque Ele é nosso Pai. Obedecemos-Lhe porque O amamos, servimo-Lo com prazer devido aos laços íntimos que nos prendem. Isto revitaliza o cristianismo. Ver em Jesus não apenas o meu Salvador, mas também o meu Pai e meu Amigo, ajuda-me a viver uma vida espiritual abundante e feliz, livra-me do legalismo, do farisaísmo e da pseudo-ortodoxia.
Aqueles cuja religião se baseia no amor não sucumbem às asperezas da vida. Só quando o amor diminui é que as regras começam a amontoar-se. Quando se ama alguém, não é preciso servi-lo por meio de regras. Naturalmente necessitamos de leis e normas, para darem expressão pormenorizada aos princípios mas o amor conduz-nos naturalmente àquilo que é correcto. O homem que ama não obedece às normas porque são obrigatórias. A sua obediência é consequência do seu amor.
Nessa relação Pai-filho, o que Deus mais quer é ter-nos perto do Seu coração. O trágico do pecado não é o facto de que quebramos uma norma escrita. É o facto de que nos afastamos de Deus e, em lugar de O amar começamos a ter medo d'Ele; em lugar de O procurar, fugimos d'Ele e escondemo-nos; e Deus, nosso Pai amoroso, não pode suportar isso, porque nos ama e quer ter-nos nos Seus braços de volta.

"Um pai tinha dois filhos" - quantas mensagens em tão poucas palavras! Deus está a dizer que para Ele não existe diferença entre os Seus filhos. Ele pode ser Pai de dois, de dois mil ou de um milhão de filhos e a sua capacidade de amar não tem fronteiras. Durante todo este tempo, em que por algum motivo da vida andaste longe, pensas que o coração d'Ele não sangrou? Ele sabe onde estiveste. Ele sempre soube. Ele conhece as tuas angústias, as tuas tristezas e revoltas. E ama-te dessa maneira. No meio da multidão, tu és único. Não estiveste lá. O teu lugar esteve sempre vazio porque para Deus ninguém te substitui.
Quando o meu pai fez 80 anos, os meus irmãos prepararam-lhe uma linda festa de aniversário. Estava tudo pronto. Luzes, cores, alegria, música e também o bolo que em ocasiões como estas não pode faltar. Lá em casa a mesa é grande, somos nove irmãos e, com as noras, genros e netos a família cresceu. Todos temos o seu lugar designado na mesa, mas, naquela noite eu estava no estrangeiro e o meu lugar na mesa estava vazio. Quinze dias depois, recebi uma carta do meu pai. Ele dizia: "Filho, a festa estava linda, mas faltavas tu. Os teus irmãos tentavam alegrar-me, mas a saudade apertava o coração. Sofria ao ver aquele lugar vazio". Compreendes o que Deus está a querer dizer? A festa lá nos Céus poderá ser muito bonita, mas, sem ti, a alegria não será completa. O teu lugar estará sempre vazio.
Se alguma vez tiveste a ideia de que não és muito importante, tira-a e liberta-te desse pensamento, por favor. Se alguma vez alguém te deu a entender que não fazes falta, esquece e perdoa-lhe. Levanta os olhos e vê o teu Pai com o coração aberto à tua espera. Não vejas n'Ele apenas um juiz severo, pronto a condenar; tenta vê-Lo como o Pai disposto a restaurar. ...

"Um certo homem tinha dois filhos." Filhos! É isto que tu e eu somos para Deus. Nós não merecemos, mas Ele fez de nós Seus filhos. Nós não somos dignos, mas Ele compraz-Se em chamar-nos filhos. Ele não tem vergonha de comunicar ao Universo inteiro que eu sou Seu filho e Ele ama-me, apesar do que eu possa ser. Eu não compreendo isso, mas agradeço-Te, ó Deus!"
(...)

A LOUCA CORRIDA QUE NÃO ACABA NUNCA

"Poucos dias depois, o mais novo vendeu o que era dele e partiu para uma terra muito distante, onde gastou todo o dinheiro numa vida desregrada." Lucas 15:13

Em 1979, cheguei a uma grande cidade e, depois da pregação, um irmão convidou-me para almoçar em sua casa. Durante o almoço, o irmão falou entusiasmado do seu único filho, um rapaz louro de dezasseis anos e olhos azuis. A conversa girou em torno dos planos que tinha para o filho.
"Ele vai estudar medicina" - disse - "e, quando se formar, vou vender a quinta e construir uma clínica para ele." Quanta alegria, quanta esperança e expectativa! Era maravilhoso ver aquele entusiasmo.
Um ano depois, voltei àquela cidade e, uma noite, logo após a pregação, aquele mesmo pai procurou-me desesperado.
- Pastor, o senhor precisa de ir a minha casa e ajudar o meu filho - disse aflito.
Fomos lá e, desta vez, o quadro era completamente diferente. O rapaz parecia um gato selvagem. Tinha o rosto cheio de espinhas e os olhos avermelhados. Um tique nervoso à altura dos olhos tornava o seu aspecto mais deprimente. Ficou apavorado quando me viu. Seria impossível reconhecê-lo se o pai não afirmasse que era o mesmo rapazinho loiro de olhos azuis que eu tinha conhecido há um ano atrás. Onde estava a pureza do olhar? Onde estava aquele rosto sereno de sorriso agradável?
Um ano! Apenas um ano! Em tão pouco tempo, as drogas tinham deformado completamente aquela jovem vida.
"Poucos dias depois". Isto revela a rapidez com que o pecado estraga as coisas em que toca. O ser humano começa a brincar 'inocentemente' com o pecado e, pouco tempo depois, está atado da cabeça aos pés.

Primeiro é um cigarro, só por curiosidade. Depois, mais um para 'experimentar realmente o sabor' e, pouco tempo depois, o vício toma conta por completo do indivíduo.
Primeiro é um simples olhar, depois um aperto prolongado de mãos com uma mulher que não é a esposa e, pouco tempo depois, o homem deita tudo pela janela e até abandona a família, os amigos e a igreja.
Tudo começa com uma 'bebida social', apenas pela circunstância, para agradar aos amigos e, pouco tempo depois, está caído na sargeta tendo perdido até o respeito próprio.
Os namorados começam com uma carícia leve, aparentemente inocente. Que mal há nisso? Pouco tempo depois, estão prisioneiros dos seus instintos e com um complexo de culpa que os atormenta horrivelmente.

Recebo centenas de cartas de jovens que brincaram com o pecado. Apenas por curiosidade, para não dar 'uma de antiquado' e, pouco tempo depois, descobriram-se atados de pés e mãos; sentiram-se como Pedro no alto mar, com a água até ao pescoço, impotentes e submetidos por completo ao poder do inimigo.
"Estou a escrever esta carta para dizer que fui membro da igreja durante 8 anos, mas afastei-me e não consigo voltar. Tenho vontade de voltar, mas tenho vergonha. Estou viciado na bebida e noutras coisas. Porquê, Pastor, por que razão é tão difícil voltar? Tenho vergonha de todos. Vivo fugindo dos irmãos. Estou perdido. Ajude-me, por favor!"
O clamor angustiante desta carta, lembra a atitude do filho que "poucos dias depois" partiu para um país distante. Perto do pai, não teria condições de viver como queria. Mesmo que o pai não dissesse nada, o seu olhar carinhoso seria uma permanente repreensão ao estilo de vida que ele pretendia viver. Aqui está uma grande verdade em relação ao pecado. É impossível pecar na presença do Pai. É difícil errar na presença dos seres que amamos. É preciso fugir, esconder-se, partir para um país distante. O que o pecador mais deseja é ficar longe do pai, longe dos conhecidos, longe da igreja. Essa é a única maneira de viver sem restrições e então, perigosamente, começa a triste corrida que pode não ter fim.

O ser humano tenta esquecer tudo o que tem a ver com Deus. "Não me fale de Deus, nem dos irmãos, nem da igreja. Quero apagar tudo isso da minha vida. Risquei esse capítulo." Mas, Deus continua a falar, a chamar, a suplicar. É difícil não sentir a Sua voz convidativa. Cada pormenor da vida: o canto do passarinho, o desabrochar de uma flor, o despontar do dia, o crepúsculo, um acidente, uma doença, enfim, através de um detalhe qualquer, Deus parece estar a dizer: "Filho, onde estás, Eu amo-te, volta aos Meus braços de amor." (...)

O REGRESSO

"Levantou-se e voltou para o pai. Mas ainda ele vinha longe de casa e já o pai o tinha visto. Cheio de ternura, correu para ele, apertou-o nos braços e cobriu-o de beijos." Lucas 15:20.

"Tenho vergonha"; "fui longe demais"; "já é muito tarde". São expressões que tenho ouvido muitas vezes de pessoas que sentem a voz de Deus a chamar ao coração, mas que por algum motivo ficam paralisadas onde estão. Decidiram voltar, responderam ao apelo, reconheceram a sua triste situação, mas não têm forças para iniciar a caminhada de volta.
Se soubessem a dimensão do amor do Pai, sem dúvida não hesitariam. Eu imagino que desde o momento em que o filho partiu, o pai ficou no terraço da casa, olhando para o caminho e dizendo para si: "Ele voltará, eu sei que ele vai voltar um dia! Não sei quando, nem como, mas sei que um dia ele aparecerá ao fundo do caminho. Vou esperar por ele de braços abertos. Não posso perder a esperança. Continuarei a acreditar nele, embora toda a gente mostre desconfiança, e embora ele próprio pense que já não existe solução para o seu caso."
E a história diz que o filho "levantou-se e voltou". Não ficou parado no 'vou decidir e ir'. Não ficou apenas na decisão. Ele voltou. Como? Tal como estava: sujo, cheio de piolhos, com os cabelos e as unhas grandes, a cheirar a porco e a vestir trapos de imundície. Aqui há algo que precisamos de entender. Muitos ficam no vale da indecisão e do desespero, apenas porque não compreendem o sentido desta parábola.
Se o filho pródigo tivesse tomado banho, cortado o cabelo e as unhas e colocado uma boa água de colónia antes de voltar, então a igreja teria que mudar a sua doutrina da justificação, que é pela fé, e da santificação, que também é pela fé.
Meu amigo, tens que voltar ao Pai tal como estás, com o teu cigarro, com as drogas, com os complexos, traumas e marcas que o pecado possa ter imprimido na tua vida. Não tentes, por favor, resolver os teus problemas sozinho; não penses: "Largarei primeiro o cigarro antes de voltar". Não, por favor, volta com o teu cigarro. Não raciocines: "Abandonarei as três mulheres que tenho ilicitamente para que o Pai possa aceitar-me". Não, não é assim que funcionam as coisas no reino de Deus. Ele diz: "Filho, vem a Mim como estás, seminu, cheirando a porcos, imundo; vem! trazendo-Me os teus farrapos, os teus vícios, os teus traumas." E, oh! Amor maravilhoso que a parábola descreve! O pai não tem nojo do filho malcheiroso! O pai abraça-o e beija-o.

Compreendeste? Como poderia o Pai ter nojo de ti, se tu és para Ele a coisa mais linda neste mundo? Achas que Ele vai rejeitar-te, como às vezes os homens rejeitam? Pensas que, pelo facto de na tua vida serem visíveis as marcas do pecado, o Pai te virará o rosto e te condenará? Não, mil vezes não! Ele, com certeza, te abraçará, te beijará; tira-te as roupas imundas, dá-te banho, corta os teus cabelos e unhas; porque a salvação é d'Ele. É Ele que justifica e é também Ele que santifica. É Ele que perdoa e é também Ele que dá poder para uma vida de vitória e obediência.

Conheço muitas pessoas que ficam perdidas na vida, tentando inutilmente resolver os seus problemas. "Eu voltarei, pastor", dizem, "mas primeiro tenho que resolver os meus problemas." "Eu voltarei, pastor", dizem, "mas primeiro tenho que resolver a minha vida." E eu digo-te em nome de Jesus que, se pensas que para voltar precisas antes de corrigir os teus erros, certamente nunca voltarás. Tudo o que conseguirás é acumular uma colecção de fracassos e promessas não cumpridas. Isto acrescentará cada vez mais ao teu coração o senso de culpabilidade e impotência que irão apagando lentamente a voz de Deus.
Eu sei que neste momento estás a sentir a voz do Pai chamando: "Filho, está na hora de voltares". E pergunto-me: porque chegaste onde chegaste? O que foi que te afastou de Cristo e da Sua igreja? Lembras-te? Foi a discussão com um irmão? Foi o mau testemunho de alguém? E agora, responde: Valeu a pena ter saído? Claro que não! Andaste todo esse tempo solitário e triste. Cada vez que chegava o pôr do sol de sexta-feira, uma estranha sensação de dor tomava conta do teu coração. Às vezes, quando paras em frente de uma igreja, o teu coração bate aceleradamente. Não, nunca foste feliz lá fora. A maior prova disso é que chegaste até este ponto do livro. Podes estar a perguntar: "Como é que este homem me conhece?" E a verdade é que eu não te conheço, embora muitas vezes tenha orado pelo teu regresso, mesmo sem te conhecer.

Um dia, nos minutos da minha vida devocional, senti a voz de Deus falar ao meu coração: "Alejandro, escreve o que estás a pensar, porque tenho centenas de filhos maravilhosos a chorar lá fora. Estão tristes, vazios, procurando algo que, no fundo do ser, sabem perfeitamente que sou Eu. Escreve para eles, porque este livrinho será o instrumento que usarei para os trazer de volta. Nos Meus braços não sentirão mais frio, ao Meu lado não experimentarão mais fome; preciso que eles voltem enquanto não chega a noite, enquanto ainda conseguem ouvir a Minha voz chamando-os."
É por isso, meu amigo, que estou a escrever estas linhas, e é por isso que agora vou pedir que te ajoelhes onde estás, ou simplesmente que feches os olhos, ou então que apenas fales só para ti, dizendo: "Pai, chega!, eu já me magoei demais na vida. Estou ferido, cansado de pecar, cansado de viver, de sofrer, de procurar; por favor, Pai, estou aqui de volta aos Teus braços, sem promessas, porque já prometi tantas vezes e nunca cumpri; simplesmente - estou aqui! Podes limpar-me? Podes restaurar-me? Podes fazer por mim o que sempre fui incapaz de fazer por mim mesmo?

E AGORA?

Uma das últimas armas que o inimigo usa para manter as pessoas cativas no seu território é a montanha de dificuldades que ele coloca no caminho de volta. Vejamos.

A primeira dificuldade podes ser tu mesmo. Sempre contrariaste os teus queridos que esperavam que voltasses. E agora, como fica? Vais dar o braço a torcer? Eles venceram e tu perdeste? E, no primeiro dia que apareceres de volta na igreja, não irá toda a gente olhar para ti com curiosidade? Com certeza que vais encontrar-te com pessoas que de alguma forma um dia te magoaram; como é que vais reagir?
E a vida? Não estão todos à espera que, a partir de então, vivas uma vida exemplar? E se não conseguires? E se a decisão que acabas de tomar der em nada?
Eu sei, meu querido amigo, que todas essas inquietudes estão a passar pela tua cabeça, mas quero dizer-te uma coisa: Se as pessoas que um dia decidiram seguir a Jesus olhassem para o futuro e quisessem ver o caminho limpo de pedras e espinhos, ninguém, mas ninguém mesmo, seguiria Jesus. Esse era o meu grande erro quando jovem. Concentrava toda a minha atenção nas dificuldades da vida espiritual. Vivia ansioso por causa dos meus erros. A minha expectativa concentrava-se toda na minha conduta; e isso só me causava desespero e frustração. Mas um dia, concentrei toda a minha atenção em Jesus, e as coisas mudaram.
Às vezes, à noite, deitado na minha cama, vejo-O sorrindo para mim, como se eu fosse uma criança que está a aprender a andar, e Ele, lá na frente, vai-me animando: "Vai, filho! Vais conseguir! Mais uma vez! Isso!"
Ah! meu amigo, não sei que palavras usar para te convencer de que este é o segredo de uma vida vitoriosa. Nunca olhes para trás, nem para os lados. Olha para a frente! Se olhares para trás, só verás o passado tentando massacrar-te com o martelo da culpa. Se olhares para os lados, ouvirás muitas vozes: condenação, vingança, ventos contrários, escuridão e ondas gigantescas, tentando afundar a tua pequena embarcação. Então, por tudo o que mais queiras, olha para a frente. No meio da noite escura e do vento gelado, está Aquele que é poderoso para salvar e, em nome d'Ele, sai do barco das incertezas e caminha sobre as águas da indiferença deste mundo. Faz o impossível, quebra as leis da Natureza. Vai em frente com os olhos fixos no Autor e Consumador da fé: o teu amigo JESUS.

Um grande abraço. Espero ver-te quando Jesus voltar.
Alejandro Bullón - (Ver Links 1R)

ABRAÇO DE PAI



DEUS CHOROU, DEUS SORRIU


(Pode adquirir o 1º livro da mensagem e os outros 3 - muito bons! - na Publicadora SerVir, Links 3I)

sábado, 14 de julho de 2012




PRÓLOGO

O soldado cubano

Do meu lugar, eu conseguia ver uma parte da pista de aterragem. Porquê esta espera? Depois de ter passado cinco dias no Huambo, eu só tinha um desejo: chegar a Luanda, a capital de Angola. O Huambo era uma cidade cercada pelos soldados da UNITA. Todas as noites o barulho das metralhadoras nos lembrava que a guerra estava a alguns passos das casas. Quanto aos dias, eles eram ritmados pelo barulho incessante dos aviões e dos helicópteros soviéticos. Os soldados cubanos marchavam despreocupadamente nas ruas ou patrulhavam nos quarteirões da periferia. À excepção dos pilotos russos e de um representante da Cruz Vermelha, não vi Europeus. As lojas, ou o que restava delas, apresentavam estantes desoladoramente vazias. A cidade, outrora bela e acolhedora, degradava-se dia a dia. Eu não tinha vindo para fazer uma reportagem, mas para me encontrar com crentes. As igrejas estavam completamente cheias. Muitos jovens participavam nos serviços religiosos. Todos estavam ávidos de ouvir falar de Deus.

O avião esperava sem se mexer. Um jeep atravessou a pista e veio parar por baixo da escada. Quatro soldados cubanos desceram rapidamente. Um quinto estava estendido sobre uma maca. Os outros puxaram-no pelos braços, subiram-no para o avião e dirigiram-se para o fundo da cabine. Tive tempo de ver a sua face: Como ele era jovem! Devia ter 18-19 anos como o meu filho mais velho. A ligadura que o envolvia estava manchada de sangue. Ele sofria! A ferida parecia grave. Iria ele sobreviver?

Imaginei os seus pais a receberem a notícia. A sua infância, a sua juventude em Cuba. Morrer tão longe, por quem, porquê? Será que ele foi forçado a alistar-se? Ou era voluntário? Que pensava ele agora? Não sei bem porquê, mas fiquei a meditar sobre o sucesso. Como todos os jovens da sua idade, o soldado cubano tinha, sem dúvida, projectos e sonhos. Ele tinha talvez imaginado uma vida bem planeada, com alegrias, trabalho, vitórias, a felicidade de uma família, numa palavra, uma vida de sucesso. De repente, tudo desabava. Se ele morrer à chegada a Luanda as pessoas dizem que não teve sorte; sim, ele falhou na sua vida. Este pensamento entristeceu-me. Eu tinha dificuldade em aceitar isto.

Será que o sucesso estaria reservado àqueles que vivem muitos anos e ganham muito dinheiro? E os outros? Uma reflexão leva a outra e comecei a perguntar a mim mesmo o que é o sucesso. Será acessível a todos? Quais são os seus segredos? Como conseguir ser bem sucedido na vida?

Fiz a mim mesmo estas perguntas durante alguns anos. Falei delas em encontros de jovens. Por toda a parte pude constatar o mesmo interesse e por vezes a mesma confusão. Há muito mais rapazes e raparigas a duvidar das suas possibilidades do que nós imaginamos. O futuro faz-lhes medo. Têm tendência para fugir dele.


Ela tinha as condições para o sucesso

Aquela jovem que começou a chorar quando lhe falei de Deus tinha tudo para ser bem sucedida na vida. "Há pensamentos negativos que atravessam a minha cabeça. Eu não consigo acreditar que Deus me ama. Quanto ao meu futuro, disse-me ela, parece-me completamente sem interesse." Ouvi-la reagir assim foi para mim um grande choque. Ela tinha todas as condições para o sucesso. Porque se recusava a admiti-lo? A resposta foi-me dada quando ela me contou a sua infância. O pai batia-lhe todos os dias e a sua madrasta aproveitava todas as ocasiões para a humilhar.

Ela lutava para construir a sua personalidade. Duvidava muito. Pedi-lhe para pegar numa folha de papel e num lápis: "Faz duas colunas. No cimo da primeira põe o sinal menos e na segunda põe o sinal mais". Seguindo o meu conselho ela fez duas listas. Primeiro a das suas dificuldades. Eu li: Falta de confiança, de conhecimento, infância difícil, solidão... Depois do quarto ponto eu disse-lhe: "Faz uma lista dos teus pontos fortes, dos teus triunfos". Ela corou. Era a primeira vez que lhe pediam isso. "Eu vou ajudar-te. És bonita ou feia?" Ela não era feia. "És doente ou saudável?" A lista tomou forma: cinco, seis, sete... A sua face iluminou-se. Ela não podia esconder a sua alegria. Face à vida ela descobria as suas armas, as suas possibilidades. A possibilidade de êxito também existia para ela.

Neste livro, enumerei dez princípios para o sucesso aos quais juntei 'O princípio dos princípios' sem o qual todos os nossos esforços seriam em vão. Passa algum tempo a meditar em cada um deles. Encara as suas possibilidades de aplicação e imagina-te a praticá-los. Mas, não fiques por aí. Parte à descoberta de outros. Observa as pessoas que, à tua volta, têm sucesso, fala com elas, avalia as razões do seu êxito. Está-se sempre pronto para ajudar quem quer aprender.

Não te deixes impressionar pelas derrotas, pelas amarguras daqueles para quem o sucesso foi reservado a uma 'elite' de berço ou a pessoas pouco honestas. Isso é apenas uma visão muito parcial e injusta do assunto. O sucesso espera-te. Ele estende-te os braços. É a ti que compete responder ao seu convite.

Gostaria que pudesses acreditar nas tuas possibilidades. Deus deu-te talentos. Descobre-os. Tu não estás neste mundo por acaso. Diante de ti está um caminho. Segue-o! Não estás só. O Senhor acompanhar-te-á. Com Ele tu terás êxito na vida. Não te desvies dele e nada te poderá impedir de conseguires.


PODEROSO, RICO E CÉLEBRE

"Aqui na terra o nome de um grande homem é semelhante a letras escritas na areia, mas um carácter sem mancha subsistirá durante a eternidade." E. W.

"Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma? Ou que dará o homem em recompensa da sua alma?" Mateus 16:26

Algumas palavras têm sentidos mágicos. Analisemos, por exemplo: SUCESSO. É uma palavra bem actual. Evoca lutas, derrotas, vitórias, heróis. Ressoa nos ouvidos dos ambiciosos como uma ordem, uma necessidade. Ela fascina, fica-se obcecado. São raros aqueles que lhe ficam indiferentes.
Quando se é jovem pensa-se no seu próprio sucesso. Quando se chega a velho deseja-se o sucesso para os filhos ou netos.
Ser bem sucedido tem, na origem, o sentido de 'sair-se bem' (do latim 'exire'). Ter sucesso é, para muitos, sair do anonimato, da multidão dos desconhecidos e criar um nome. Um nome na primeira página dos jornais, em letras luminosas sobre os arranha-céus de Manhattan. Quanto mais ele for visto e lido, maior será o seu sucessso.

O SUCESSO É ISTO?

Ter sucesso será assemelhar-se a esta publicidade de revista: Um homem com cerca de quarenta anos vestido por Pierre Cardin, saindo de um luxuoso restaurante com o cartão de crédito ainda na mão, acompanhado de uma mulher jovem, fato Chanel, jóias Cartier, dirigindo-se para um magnífico BMW? Ao longe espera-os um avião privado.
Ter sucesso na vida, será isso? Sim! De certo modo. É verdade que, hoje, na nossa sociedade, os indicadores de sucesso são a riqueza, o poder e a celebridade.

GANHAR MUITO DINHEIRO

Interrogaram-se 290 000 adolescentes americanos (American Council on Education, 1989) sobre o seu futuro. 76% responderam que queriam ganhar muito dinheiro. Quando foi feita uma segunda pergunta, 56% disseram que queriam ajudar os mais pobres. Em 1966 no mesmo país os adolescentes tinham colocado como prioridade a qualidade de vida - 83%; e a ajuda dos mais desfavorecidos - 69%.
Isso poderia significar que a juventude ocidental actual é mais sensível aos valores 'materialistas' do que a dos anos sessenta. Pelo meu lado, desconfiando das sondagens, eu diria que ela é menos sensível aos discursos idealistas. Haverá sempre entre os jovens um desejo enorme de ser útil, de fazer o bem. Quando eu era estudante, a riqueza parecia ser, para mim, um insulto à justiça. Os que a possuíam encarnavam o mal e os pobres o bem no estado puro.

Eu partilhava a visão do filósofo Roger Garaudy quando dizia: "O mundo está dividido em duas categorias, os pobres e os ricos, os opressores e os oprimidos". Mas a vida ensinou-me que as coisas não são assim tão simples. Tenho ainda presente na minha memória os olhos de um mendigo implorando caridade. Isso ocorreu na Índia. Que podia eu fazer por ele? Eu não tinha nada, tirando o meu bilhete de avião, a minha máquina fotográfica, uma mala com roupa, um saco de viagem com trinta quilos de recordações, uma família que me esperava na Europa, estudos acabados há pouco, mais nada. Então nos seus olhos eu li como que uma reprovação: "Como tens a ousadia de dizer que não possuis nada?"

Para o pobre, a riqueza é, ao mesmo tempo, um insulto e um sonho. Mas tentem dizer-lhe que isso não é uma forma de sucesso! Consciente ou inconscientemente todos nós temos por vezes o sonho de sermos ricos. Acontece mesmo que há crentes que consideram a riqueza como a prova por excelência de bênção divina.


DEUS, O GRANDE FORNECEDOR DE BENS

Durante uma das minhas estadas em Nova Yorque, ouvi pela rádio um pastor que afirmava com convicção: "Se deseja ter riqueza, amor, saúde, aproxime-se de Deus. Ele vai satisfazê-lo." É a mensagem de uma religião popular que faz de Deus o grande fornecedor de bens materiais.
Se isso fosse assim tão simples, Jesus não teria nascido num estábulo. Teria vivido em palácios e enchido os seus discípulos de presentes: para Mateus, a chave de um banco na mão e uma fábrica de presentes piedosos para Judas, algo que lhes assegurasse um futuro confortável.
A ideia parece-te ridícula. Não imaginamos homens da têmpera de Paulo a viverem no luxo, deslocando-se em limusines, protegidos por guarda-costas armados e musculosos, dispondo de uma fortuna colossal. No entanto, recordem que na época de Jesus a riqueza era considerada como uma prova de bênção. Quanto mais um homem era rico, mais ele estava convencido de entrar no reino de Deus. Os discípulos acreditavam nisso. Jesus vai chocá-los, quando afirma: "Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas" (Marcos 10:23)! A palavra grega traduzida por riqueza é chrémata. Ela significa, segundo Aristóteles: "Todas as coisas cujo valor é medido pelo dinheiro. Tudo o que é convertido em moeda."
As riquezas não são uma prova de bênçãos, diz Jesus. Ele vai ainda mais longe quando acrescenta:
"É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que entrar um rico no Reino de Deus." Reacção dos discípulos: "E eles se admiravam ainda mais dizendo entre si: Quem poderá, pois, salvar-se?" (Marcos 10:25, 26) Eu compreendo bem esta pergunta, porque, enfim, se aqueles que são abençoados se arriscam a não ser salvos, quem o será? Seguindo Jesus, os apóstolos esperavam, sem dúvida, ganhar nos dois aspectos: serem ricos e salvos! Ter a vida eterna e gozar aqui em baixo todas as vantagens possíveis. Quem dá mais? É uma religião que tem um sentido prático.

Porque é que as coisas não se poderiam passar assim? Não temos razão quando dizemos que é melhor ser-se rico, belo, gozando de boa saúde, do que feio e doente? A pobreza não é um ideal, é um acidente. Ela é a prova de que algo vai mal, que há uma injustiça em qualquer parte. Onde está pois o problema com a riqueza? Sejamos claros, não é a riqueza em si que Jesus denuncia, mas a importância que se lhe dá e a maneira como é utilizada. Por outro lado, a riqueza não é necessariamente uma bênção como muitos crêem, mas ela comporta grandes riscos. Porquê?

UMA GRANDE RESPONSABILIDADE

O amor ao dinheiro pode mobilizar todas as nossas energias, apoderar-se do nosso coração e dos nossos pensamentos. Aqui está o perigo. "Ninguém pode servir a Deus e a Mammon" diz Jesus. A riqueza pode convencer-nos de que compra tudo. É verdade que com o dinheiro se compra muita coisa. A corrupção não é a chaga por excelência das nossas sociedades em que o dinheiro reina como Senhor? O filósofo grego Chilon tinha razão ao dizer: "É na pedra de toque que se experimenta a pureza do ouro, mas é com o ouro que se experimenta a bondade ou a malícia dos homens." Os valores verdadeiros, como a amizade, o amor, a justiça, a paz, a esperança e a vida simplesmente não se compram. Isto faz-me pensar no célebre milionário grego que pouco antes de morrer teria dito: "Fui bem sucedido em tudo o que empreendi, excepto na minha vida." O apóstolo Paulo está consciente disso quando escreve: "Manda aos ricos deste mundo que ponham a sua esperança em Deus" (I Timóteo 6:17). O sucesso é muito mais do que a riqueza. Ele não só dá um sentido à vida, mas contribui igualmente para o desabrochar de uma personalidade na sua totalidade. Enfim, a riqueza é, de facto, uma grande responsabilidade. Quanto mais a pessoa possui, mais ela será julgada pelo modo como utilizou as suas posses. Um dia Deus pedirá contas aos que enriqueceram à custa do sofrimento e da morte de outros. Do traficante de drogas ao traficante de armas. Chegará um dia em que eles terão de dar explicações.
Atenção, não me interpretem mal: um rico pode ser um bem para a sociedade, para os pobres, para a sua cidade e o seu país. Por vezes ponho-me a pensar: "Ah! Se eu pudesse ser milionário. Faria 'montes' de coisas úteis." Na minha cabeça, tenho uma longa lista de projectos. Que prazer eu teria em financiar escolas e hospitais!
Mas eu não sou milionário. Talvez seja melhor assim para a minha saúde. Porquê? Porque a vida, a verdadeira vida, é muito mais do que possuir os bens materiais. Sem contar com o facto de que a riqueza fará talvez de mim um ser agressivo. Dominador, sem coração. Eu perderia a paz e, sem dúvida, a amizade dos que me são próximos.


À PROCURA DO PODER

Nietzsche escreveu: "Onde encontrei um ser vivo, descobri a força de vontade". Não é totalmente falso. Cada indivíduo sonha possuir uma parcela de autoridade, de poder.
Vendo o seu filho de dezassete anos domesticar o seu cavalo selvagem, Filipe da Macedónia disse-lhe: "Meu filho, a Grécia é demasiado pequena para ti. Terás o mundo para conquistar". Alexandre partiu à conquista do mundo. As portas da Índia e da China abriram-se diante dele. Em dez anos percorreu 20 000 quilómetros. O sonho tornou-se realidade. Tinha apenas trinta anos.
Três anos mais tarde, morreu: aquele que se considerava divino e que nenhum exército conseguiu deter, perdeu o seu combate contra a morte. A verdade manifestava-se claramente. Ele não era Deus.
Quaisquer que sejam os títulos com que se vista, o homem acabará sempre por encontrar a morte no fim do seu caminho. Antes de Alexandre o Grande dar o seu último suspiro, os generais, preocupados com a sucessão, perguntaram-lhe quem seria o seu herdeiro? O futuro do seu imenso império estava em jogo.
Ele poderia ter respondido: "O meu filho, a minha mulher, o meu melhor amigo." Com um estranho sorriso conquistador pronunciou, sem se lamentar, estas três palavras: "O mais forte!" Os seus generais mataram a sua mulher e os seus filhos. O império foi dividido.
Jesus disse: "Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma?" (Mateus 16:26).


NOS PRÓXIMOS TRÊS ANOS DOMINAREI O MUNDO!

Durante as minhas viagens pela Europa, passei frequentemente por locais que relembram a época napoleónica. Em Portugal, em Espanha, na Alemanha, na Checoslováquia. Os meus amigos checos fizeram-me visitar o célebre campo de batalha de Austerlitz. Depois desta vitória legendária Napoleão escreveu: "Dentro de três anos eu dominarei o mundo!" Dez anos mais tarde, foi a batalha de Waterloo.
Alexandre, César, Napoleão, tiveram a sensação de ter chegado ao topo do sucesso. Quer isso dizer que o alcançaram? Aos seus discípulos, tentados pela corrida ao poder, Jesus apresenta propósitos talvez bastante subversivos. Ele desmistifica o poder como objectivo e substitui-o pelo serviço. Ele diz: "Sabeis que os que julgam ser príncipes das gentes delas se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre elas. Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal" (Marcos 10:42, 43).
Corajoso. Chamar aos dirigentes tiranos, a eles que o eram efectivamente, é um acto de muita coragem. Aqui está o que situa definitivamente o cristianismo em oposição às ideologias que preconizam a força como meio de governo. O apóstolo Paulo refere-se ao exemplo do Senhor quando escreve aos cristãos de Filipos: "Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade, cada um considere os outros superiores a si mesmo" (Filipenses 2:3).


AH! O PRESTÍGIO

"Se quiseres fazer uma maldade a um amigo, deseja-lhe a celebridade" respondeu o abade Pierre a um jornalista que o interrogava acerca da sua popularidade. Palavras de um homem que soube conciliar celebridade e simplicidade. São raros os casos. Nós podemos negligenciar o dinheiro, desprezar a busca do poder, mas procurar com paixão o prestígio, a popularidade.
Os crentes mais convictos, até mesmo os eclesiásticos, podem ser mais sensíveis ao prestígio que ao dinheiro. Quando eu decidi seguir a Cristo, os meus amigos pensaram que eu tinha perdido a cabeça. Quando lhes disse que queria ser pastor, foi o golpe de misericórdia. Uma decisão que para eles era idêntica a um suicídio social, o fim de toda a ambição. Perguntei-me por vezes o que era preciso fazer para reencontrar um pouco de crédito aos seus olhos.
Reparem, mesmo que o poder e o dinheiro nos deixem indiferentes, podemos, no entanto, ser sensíveis ao prestígio e consagrar-lhe a vida. É uma cilada!
Na época de Jesus, os fariseus, um grupo de pessoas muito religiosas, caíram numa cilada. Eles gostavam dos títulos: "Pai, Doutor, Mestre..." e dos primeiros lugares. Porquê? Para serem notados! "Eu estou lá com as personalidades, no meio delas, milhões de pessoas vêem-me na televisão. O que é importante é que me reconheçam. Posso não ser rico nem poderoso, mas estou com os grandes".
Se um dia tivermos este género de reacção, que as palavras de Jesus nos venham à memória. Ele dizia: "Amam o primeiro lugar nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas" (Mateus 23:6). Porque é que eles agiam desta forma? O Senhor responde: "Eles fazem todas estas coisas para os homens verem." Ai! Isto faz mal, mesmo mal, mas ao mesmo tempo pode ajudar-nos a ver mais claro. Muitas pessoas entregam-se a este género de jogo e estão prontas a perder toda a dignidade por um pequeno momento, por vezes nada mais do que um pequeno momento de 'glória'. Aqueles que recorrem ao Rei dos reis deveriam estar muito longe de tais manobras.
Jesus não procurava o prestígio. Ele recusou o poder, a riqueza, a popularidade. Ele não fazia campanhas publicitárias, não distribuía cartões de visita, não tinha nenhum título universitário. Nascido num estábulo como o mais pobre dos homens, foi crucificado como um bandido, e enterrado na semi-clandestinidade. Por isso o apóstolo Paulo diz que Deus "estabeleceu-O herdeiro de todas as coisas" e que Ele foi "feito mais excelente do que os anjos e herdou um nome melhor que o deles" (Hebreus 1:4).

ESCOLHE O ESSENCIAL

Pela procura do prestígio, da popularidade, arriscamo-nos a perder o essencial, ou seja, a verdadeira vida. Aquela de que nos fala a Bíblia. Aquela que nos dá a paz interior, a esperança, e que a morte não conseguirá destruir. Esta vida, não a podemos comprar nem conquistar. Não a temos em nós mesmos. Ela encontra-se em Deus, em Jesus Cristo. "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida" diz Jesus. E acrescenta: "Aquele que crê em Mim viverá." A vida, aquela que nunca acabará, o Senhor no-la oferece como presente. É preciso apropriarmo-nos dela com todas as nossas forças. "Toma posse da vida eterna" escreveu Paulo ao seu discípulo Timóteo (I Timóteo 6:12).
Ter sucesso na vida não é só viver melhor do que os outros, ter mais dinheiro, mais poder, ser célebre. É muito mais. É viver para sempre com o Senhor.


AS VERDADEIRAS RIQUEZAS

Segundo os nossos contemporâneos, a riqueza, o poder, a celebridade são indicadores por excelência do sucesso. Mas Deus pode dar-nos mais. "E se somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo" (Romanos 8:17). Temos dificuldade em avaliar o significado deste título: "Herdeiros de Deus". É fantástico! De fazer empalidecer de inveja príncipes e princesas. Não é um abuso de linguagem, ou um enfeite lírico. O mesmo apóstolo escreve aos crentes de Corinto:
"Portanto, ninguém se deve orgulhar de ser seguidor de qualquer homem. Pois tudo está ao vosso serviço; ( ... ) seja o mundo, a vida ou a morte; seja o presente ou o futuro. Tudo é vosso..." Mas atenção, existe, apesar de tudo, um 'mas': "Mas vocês são de Cristo e Cristo é de Deus" (I Coríntios 3:21-23). É a pertença a Cristo que faz de cada um de nós seres com um destino excepcional.
Milhões de pessoas correm atrás de toda a espécie de gurus ávidos de dinheiro, procuram métodos revolucionários para conseguirem dominar-se a si mesmos, à natureza e aos outros. Eles pensam que a Bíblia é um livro do passado e Cristo, um Deus morto. Falso! Jesus está vivo. Ele partilhará o Seu reino com os Seus discípulos. Incrível, não é verdade? No entanto, esta é a verdade. "E nos ressuscitou juntamente com Ele e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus" (Efésios 2:6). Os poderes terrestres parecem ser apenas sombras quando comparados com aquilo que nos espera. O apóstolo não inventa nada. Ele retoma simplesmente as promessas de Jesus aos seus discípulos: "Vós que me seguistes (...) também vos assentareis sobre doze tronos, para julgar as doze tribos de Israel" (Mateus 19:28). Eu não peço tanto. Viver num mundo onde o mal, o sofrimento, a injustiça, a morte não existirão mais, e sobretudo rever aqueles que eu amei, encontrar Aquele que eu servi e em quem eu cri satisfaz-me plenamente. Por estas palavras o Senhor diz-nos que não seremos turistas neste mundo novo, mas cidadãos por inteiro.
Não avaliemos o sucesso a partir dos critérios que a nossa sociedade material estabeleceu. Eles são inoperantes e limitados. Aprendamos a olhar mais alto, porque, no fim de contas, o sucesso, o nosso sucesso, não se manifestará a não ser na eternidade.


O HOMEM MAIS FELIZ

No princípio do seu reino, Creso, o riquíssimo rei de Lídia, convidou Sólon, o célebre legislador ateniense. A fortuna do monarca era imensa. Ele quis que o seu hóspede admirasse todos os seus tesouros. Creso colocou-lhe então a seguinte questão: "Qual é o homem mais feliz que encontraste em toda a tua vida?" Sólon citou-lhe alguns nomes. Um, porque tinha morrido pela sua pátria. Outro porque amava ternamente os seus pais e tinha tomado conta deles na sua velhice. Surpreendido, até irritado, por não ouvir citar o seu próprio nome, Creso interrompeu-o e disse-lhe: "E então eu? Não acreditas que sou eu o homem mais feliz do mundo?" Sólon, o sábio, reflectiu, e depois replicou que era impossível dizer que um homem tinha sido feliz antes dele ter morrido. O orgulhoso monarca fez um grande esforço para se conter e não mandar embora o sábio imediatamente.
Sucesso é um dos componentes da felicidade, por isso... não se contentem com sucesso efémero, espectacular talvez, até exaltante, mas que amanhã vos deixará na maior confusão. Procurem o êxito da vossa vida de uma forma completa e não a sacrifiquem por um instante de sucesso.
Três anos depois da visita de Sólon, os Persas apoderaram-se de Sardes. As riquezas de Creso foram pilhadas. Condenado à morte pela fogueira, ele lembra-se das palavras do seu célebre hóspede. Com soluços na voz, grita: "Sólon, Sólon, Sólon!" O rei Persa, Ciro, ouve-o. Intrigado, mandou suspender o suplício e fê-lo contar a história. Divertido por causa do medo de Creso e pelas palavras do ateniense sobre a felicidade, perdoou-lhe e fez dele seu conselheiro.

A TELA DO PINTOR

Há alguns anos, em Londres, foi leiloado um quadro cujo preço bateu todos os recordes. A tela tinha por título "As Íris". Estava assinada por Van Gogh. Enquanto vivo, o célebre pintor só vendeu um único quadro. Não era aquele. Ele conheceu a pobreza, afundou-se no alcoolismo e na loucura. Até foi encontrado um quadro seu no galinheiro de um dos seus credores. O quadro tapava o buraco de uma rede. O verdadeiro valor das suas obras só foi reconhecido depois da sua morte.
A nossa vida é como a tela de um pintor. É preciso tempo, perseverança e sofrimento para fazer uma obra de arte que só a eternidade revelará verdadeiramente.
Com a eternidade como perspectiva, podemos fazer da nossa vida uma verdadeira obra de arte. Talvez nunca nos tornemos ricos, nem poderosos, nem célebres aqui na terra. Os nossos nomes talvez não venham a estar inscritos na coluna social ou na enciclopédia. Será isto uma catástrofe? Claro que não! O importante, é que os nossos nomes sejam inscritos nos livros do céu. Desta forma a vida terá valido a pena. A verdadeira vida em Jesus Cristo, aquela que não terá mais fim.

1º Princípio: Para ter êxito nunca confundas sucesso com o poder, a riqueza ou a celebridade. Se por vezes eles caminham juntos, isso não quer dizer que sejam amigos.

John Graz in Conseguir - Nada nem ninguém te poderá impedir... - Edição Jovem

(Ilustrações de Marca-Páginas A Turminha de Franco e Associados)